Quando eles se converteram a Jesus, saiu um peso das costas, do tamanho do mundo. Foi um alívio. Perdão de pecados, remoção da culpa, alegria indizível, posse da vida eterna. Nenhum sentimento poderia ser melhor, nenhuma decisão seria mais acertada, nenhum pensamento mais alvissareiro. E também ganharam uma família – a Igreja. O primeiro amor foi assim belo e tocante.
No entanto, com o passar do tempo, a coisa mudou. Havia regras tão rígidas que aquelas pessoas passaram a vigiar o comportamento das outras, e uma cobrança geral se estabelecera. Em vez do sorriso, agora eles têm uma caveira carrancuda na face. Os olhos são como os dos santos barrocos das igrejas de Minas, o olhar de censura constante. “Não pode isso, não pode aquilo” é o mote desse povo que pensa que a santidade é uma clausura.
Caminham no sentido oposto ao de Cristo – enquanto o Filho de Deus Se humanizou, eles se desumanizam. Jesus desceu, mas eles querem viver como se já não estivessem nesse mundo, como se alguma elevação espiritual os proibisse de manter contato normal com as pessoas chamadas “ímpias”, “incrédulas” ou “descrentes”. A santidade passa a ser um fardo, uma separação, não do pecado, mas das pessoas. Enquanto Cristo encarnou, Se contextualizou, tabernaculou, essas pessoas querem escapar ao convívio, aos problemas comuns.
Há as receitas prontas sobre o que é certo. Mas, e quando dá errado? E quando um casal cristão se separa? E quando um servo de Deus é vocacionado e não fala em línguas? E quando o filho do pastor comete sérios deslizes? E quando a igreja precisa confessar um pecado coletivo? E quando o pastor entra em depressão? Como resolver problemas humanos numa comunidade de não-humanos?
Parece que os santarrões foram salvos do amor, salvos da necessidade de cultivar a virtude do amor. Amar é difícil. Amar é uma arte. Amar é ser humano como Deus quis que Adão fosse. Jesus foi humano, na Encarnação, porque amou à imagem e semelhança de Deus. E o amor é não pecar contra Deus, conduzir-se de modo a guardar os mandamentos do Pai de boa vontade.
Jesus humanizou-Se, e como Ser Humano de acordo com o Plano de Deus, Ele não precisou pecar, pois o pecado não faz parte da verdadeira Humanidade. Mas isso só é possível por causa do amor incomensurável que tem no Seu coração divino.
O legalismo consegue furtar do coração a alegria da Salvação pela Graça mediante a Fé, colocando no lugar uma firme tristeza dos que se sentem culpados tempo todo.
Santidade, afinal, é o processo que vive quem, sabendo-se pecador, aceita a correção e a transformação pelo Espírito – não é, jamais, a capa de quem, cheio de remorso e culpa, finge que tudo está bem, e que pode carregar o peso sozinho. O nome disso é hipocrisia.
Sexta-feira, 3 de Abril de 2009
Terça-feira, 31 de Março de 2009
Um registro sobre direita e esquerda
Estou pensando sobre a dificuldade de o brasileiro se apresentar como “de direita” e não ser considerado um reacionário. Com efeito, parece-me que no Brasil a direita é entendida como ideologia entreguista, sustentáculo do Regime Militar de 1964, manutenção do status quo, e todas as coisas ruins que possam existir, como a injustiça social, a opressão, o fundamentalismo.
No entanto, algumas coisas precisam ser esclarecidas. Como diz o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo, os militares da Ditadura de 64 não eram de direita, pois eram estatizantes, e estatismo é coisa da esquerda.
Estou dizendo isso porque minha intenção é discernir o que é ideologia política de direita num caminho diferente do seguido pelos esquerdistas, que gostam de associar à direita toda a maldade humana.
Ora, a direita defende, em linhas gerais, a liberdade individual, a livre iniciativa, o livre mercado, a igualdade de oportunidades, o Estado-mínimo, um direito penal mais repressivo, a meritocracia nas universidades, assim como tem problemas com o aborto e com a união civil de homossexuais. Já a esquerda prega a forte intervenção no mercado, as ações afirmativas (sistema de cotas), a estatização de empresas, o direito penal mínimo, as reservas contínuas de grupos indígenas, e tem simpatia pelo casamento gay, pelo aborto, pela eutanásia e por uma educação pública que intervém em questões familiares, como a criação dos filhos.
Essa generalização é perigosa como toda generalização. Mas é o que vejo, grosso modo, do que a direita e a esquerda ensinam. Sei que há inúmeras correntes de direita e de esquerda espalhadas pelo mundo, uma até mesmo extremistas, algumas ligadas à religião, mas minha intenção aqui, repito, é chamar a atenção para o fato de que a direita não pode ser contemplada como sinônimo do que não presta. A direita, a meu ver, tem sido injustiçada ou mal-compreendida.
Como nordestino, sei que o Coronelismo fez um mal tremendo à minha Região, notadamente na Bahia, há décadas assaltada por um grupo medonho. Mas quem disse que isso é coisa natural à direita? Por outro lado, não foram os esquerdistas que compraram votos de parlamentares com o chamado “Mensalão”?
Durante toda a minha infância e juventude, estive mais perto de conceitos de esquerda. Creio que isso se deve à memória recente da Ditadura. Todo mundo que se posicionava contra o Regime Militar, e que se lembrava daqueles tempos sombrios, acabava sendo tomado por esquerdista, e se tornava esquerdista mesmo. Como nasci em 1977, pude acompanhar a lamentação por Tancredo Neves (1985), o choque dos planos de Sarney (1985-90), a ascensão e impeachment de Collor (1990-92), além de toda a sequência. No dia 26 de agosto de 1992, participei, em Pojuca-BA, de manifestação pública liderada por petistas gritando “Fora Collor” ao som de Alegria, Alegria, que não parava de tocar. E também na Universidade (1996-2001) eu fui mais balançado para a esquerda.
No entanto, com o passar do tempo, fui tendendo mais para a direita, embora não tenha atividade política. Percebo essa tendência por causa de minhas opiniões conservadoras: sou contra o aborto e contra o casamento homossexual. Sou contra as reservas indígenas contínuas. Sou contra as cotas para negros. Sou contra o patrulhamento ideológico dos currículos escolares. Sou a favor de um direito penal mais repressivo do que as penas alternativas propõem.
Descobri que sou conservador. Mas eu quero ser conservador de coisas boas, não de estruturas de opressão.
No entanto, algumas coisas precisam ser esclarecidas. Como diz o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo, os militares da Ditadura de 64 não eram de direita, pois eram estatizantes, e estatismo é coisa da esquerda.
Estou dizendo isso porque minha intenção é discernir o que é ideologia política de direita num caminho diferente do seguido pelos esquerdistas, que gostam de associar à direita toda a maldade humana.
Ora, a direita defende, em linhas gerais, a liberdade individual, a livre iniciativa, o livre mercado, a igualdade de oportunidades, o Estado-mínimo, um direito penal mais repressivo, a meritocracia nas universidades, assim como tem problemas com o aborto e com a união civil de homossexuais. Já a esquerda prega a forte intervenção no mercado, as ações afirmativas (sistema de cotas), a estatização de empresas, o direito penal mínimo, as reservas contínuas de grupos indígenas, e tem simpatia pelo casamento gay, pelo aborto, pela eutanásia e por uma educação pública que intervém em questões familiares, como a criação dos filhos.
Essa generalização é perigosa como toda generalização. Mas é o que vejo, grosso modo, do que a direita e a esquerda ensinam. Sei que há inúmeras correntes de direita e de esquerda espalhadas pelo mundo, uma até mesmo extremistas, algumas ligadas à religião, mas minha intenção aqui, repito, é chamar a atenção para o fato de que a direita não pode ser contemplada como sinônimo do que não presta. A direita, a meu ver, tem sido injustiçada ou mal-compreendida.
Como nordestino, sei que o Coronelismo fez um mal tremendo à minha Região, notadamente na Bahia, há décadas assaltada por um grupo medonho. Mas quem disse que isso é coisa natural à direita? Por outro lado, não foram os esquerdistas que compraram votos de parlamentares com o chamado “Mensalão”?
Durante toda a minha infância e juventude, estive mais perto de conceitos de esquerda. Creio que isso se deve à memória recente da Ditadura. Todo mundo que se posicionava contra o Regime Militar, e que se lembrava daqueles tempos sombrios, acabava sendo tomado por esquerdista, e se tornava esquerdista mesmo. Como nasci em 1977, pude acompanhar a lamentação por Tancredo Neves (1985), o choque dos planos de Sarney (1985-90), a ascensão e impeachment de Collor (1990-92), além de toda a sequência. No dia 26 de agosto de 1992, participei, em Pojuca-BA, de manifestação pública liderada por petistas gritando “Fora Collor” ao som de Alegria, Alegria, que não parava de tocar. E também na Universidade (1996-2001) eu fui mais balançado para a esquerda.
No entanto, com o passar do tempo, fui tendendo mais para a direita, embora não tenha atividade política. Percebo essa tendência por causa de minhas opiniões conservadoras: sou contra o aborto e contra o casamento homossexual. Sou contra as reservas indígenas contínuas. Sou contra as cotas para negros. Sou contra o patrulhamento ideológico dos currículos escolares. Sou a favor de um direito penal mais repressivo do que as penas alternativas propõem.
Descobri que sou conservador. Mas eu quero ser conservador de coisas boas, não de estruturas de opressão.
Sexta-feira, 13 de Março de 2009
Lembra do Super-Homem e do Bizarro? Eles estão no mundo evangélico brasileiro.
Quem é da minha geração e assistia a desenhos animados talvez lembre não só do Super-Homem, amplamente conhecido no mundo todo, mas também do Bizarro, uma figura que se apresentava como um arremedo do Super-Homem, com uma roupa semelhante e propósitos diametralmente opostos aos do heroi. Para quem gosta de Psicanálise, Bizarro seria o alter-ego do bom-moço.
Minha constatação é que existe um Super-Homem e muitos Bizarros espalhados pelo Brasil. O Super-Homem, todo certinho e com pretensos super-poderes, é um senhor que fala bonito, em tom suave, em horário nobre de televisão, e que tem como tema principal um conceito esdrúxulo de fé em Deus. Os muitos Bizarros estão nos Estados brasileiros e representam esse senhor, mas em seus programas televisivos ou radiofônicos exibem uma mensagem que parece um diferente da mensagem do Super-Homem.
Em Minas Gerais, onde eu morei por alguns anos, havia um desses Bizarros que a cada semana anunciava uma coisa nova: uma “estola sacerdotal”, uma “cruz com água sacrossanta e fluidificada”, uma “toalha de fogo”, objetos que seriam entregues a quem comparecesse às reuniões das sextas-feiras. O camarada, que se dizia “a maior autoridade em libertação no Brasil”, fazia um programa trash, com músicas tenebrosas, cujo volume aumentava para aumentar o suspense. Já o ouvi pedindo que os espectadores enviassem o número de seu sapato para receberem o “encaminhamento espiritual”, pois ele faria uma “prece”. Esse indivíduo bizarro, que tem nítida vocação para o humorismo, pedia que seus ouvintes colocassem uma garrafa perto do “aparelho receptor” a fim de conter o “cramulhão” (sic), sob pena de, em acontecer alguma coisa ruim, o pregador não se responsabilizar por nada.
Aqui na Bahia deparo com uma figura menos estranha, mas com práticas não menos bizarras. Ontem eu o vi oferecendo “a rosa do puxamento espiritual”, que, segundo ele, irá puxar para si tudo o que as pessoas tiverem de ruim em si mesmas. Será que o inventor disso tem em mente o bode expiatório da Lei de Moisés? Será que o fetichismo dessa turma chegou a tal nível de sofisticação teológica? Pode ser: eles são inventivos.
Alguém pode imaginar que esses camaradas são autônomos, mas não são. Eles são denominados “líderes estaduais” e representam o líder internacional, seu presidente, o Super-Homem, mocinho da história, bom comunicador, cujo ensino, embora cheio de heresias, até aparenta fundamentação bíblica.
Muitos crentes de boa-fé admiram o Super-Homem e ficam chateados quando o criticamos. São também esses crentes que não costumam tolerar os Bizarros, reconhecendo-lhes a bizarrice, por exemplo, no uso de objetos com supostos efeitos espirituais (fetichismo, pajelança).
Entretanto, quem cria os Bizarros é justamente o Super-Homem. Foi ele quem os concebeu, criou e deu ao conhecimento público. Um não vive sem o outro. E, para ser sincero, os Bizarros são o espelho mais fidedigno do Super-Homem, justamente porque a capa do Super-Homem esconde um repertório daninho que vai da Confissão Positiva à deificação do Ser Humano, da Teologia da Prosperidade ao personalismo.
O curioso é que em outro “desenho animado” com motivos parecidos o protagonista absoluto não criou propriamente Bizarros, mas um exército de seres robóticos que imitam seu sotaque, rouquidão e articulação das mãos. Mas esse é outro produto igualmente vendável.
Minha constatação é que existe um Super-Homem e muitos Bizarros espalhados pelo Brasil. O Super-Homem, todo certinho e com pretensos super-poderes, é um senhor que fala bonito, em tom suave, em horário nobre de televisão, e que tem como tema principal um conceito esdrúxulo de fé em Deus. Os muitos Bizarros estão nos Estados brasileiros e representam esse senhor, mas em seus programas televisivos ou radiofônicos exibem uma mensagem que parece um diferente da mensagem do Super-Homem.
Em Minas Gerais, onde eu morei por alguns anos, havia um desses Bizarros que a cada semana anunciava uma coisa nova: uma “estola sacerdotal”, uma “cruz com água sacrossanta e fluidificada”, uma “toalha de fogo”, objetos que seriam entregues a quem comparecesse às reuniões das sextas-feiras. O camarada, que se dizia “a maior autoridade em libertação no Brasil”, fazia um programa trash, com músicas tenebrosas, cujo volume aumentava para aumentar o suspense. Já o ouvi pedindo que os espectadores enviassem o número de seu sapato para receberem o “encaminhamento espiritual”, pois ele faria uma “prece”. Esse indivíduo bizarro, que tem nítida vocação para o humorismo, pedia que seus ouvintes colocassem uma garrafa perto do “aparelho receptor” a fim de conter o “cramulhão” (sic), sob pena de, em acontecer alguma coisa ruim, o pregador não se responsabilizar por nada.
Aqui na Bahia deparo com uma figura menos estranha, mas com práticas não menos bizarras. Ontem eu o vi oferecendo “a rosa do puxamento espiritual”, que, segundo ele, irá puxar para si tudo o que as pessoas tiverem de ruim em si mesmas. Será que o inventor disso tem em mente o bode expiatório da Lei de Moisés? Será que o fetichismo dessa turma chegou a tal nível de sofisticação teológica? Pode ser: eles são inventivos.
Alguém pode imaginar que esses camaradas são autônomos, mas não são. Eles são denominados “líderes estaduais” e representam o líder internacional, seu presidente, o Super-Homem, mocinho da história, bom comunicador, cujo ensino, embora cheio de heresias, até aparenta fundamentação bíblica.
Muitos crentes de boa-fé admiram o Super-Homem e ficam chateados quando o criticamos. São também esses crentes que não costumam tolerar os Bizarros, reconhecendo-lhes a bizarrice, por exemplo, no uso de objetos com supostos efeitos espirituais (fetichismo, pajelança).
Entretanto, quem cria os Bizarros é justamente o Super-Homem. Foi ele quem os concebeu, criou e deu ao conhecimento público. Um não vive sem o outro. E, para ser sincero, os Bizarros são o espelho mais fidedigno do Super-Homem, justamente porque a capa do Super-Homem esconde um repertório daninho que vai da Confissão Positiva à deificação do Ser Humano, da Teologia da Prosperidade ao personalismo.
O curioso é que em outro “desenho animado” com motivos parecidos o protagonista absoluto não criou propriamente Bizarros, mas um exército de seres robóticos que imitam seu sotaque, rouquidão e articulação das mãos. Mas esse é outro produto igualmente vendável.
O Brasil ainda tem seus nobres
Em mais de 500 anos, o Brasil foi-se formando como um País patrimonialista, desigual, injusto. Uma das expressões mais fortes da cultura brasileira é a ideia de que as pessoas que possuem maior poder aquisitivo ou posição social de destaque devem ser tratadas com deferência especial, em detrimento das pessoas pobres ou sem títulos. Isso está impregnado na ideologia das massas.
A República, em seu primeiro decreto, extinguiu todos os títulos nobiliárquicos e os privilégios de nascimento. Entretanto, não extinguiu o péssimo costume brasileiro de julgar pela aparência e dar primazia ao dinheiro ou aos títulos. Essa mudança não se opera por decreto.
Veja o caso da classe política, com seu foro privilegiado, suas verbas indenizatórias, seus adicionais, suas verbas de gabinete, seus longos períodos de férias, seus recessos muito bem remunerados.
Uma das maiores aberrações de nossa ordem jurídica é a lei segundo a qual portadores de diploma fazem jus a prisão especial. É um caso típico de inconstitucionalidade, que fere o princípio da isonomia, pois “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, como diz a Constituição em seu Art. 5º.
Também observo um fenômeno não tão visitado pela imprensa: são os juízes e membros do Ministério Público que, a pretexto de sua autonomia e independência funcional, não precisam cumprir horário, enquanto seus assessores, que os auxiliam nos processos de sua atribuição e têm a mesma formação, muitas vezes precisam seguir rígidas normas de expediente, sob a supervisão cerrada de câmeras, seguranças e de outros servidores. Por que essa distinção administrativa, se as prerrogativas funcionais devem ser aquelas que atendam ao interesse público, como a inamovibilidade, a irredutibilidade de vencimentos e a vitaliciedade? Por que os agentes políticos do Poder Judiciário e do Ministério Público não precisam cumprir horário?
É curioso perceber como as pessoas se rendem ao poder do status social. Vejo porteiros, seguranças e lavadores de carro nas ruas “nobres” de Salvador, a maioria negros e mulatos, com uma atitude praticamente servil diante de “doutores” que sequer fizeram mestrado, quanto menos doutorado. Basta ter dinheiro, basta morar num prédio “nobre” ou andar num carro de luxo para ser chamado de “doutor”. Acredito que essa mentalidade servil decorre dos tempos da escravidão, sei lá.
Até meu carro, que é popular, passa a impressão, aos frentistas de posto de gasolina, de que sou doutor. É assim que eles me chamam. E se estiver de terno, então, o prestígio aumenta, mas não sabem eles que uso terno geralmente por causa da igreja.
Quando digo, por algum motivo, que sou formado em Direito, é o suficiente para que o interlocutor mude o discurso, e passe a tentar me agradar com palavras e atitudes mais respeitosas. Não seria esse um símbolo da cultura da aparência?
Antigamente eram os duques, marqueses e viscondes. Hoje são os deputados, senadores, governadores, procuradores da República, juízes. E por que não incluo nessa lista todos os endinheirados e poderosos? Porque me refiro às posições sociais que o próprio Estado tem privilegiado, ainda que sob argumentos muito bem desenhados como as “prerrogativas de função” e a “independência dos poderes”. Tanto as prerrogativas funcionais como a independência dos Poderes são fundamentais num Estado de Direito, mas há que se ter cuidado para que os critérios de distinção sejam concebidos de acordo com o princípio da igualdade e o interesse público, para que não haja maior injustiça.
A República, em seu primeiro decreto, extinguiu todos os títulos nobiliárquicos e os privilégios de nascimento. Entretanto, não extinguiu o péssimo costume brasileiro de julgar pela aparência e dar primazia ao dinheiro ou aos títulos. Essa mudança não se opera por decreto.
Veja o caso da classe política, com seu foro privilegiado, suas verbas indenizatórias, seus adicionais, suas verbas de gabinete, seus longos períodos de férias, seus recessos muito bem remunerados.
Uma das maiores aberrações de nossa ordem jurídica é a lei segundo a qual portadores de diploma fazem jus a prisão especial. É um caso típico de inconstitucionalidade, que fere o princípio da isonomia, pois “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, como diz a Constituição em seu Art. 5º.
Também observo um fenômeno não tão visitado pela imprensa: são os juízes e membros do Ministério Público que, a pretexto de sua autonomia e independência funcional, não precisam cumprir horário, enquanto seus assessores, que os auxiliam nos processos de sua atribuição e têm a mesma formação, muitas vezes precisam seguir rígidas normas de expediente, sob a supervisão cerrada de câmeras, seguranças e de outros servidores. Por que essa distinção administrativa, se as prerrogativas funcionais devem ser aquelas que atendam ao interesse público, como a inamovibilidade, a irredutibilidade de vencimentos e a vitaliciedade? Por que os agentes políticos do Poder Judiciário e do Ministério Público não precisam cumprir horário?
É curioso perceber como as pessoas se rendem ao poder do status social. Vejo porteiros, seguranças e lavadores de carro nas ruas “nobres” de Salvador, a maioria negros e mulatos, com uma atitude praticamente servil diante de “doutores” que sequer fizeram mestrado, quanto menos doutorado. Basta ter dinheiro, basta morar num prédio “nobre” ou andar num carro de luxo para ser chamado de “doutor”. Acredito que essa mentalidade servil decorre dos tempos da escravidão, sei lá.
Até meu carro, que é popular, passa a impressão, aos frentistas de posto de gasolina, de que sou doutor. É assim que eles me chamam. E se estiver de terno, então, o prestígio aumenta, mas não sabem eles que uso terno geralmente por causa da igreja.
Quando digo, por algum motivo, que sou formado em Direito, é o suficiente para que o interlocutor mude o discurso, e passe a tentar me agradar com palavras e atitudes mais respeitosas. Não seria esse um símbolo da cultura da aparência?
Antigamente eram os duques, marqueses e viscondes. Hoje são os deputados, senadores, governadores, procuradores da República, juízes. E por que não incluo nessa lista todos os endinheirados e poderosos? Porque me refiro às posições sociais que o próprio Estado tem privilegiado, ainda que sob argumentos muito bem desenhados como as “prerrogativas de função” e a “independência dos poderes”. Tanto as prerrogativas funcionais como a independência dos Poderes são fundamentais num Estado de Direito, mas há que se ter cuidado para que os critérios de distinção sejam concebidos de acordo com o princípio da igualdade e o interesse público, para que não haja maior injustiça.
Entre o perdão e a tolerância
Diante da reprovação religiosa a determinadas condutas, surgem pessoas dizendo “aquele que não tem pecado atire a primeira pedra”, mas nem todos compreendem o que isso significa. A frase dita por Jesus e registrada por João acaba sendo empregada como panaceia para impedir qualquer análise do comportamento humano à luz da Bíblia.
Deve ficar bem clara a distinção entre o perdão evangélico e a tolerância com o pecado. Nós evangélicos muitas vezes pecamos por transmitirmos uma imagem de moralistas hipócritas, mas não é isso o que o Evangelho propõe. Nossa mensagem é de denunciar o pecado e anunciar o perdão. Denúncia de pecado sem anúncio de perdão é moralismo farisaico; anúncio de perdão sem denúncia de pecado é barateamento da Graça e liberalismo moral.
O mesmo Jesus que disse “aquele que não tem pecado atire a primeira pedra” também disse “vá e não peques mais”. O que Jesus censurou foi a postura de juízes dos pecados alheios, mas não deixou de apontar para a necessidade de arrependimento e mudança de vida. A um só tempo, o Salvador falou aos acusadores judeus contra o seu pecado de preconceito, e falou à mulher pega em adultério contra o seu pecado de adultério. Jamais o Mestre iria justificar a conduta da mulher com o argumento de que o pecado é universal. Isso não é desculpa. Aliás, o perdão de Cristo não é uma aceitação de pedido de desculpas – o perdão de Cristo é a absolvição dos pecados de quem não deveria ser absolvido.
O perdão é uma interrupção do fluxo catastrófico do pecado, e não se explica racionalmente. Quando o preceito divino estabelecia a morte para os pecadores, veio o perdão igualmente divino e estendeu ao Ser Humano a destra de comunhão. Impediu-se a condenação do Ser Humano arrependido, pois com o Advogado e Substituto Penal, Jesus Cristo, surgiu uma possibilidade de esperança, regeneração, vida eterna.
Anunciar o perdão é totalmente diferente de anunciar a tolerância com o pecado. O cristão não pode tolerar o pecado, se acostumar com ele, gostar dele, se aproveitar dele, conviver em harmonia com ele. O pecado precisa ser visto como um veneno, que mata de verdade, e não como um tabu alimentar, que só mata na cabeça de alguns.
Deve ficar bem clara a distinção entre o perdão evangélico e a tolerância com o pecado. Nós evangélicos muitas vezes pecamos por transmitirmos uma imagem de moralistas hipócritas, mas não é isso o que o Evangelho propõe. Nossa mensagem é de denunciar o pecado e anunciar o perdão. Denúncia de pecado sem anúncio de perdão é moralismo farisaico; anúncio de perdão sem denúncia de pecado é barateamento da Graça e liberalismo moral.
O mesmo Jesus que disse “aquele que não tem pecado atire a primeira pedra” também disse “vá e não peques mais”. O que Jesus censurou foi a postura de juízes dos pecados alheios, mas não deixou de apontar para a necessidade de arrependimento e mudança de vida. A um só tempo, o Salvador falou aos acusadores judeus contra o seu pecado de preconceito, e falou à mulher pega em adultério contra o seu pecado de adultério. Jamais o Mestre iria justificar a conduta da mulher com o argumento de que o pecado é universal. Isso não é desculpa. Aliás, o perdão de Cristo não é uma aceitação de pedido de desculpas – o perdão de Cristo é a absolvição dos pecados de quem não deveria ser absolvido.
O perdão é uma interrupção do fluxo catastrófico do pecado, e não se explica racionalmente. Quando o preceito divino estabelecia a morte para os pecadores, veio o perdão igualmente divino e estendeu ao Ser Humano a destra de comunhão. Impediu-se a condenação do Ser Humano arrependido, pois com o Advogado e Substituto Penal, Jesus Cristo, surgiu uma possibilidade de esperança, regeneração, vida eterna.
Anunciar o perdão é totalmente diferente de anunciar a tolerância com o pecado. O cristão não pode tolerar o pecado, se acostumar com ele, gostar dele, se aproveitar dele, conviver em harmonia com ele. O pecado precisa ser visto como um veneno, que mata de verdade, e não como um tabu alimentar, que só mata na cabeça de alguns.
Conservadorismo não é fundamentalismo
Quando querem atacar o pensamento evangélico sobre temas éticos, jornalistas dizem que somos “conservadores”, mas com um sentido pejorativo que mais se aproxima de “fundamentalista”. No entanto, Conservadorismo e Fundamentalismo são coisas distintas, e ambos são mal-interpretados.
Conservadorismo, em termos religiosos, é a postura de quem pensa e trabalha contrariamente ao secularismo, que por sua vez é a filosofia de viver como se Deus não existisse. Ser conservador, na acepção verdadeira, não é ser contra a justiça social, contra a modernização da sociedade, contra os avanços da ciência, contra as pessoas homossexuais ou a favor da manutenção da exploração econômica. Esse é o discurso ideológico de uma esquerda materialista e de um falso intelectualismo que se colocam contra a mensagem de transformação do Ser Humano pela conversão a Cristo.
Já o Fundamentalismo foi, antes de tudo, uma corrente teológica que surgiu no final do Séc. XIX entre os norte-americanos para frear o Liberalismo Teológico, que veio assediando protestantes com afirmações de que não existem milagres, de que tudo na Escritura são mitos, e de que a Bíblia não passa do registro da experiência religiosa de um povo, não sendo inspirada por Deus. Na origem, os fundamentalistas prestaram um grande serviço à Igreja, assinalando firmemente doutrinas como a Criação, o nascimento virginal de Cristo e a inspiração, inerrância e autoridade da Bíblia. Nisso os fundamentalistas cumpriram importante mister.
Com o tempo, assim como o termo “puritano” foi deturpado, a palavra “fundamentalista” assumiu a conotação de pessoa radical, que não admite a iluminação da Razão, tal como se diz dos Talebãs. Ao chamar uma pessoa de fundamentalista, impede-se o diálogo, e se convida o auditório a tapar os ouvidos ao que ele diz.
Por que somos contra o aborto? Por que não concordamos com o comportamento homossexual? Por que reconhecemos a sacralidade do casamento? Por que não aceitamos a prática da eutanásia? Dirão os modernistas que a resposta é fácil: é porque somos fundamentalistas.
Acredito, porém, que contribuímos para esse estado de coisas quando adotamos a moral social como arquétipo da moral cristã. Dito de outro modo, por muito tempo transmitimos para a sociedade a ideia de que a moral de Cristo é se vestir de determinada forma, falar de determinada forma, não frequentar determinados lugares, e cumprir à risca o ritual social de crescer, casar, trabalhar, reproduzir as tradições sociais e morrer esperando uma recompensa. Esse era o modelo considerado santo, mas não se exigiam, por assim dizer, virtudes como amor, justiça e verdade.
Para se ter uma noção do que estou dizendo, alguns costumes tão caros a grupos legalistas eram adotados há décadas como o padrão moral da sociedade, sendo incorporados pelas igrejas como sendo o certo. Aquela indumentária de coque, meião e redinha – como ouvi certa vez de um irmão – não era a marca de santidade das crentes, mas um simples costume das senhoras direitas em algum lugar no passado. Hoje ainda em alguns lugares o coque, meião e redinha, ou seus similares, representam a marca do ser santo.
Quero deixar bem claro que a mensagem de Cristo é conservadora, sim, mas há que se indagar o que essa mensagem conserva, porque, como diriam os professores de Português, quem conserva conserva alguma coisa. A mensagem de Cristo apareceu como revolucionária, e gosto de dizer que Jesus Cristo trouxe a contra-cultura com o Sermão do Monte (Mt 5 – 7), pois tudo o que o Mestre diz ali contraria a cultura do mundo inteiro.
Ter fome e sede de justiça é revolucionário. Oferecer a outra face ao que o fere é revolucionário. Cultivar a interiorização de princípios éticos é revolucionário. Querer o bem dos inimigos é revolucionário. Ser pacificador num mundo em conflitos é revolucionário. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo é a maior revolução que poderia existir. Assim, Jesus é O Revolucionário, e os cristãos, revolucionários com Ele.
Conservadorismo, em termos religiosos, é a postura de quem pensa e trabalha contrariamente ao secularismo, que por sua vez é a filosofia de viver como se Deus não existisse. Ser conservador, na acepção verdadeira, não é ser contra a justiça social, contra a modernização da sociedade, contra os avanços da ciência, contra as pessoas homossexuais ou a favor da manutenção da exploração econômica. Esse é o discurso ideológico de uma esquerda materialista e de um falso intelectualismo que se colocam contra a mensagem de transformação do Ser Humano pela conversão a Cristo.
Já o Fundamentalismo foi, antes de tudo, uma corrente teológica que surgiu no final do Séc. XIX entre os norte-americanos para frear o Liberalismo Teológico, que veio assediando protestantes com afirmações de que não existem milagres, de que tudo na Escritura são mitos, e de que a Bíblia não passa do registro da experiência religiosa de um povo, não sendo inspirada por Deus. Na origem, os fundamentalistas prestaram um grande serviço à Igreja, assinalando firmemente doutrinas como a Criação, o nascimento virginal de Cristo e a inspiração, inerrância e autoridade da Bíblia. Nisso os fundamentalistas cumpriram importante mister.
Com o tempo, assim como o termo “puritano” foi deturpado, a palavra “fundamentalista” assumiu a conotação de pessoa radical, que não admite a iluminação da Razão, tal como se diz dos Talebãs. Ao chamar uma pessoa de fundamentalista, impede-se o diálogo, e se convida o auditório a tapar os ouvidos ao que ele diz.
Por que somos contra o aborto? Por que não concordamos com o comportamento homossexual? Por que reconhecemos a sacralidade do casamento? Por que não aceitamos a prática da eutanásia? Dirão os modernistas que a resposta é fácil: é porque somos fundamentalistas.
Acredito, porém, que contribuímos para esse estado de coisas quando adotamos a moral social como arquétipo da moral cristã. Dito de outro modo, por muito tempo transmitimos para a sociedade a ideia de que a moral de Cristo é se vestir de determinada forma, falar de determinada forma, não frequentar determinados lugares, e cumprir à risca o ritual social de crescer, casar, trabalhar, reproduzir as tradições sociais e morrer esperando uma recompensa. Esse era o modelo considerado santo, mas não se exigiam, por assim dizer, virtudes como amor, justiça e verdade.
Para se ter uma noção do que estou dizendo, alguns costumes tão caros a grupos legalistas eram adotados há décadas como o padrão moral da sociedade, sendo incorporados pelas igrejas como sendo o certo. Aquela indumentária de coque, meião e redinha – como ouvi certa vez de um irmão – não era a marca de santidade das crentes, mas um simples costume das senhoras direitas em algum lugar no passado. Hoje ainda em alguns lugares o coque, meião e redinha, ou seus similares, representam a marca do ser santo.
Quero deixar bem claro que a mensagem de Cristo é conservadora, sim, mas há que se indagar o que essa mensagem conserva, porque, como diriam os professores de Português, quem conserva conserva alguma coisa. A mensagem de Cristo apareceu como revolucionária, e gosto de dizer que Jesus Cristo trouxe a contra-cultura com o Sermão do Monte (Mt 5 – 7), pois tudo o que o Mestre diz ali contraria a cultura do mundo inteiro.
Ter fome e sede de justiça é revolucionário. Oferecer a outra face ao que o fere é revolucionário. Cultivar a interiorização de princípios éticos é revolucionário. Querer o bem dos inimigos é revolucionário. Ser pacificador num mundo em conflitos é revolucionário. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo é a maior revolução que poderia existir. Assim, Jesus é O Revolucionário, e os cristãos, revolucionários com Ele.
Quinta-feira, 5 de Março de 2009
Tudo posso
“Tudo posso naquele que me fortalece”,
Disse o apóstolo Paulo.
Posso sofrer e suportar.
Posso querer e não alcançar.
Posso não ter e me alegrar.
Posso ter mais do que preciso
Caso o SENHOR assim me conceda.
Posso ter só o que necessito
Para viver, até que mais não seja.
Tudo posso, possuindo ou não.
Tudo posso, mas sei que o poder é ilusão.
E escuto a voz de Deus, minha única riqueza:
“O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
Disse o apóstolo Paulo.
Posso sofrer e suportar.
Posso querer e não alcançar.
Posso não ter e me alegrar.
Posso ter mais do que preciso
Caso o SENHOR assim me conceda.
Posso ter só o que necessito
Para viver, até que mais não seja.
Tudo posso, possuindo ou não.
Tudo posso, mas sei que o poder é ilusão.
E escuto a voz de Deus, minha única riqueza:
“O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009
As perguntas teológicas de minha filha
Minha filha, Elisa, tem três anos de idade. Ontem, quando nos arrumávamos para irmos ao culto de domingo à noite, ela me surpreendeu com as seguintes perguntas:
- “Jesus cura”?
- “Deus vem buscar a gente”?
- "Ele está vindo agora, né"?
- “Eu vou com essa roupa”?
- “Deus fala com a gente”?
Ela ainda afirmou que gostaria de ir para o Céu logo, e disse também que a gente deve esperar Deus nos buscar.
Todas essas coisas ela começou a perguntar porque eu a convidei a ir ao culto, e creio que resultaram da aula da manhã. Talvez lembre de aulas anteriores.
Enquanto nos dirigíamos ao templo, fomos conversando sobre essas questões. Eu lhe disse, desde a conversa em casa, que Jesus cura, que Jesus vem buscar a gente, que devemos esperar por isso para qualquer momento, que receberemos roupas brancas e novas, que Deus fala com a gente pela Bíblia e em nossos corações, e que só vai ao Céu quem conhece a Jesus. Por isso, disse-lhe, precisamos falar de Jesus a outras pessoas.
Veja bem: uma menininha de três anos de idade perguntando coisas tão profundas e importantes. Como o pai não fica? É claro que fico contente com o fato de saber que o ensino bíblico tem sido eficaz, mas, por outro lado, me preocupo com a negligência que muitas vezes devotamos às crianças. Elas são tão receptivas ao ensino, e nós, tão desatentos a isso!
Jesus não disse que das crianças é o Reino de Deus? Sim, o Reino é delas. É por isso que minha filha entende facilmente as coisas do Reino.
- “Jesus cura”?
- “Deus vem buscar a gente”?
- "Ele está vindo agora, né"?
- “Eu vou com essa roupa”?
- “Deus fala com a gente”?
Ela ainda afirmou que gostaria de ir para o Céu logo, e disse também que a gente deve esperar Deus nos buscar.
Todas essas coisas ela começou a perguntar porque eu a convidei a ir ao culto, e creio que resultaram da aula da manhã. Talvez lembre de aulas anteriores.
Enquanto nos dirigíamos ao templo, fomos conversando sobre essas questões. Eu lhe disse, desde a conversa em casa, que Jesus cura, que Jesus vem buscar a gente, que devemos esperar por isso para qualquer momento, que receberemos roupas brancas e novas, que Deus fala com a gente pela Bíblia e em nossos corações, e que só vai ao Céu quem conhece a Jesus. Por isso, disse-lhe, precisamos falar de Jesus a outras pessoas.
Veja bem: uma menininha de três anos de idade perguntando coisas tão profundas e importantes. Como o pai não fica? É claro que fico contente com o fato de saber que o ensino bíblico tem sido eficaz, mas, por outro lado, me preocupo com a negligência que muitas vezes devotamos às crianças. Elas são tão receptivas ao ensino, e nós, tão desatentos a isso!
Jesus não disse que das crianças é o Reino de Deus? Sim, o Reino é delas. É por isso que minha filha entende facilmente as coisas do Reino.
Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009
O Carnaval de Salvador é um insulto à igualdade social
Quem vê aquelas multidões pulando atrás do trio elétrico ao ar livre pode pensar que se trata de alguma coisa democrática, mas não é. O Carnaval de Salvador é um insulto à igualdade social, e isso porque milhões de Reais são empregados numa festa cujos frutos não são igualitariamente repartidos entre a população.
Digo isso porque soube que o Governo do Estado da Bahia cedeu R$45 milhões para a festa, além do aporte da Prefeitura, e quem sabe do Governo Federal, já que a EMBRATUR também se interessa pela festa devido ao turismo. Entretanto, o que se vê em Salvador e em toda a Bahia é a gritante desigualdade social, sendo que Salvador está repleta de moradores de rua, prostitutas, bêbados, trombadinhas, assaltantes, traficantes de drogas, e muitos, muitos pobres, seja em favelas, seja em subúrbios.
Fico pensando para onde vai tanto dinheiro de turistas que vêm a Salvador aproveitar os muitos dias de bebedeira, turismo sexual, prazeres do litoral e música baiana de ensurdecer. O Carnaval realmente não combina com um lugar tão massacrado por décadas de políticas excludentes, coronelistas, patrimonialistas.
Na verdade, eu não gosto de Carnaval de jeito nenhum, e sei que os males desse festejo vão muito além dos problemas sociais. Entretanto, como a festa está aí, e como faz parte do imaginário popular quando se trata de minha terra, não posso me furtar a dar minha opinião sobre ele, já que, ao que parece, tudo em Salvador anda em função desses dias de fevereiro.
Quisera eu a Capital da Bahia deixasse de ser Salvador, e passasse a ser Vitória da Conquista, algo que escutei de um colega de trabalho, dada a sugestão de um especialista. Assim, eu poderia, quem sabe, ir morar na Capital, trabalhar lá, e deixar que Salvador ficasse com suas festas, com seu turismo, com suas praias e pontos turísticos só para os dias de folga. Creio que isso faria da Bahia um lugar melhor, e talvez distribuísse com maior equidade o grande número de pessoas que insistem em residir nessa megalópole.
Digo isso porque soube que o Governo do Estado da Bahia cedeu R$45 milhões para a festa, além do aporte da Prefeitura, e quem sabe do Governo Federal, já que a EMBRATUR também se interessa pela festa devido ao turismo. Entretanto, o que se vê em Salvador e em toda a Bahia é a gritante desigualdade social, sendo que Salvador está repleta de moradores de rua, prostitutas, bêbados, trombadinhas, assaltantes, traficantes de drogas, e muitos, muitos pobres, seja em favelas, seja em subúrbios.
Fico pensando para onde vai tanto dinheiro de turistas que vêm a Salvador aproveitar os muitos dias de bebedeira, turismo sexual, prazeres do litoral e música baiana de ensurdecer. O Carnaval realmente não combina com um lugar tão massacrado por décadas de políticas excludentes, coronelistas, patrimonialistas.
Na verdade, eu não gosto de Carnaval de jeito nenhum, e sei que os males desse festejo vão muito além dos problemas sociais. Entretanto, como a festa está aí, e como faz parte do imaginário popular quando se trata de minha terra, não posso me furtar a dar minha opinião sobre ele, já que, ao que parece, tudo em Salvador anda em função desses dias de fevereiro.
Quisera eu a Capital da Bahia deixasse de ser Salvador, e passasse a ser Vitória da Conquista, algo que escutei de um colega de trabalho, dada a sugestão de um especialista. Assim, eu poderia, quem sabe, ir morar na Capital, trabalhar lá, e deixar que Salvador ficasse com suas festas, com seu turismo, com suas praias e pontos turísticos só para os dias de folga. Creio que isso faria da Bahia um lugar melhor, e talvez distribuísse com maior equidade o grande número de pessoas que insistem em residir nessa megalópole.
Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009
Duas palavras sobre a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos
Não posso deixar de dizer que a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) à revista Veja foi a melhor que já li em todos os tempos, vinda de um político. Ele disse, sim, o que todo mundo pensa, mas não tem coragem de falar ou não pode falar: que boa parte do PMDB é corrupta, que a maioria só quer cargos por interesses escusos, mas foi além: José Sarney (PMDB-MA) é um retrocesso, vai “transformar o Senado num grande Maranhão”, e Renan Calheiros (PMDB-AL) não tem condições morais nem políticas para ser senador, tampouco para ser líder de partido.
Depois, em entrevista coletiva e à CBN, o senador reafirmou toda a sua indignação, e com uma sinceridade que parece absoluta. Também disse que Lula é conivente com a corrupção, e que deixou de lado as duas bandeiras de sua campanha de 2002, quais sejam, a reforma política e a questão ética.
Bem, alguns acham que nada disso adianta, que as coisas vão continuar como estão, que política é assim mesmo, que o senador Jarbas deve ter sido impelido por propósitos menores...Eu não! Eu entendo que existe esperança sempre que alguém ainda é capaz de se indignar, principalmente quando se trata de uma autoridade pública de tamanha envergadura, como um senador da República, e com a biografia do senador pernambucano.
Agora, um outro aspecto me chamou a atenção: a imprensa noticiou que o grupo de Renan Calheiros pensou em tentar enfraquecer o senador Jarbas Vasconcelos em Pernambuco, ou minar sua força no próprio Senado, deixando de lhe repassar relatorias de projetos. Isso me fez pensar imediatamente nas retaliações que ocorrem nos bastidores de igrejas, quando algum irmão resolve falar a verdade e a liderança decide retirar seus cargos, puni-lo de alguma forma, desacreditar a imagem do irmão perante a congregação. Isso é feio e doentio, e demonstra o quanto a política eclesiástica pode se assemelhar à politicagem de grupos que se aboletam no poder nacional e nos poderes estaduais e municipais.
Além do senador Jarbas Vasconcelos, estariam hoje clamando contra a corrupção os profetas do Antigo Testamento, como Miquéias, Amós e Jeremias – Homens que não toleravam o avanço do erro, do escândalo, da hipocrisia, da criminalidade, do suborno, das manobras dos poderosos em detrimento do bem comum, da lei e da justiça.
Ficar alheio ao que o senador Jarbas Vasconcelos disse é algo que não se compatibiliza com o ser cristão. Jamais alguém deveria ostentar a condição de cristão e simultaneamente defender a corrupção, o “jeitinho”, a chamada “lei do mais forte”, a compra de votos, a mentira, o mero pragmatismo, notadamente quando se dá dentro das igrejas.
Definitivamente, a alienação não é de Deus. O que o senador Jarbas disse é verdadeiro, independentemente de corrente ideológica ou preferências partidárias. Trata-se da mais pura verdade. Cabe a mim, portanto, refletir: tenho eu capacidade de me indignar? Reflita você também, por favor.
Depois, em entrevista coletiva e à CBN, o senador reafirmou toda a sua indignação, e com uma sinceridade que parece absoluta. Também disse que Lula é conivente com a corrupção, e que deixou de lado as duas bandeiras de sua campanha de 2002, quais sejam, a reforma política e a questão ética.
Bem, alguns acham que nada disso adianta, que as coisas vão continuar como estão, que política é assim mesmo, que o senador Jarbas deve ter sido impelido por propósitos menores...Eu não! Eu entendo que existe esperança sempre que alguém ainda é capaz de se indignar, principalmente quando se trata de uma autoridade pública de tamanha envergadura, como um senador da República, e com a biografia do senador pernambucano.
Agora, um outro aspecto me chamou a atenção: a imprensa noticiou que o grupo de Renan Calheiros pensou em tentar enfraquecer o senador Jarbas Vasconcelos em Pernambuco, ou minar sua força no próprio Senado, deixando de lhe repassar relatorias de projetos. Isso me fez pensar imediatamente nas retaliações que ocorrem nos bastidores de igrejas, quando algum irmão resolve falar a verdade e a liderança decide retirar seus cargos, puni-lo de alguma forma, desacreditar a imagem do irmão perante a congregação. Isso é feio e doentio, e demonstra o quanto a política eclesiástica pode se assemelhar à politicagem de grupos que se aboletam no poder nacional e nos poderes estaduais e municipais.
Além do senador Jarbas Vasconcelos, estariam hoje clamando contra a corrupção os profetas do Antigo Testamento, como Miquéias, Amós e Jeremias – Homens que não toleravam o avanço do erro, do escândalo, da hipocrisia, da criminalidade, do suborno, das manobras dos poderosos em detrimento do bem comum, da lei e da justiça.
Ficar alheio ao que o senador Jarbas Vasconcelos disse é algo que não se compatibiliza com o ser cristão. Jamais alguém deveria ostentar a condição de cristão e simultaneamente defender a corrupção, o “jeitinho”, a chamada “lei do mais forte”, a compra de votos, a mentira, o mero pragmatismo, notadamente quando se dá dentro das igrejas.
Definitivamente, a alienação não é de Deus. O que o senador Jarbas disse é verdadeiro, independentemente de corrente ideológica ou preferências partidárias. Trata-se da mais pura verdade. Cabe a mim, portanto, refletir: tenho eu capacidade de me indignar? Reflita você também, por favor.
Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009
João Batista, o precursor de Cristo*
Para conferir um grau mais denso a este "blog", penso em publicar alguns de meus trabalhos acadêmicos de Teologia, a começar por este que trata do personagem bíblico João Batista.
Embora estejamos num veículo eletrônico, em que as leituras devem ser mais amenas ou menos extensas, lanço o fruto de minha pesquisa à apreciação dos mui atilados leitores. É como segue:
Esquema de João Batista, o precursor de Cristo:
Introdução.
1. Ascendência, anúncio e nascimento de João Batista: Lc 1.5-25; 57-66.
2. Aparição e pregação de João Batista: Mt 3.1-10; Mc 1.2-6 e Lc 3.1-14.
3. João Batista dá testemunho de Cristo: Mt 3.11-12; Mc 1.7,8; Lc 3.15-17; Jo 1.15-31; 3.22-30.
4. Dois discípulos de João Batista seguem a Jesus: Jo 1.35-42.
5. João batiza Jesus: Mt 3.13-17, Mc 1.9-11, Lc 3.21,22; Jo 1.32-34.
6. João Batista repreende Herodes e é preso: Lc 3.18-20.
7. Jesus inicia seu ministério depois que João Batista é preso: Mt 4.12-17; Mc 1.14,15; Lc 4.14,15.
8. João Batista envia mensageiros a Jesus: Mt 11.2-6; Lc 7.18-23.
9. Jesus dá testemunho de João Batista: Mt 11.7-19; Lc 7.24-35.
10. A morte de João Batista: Mt 14.1-12; Mc 6.14-29; Lc 9.7-9.
11. João Batista é o Elias que havia de vir: Mt 17.9-13; Mc 9.9-13; cf. Is 40.3; Ml 4.5,6.
12. A autoridade de Jesus e o batismo de João: Mt 21.23-27; Mc 11.27-33; Lc 20.1-8.
13. O batismo de João como início do ministério de Jesus: At 1.21,22.
14. Pessoas que “só conheciam o batismo de João”: At 18.24-19.6.
Conclusão.
Referências bibliográficas.
Introdução.
Para uma análise da figura de João Batista, é necessário examinar tudo o que consta dos Evangelhos a seu respeito, atentando para alguns aspectos principais.
1. Ascendência, anúncio e nascimento de João Batista (Lc 1.5-25, 57-80).
Os dados biográficos de João Batista são oferecidos com maiores detalhes pelo evangelista Lucas, único que escreve sobre a origem e nascimento do profeta.
Os pais de João Batista, Zacarias e Isabel, são retratados como piedosos e irrepreensíveis, vivendo de acordo com “todos os preceitos e mandamentos do SENHOR” (Lc 1.6). Ela era descendente de Arão, e ele, sacerdote do turno de Abias.
O anúncio do nascimento de João Batista ocorreu quando Zacarias cumpria seu ofício de queimar o incenso no santuário de Deus, e foi envolvido pela operação divina: à semelhança de Sara e Raquel, mulheres de patriarcas, e de Ana, mãe do grande líder Samuel, Isabel era estéril, condição que implicava forte preconceito social e sentimento de inferioridade, mas que, nas páginas da Escritura, deu ensejo a intervenções poderosas de Deus, abrindo a madre e trazendo ao mundo homens que iriam marcar a História da Redenção.
No caso de Isabel e Zacarias, havia a agravante da idade avançada. Foi nessa situação desfavorável que o anjo Gabriel apareceu a Zacarias dentro do santuário e lhe prometeu o nascimento de um filho, com menção literal de um trecho da profecia de Malaquias e outras palavras sobre o perfil e missão do menino, tudo a indicar que se trataria de uma pessoa separada para um destino especial, porque “cheio do Espírito Santo, já desde o ventre materno” (Lc 1.15) e preservado do vinho e da bebida forte.
A incredulidade do sacerdote, porém, fez com que ficasse mudo, até que o filho nascesse. Mas desde logo Isabel ficou alegre pela maternidade anunciada.
Desse modo, o nascimento de João Batista foi cercado de expectativa, dada a atuação sobrenatural que fez com que um casal idoso, sendo a mulher estéril, gerasse um filho. Isso fez com que perguntassem o que haveria de ser daquele menino.
O relato de Lucas contém três cânticos, um dos quais atribuído a Zacarias, por conta do nascimento de João (Lc 1.67-80). Aliás, esse nome também foi conferido por Deus, e fez com que Zacarias rejeitasse a idéia de colocar no filho um nome oriundo da tradição familiar. “João” significa “O SENHOR dá graça ”, e condiz com a vida do Batista.
Outra característica de Lucas é mencionar a dotação do Espírito Santo. Isso ocorreu com Isabel ao ser visitada por Maria, sua prima, quando o próprio feto saltou de alegria ante a visita da mulher que havia sido escolhida mãe do Salvador (ver Lc 1.26-45).
Esses elementos fornecidos exclusivamente por Lucas mostram que João Batista foi o homem enviado por Deus para ser o precursor do Messias.
2. A aparição e pregação de João Batista (Mt 3.1-10; Mc 1.2-6; Lc 3.1-14).
Tanto Mateus quanto Marcos afirmam que João Batista “apareceu” no deserto (Mt 3.1; 1.4). O verbo “aparecer” sugere a idéia de que João irrompeu sem aviso e sem envolvimento com um sistema preestabelecido.
De repente, aquele homem começou sua pregação na região da Judéia com um discurso simples, voltado ao arrependimento, “porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2). Elias, por sua vez, também apareceu sem precedentes, já proferindo uma mensagem contra Acabe (I Rs 17.1).
No entanto, no caso de João, não se deveria tratar de uma surpresa completa, eis que “este é o referido por intermédio do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas ” (Mt 3.3; cf. Is 40.3).
É um traço reconhecido de Mateus fazer referências ao Antigo Testamento para mostrar a Israel o cumprimento do plano de Redenção, do qual a “voz do que clama no deserto” faria parte. Mas o evangelista Marcos também faz citação expressa dessa profecia, ao passo que, pondo tudo na pena de Isaías, remete, ainda, a outro profeta, quando diz: “Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho” (Mc 1.2, cf. Ml 3.1). A seu turno, Lucas faz uma citação maior (Lc 3.4-6).
Dessa forma, João Batista vem apresentado como alguém que foi prometido pelos profetas, assim como o anjo deixara entrever ao falar com Zacarias.
Como já visto, e diferentemente de Mateus e Marcos, Lucas não começa dizendo que João Batista “apareceu”, mas, seguindo seu método mais detalhista, oferece importantes elementos temporais, quais sejam, o fato de que João Batista surgiu no décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes, tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe, tetrarca da região da Ituréia e Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene, além de serem sumos sacerdotes Anás e Caifás (Lc 3.1,2).
Segundo GÜNTHER BORNKAMM , esse período foi de outubro de 27 a setembro de 28 d.C. (talvez até 28/29), o que constitui, para o estudioso da Bíblia, relevante colaboração para a historicidade do personagem.
Tal como sua aparição e pregação, o estilo de vida de João Batista era simples: vestia-se de pêlos de camelo e trazia nos lombos um cinto de couro (Mt 3.4; Mc 1.6) – nisso ele já parecia com o profeta Elias (II Rs 1.8). Sua alimentação eram gafanhotos e mel silvestre (Mt 3.4; Mc 1.6). Tratava-se de um homem que escolheu o deserto – ou que foi escolhido por ele.
Não obstante esse exotismo, o trabalho realizado por João atraiu multidões. Pessoas de Jerusalém, de toda a Judéia e da circunvizinhança do Jordão iam ter com ele para o ouvir e serem batizadas naquele rio, “confessando os seus pecados” (Mt 3.5,6; Mc 1.5).
O batismo era um meio de confissão pública, e caracterizou tanto o trabalho de João que lhe rendeu o predicativo de “Batista”, equivalente a “batizador”.
Tamanha era a proporção do movimento que a liderança religiosa quis tirar algum proveito. Assim, fariseus e saduceus, membros de dois grupos religiosos de destaque, foram atrás do batismo, mas tiveram que ouvir de João:
“Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar pedras a Abraão. Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.7-10; cf. Lc 3.7-9).
Percebendo que os líderes não haviam se arrependido, e que estavam apenas querendo agradar o povo, João os repreendeu severamente, empregando a terrível, mas verdadeira, alcunha de “raça de víboras”. Além disso, desbaratou a frágil noção de que a nacionalidade israelita lhes poderia ajudar na questão espiritual.
A verdade central era a de um juízo iminente, que chegaria tão rápido quanto dura o tempo entre o machado colocado à raiz da árvore e o corte.
Demais disto, Lucas acresce uma informação importante: a censura do profeta não se dirigia somente à hipocrisia da liderança, mas às multidões egoístas. Diante da pergunta “Que havemos, pois, de fazer?”, João responde com uma exortação de cunho social, para que se distribuíssem roupas e comida aos pobres, para que os publicanos cobrassem apenas o estipulado, para que os soldados a ninguém maltratassem, não dessem denúncia falsa e se contentassem com o seu soldo (ver Lc 3.10-14).
Todas essas recomendações apontam para um profeta extremamente desafiador e objetivo, desprovido de compromissos políticos e de convenções sociais.
3. João dá testemunho de Cristo (Mt 3.11,12; Mc 1.7,8; Lc 3.15-17; Jo 1.6-8, 15-31; 3.22-30).
O Batista demonstrou ter pleno conhecimento de sua função na história salvífica. Uma de suas prédicas foi no sentido de que, enquanto ele batizava em água, à vista de arrependimento, aquele que viria depois dele, e que era mais poderoso e mais importante – “cujas sandálias não sou digno de levar” – batizaria no Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11,12; Mc 1.7,8; Lc 3.16; Jo 1.26,27).
Havia, pois, diferença entre os ministérios do precursor e do que viria depois, entre o batismo do arrependimento e o batismo no Espírito Santo e com fogo. Estava claro que João era menor, que não era protagonista.
Mais do que isso, o que viria depois executaria juízo, o que João expressou na ilustração daquele que tem a pá em sua mão, e “limpará completamente a eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” (Mt 3.12; cf. Lc 3.17).
Para essa ocasião, Lucas revela um aspecto não registrado pelos demais evangelistas: “Estando o povo na expectativa, discorrendo todos no seu íntimo a respeito de João, se não seria ele, porventura, o próprio Cristo” (Lc 3.15), foi que ele respondeu com o contraste entre os dois batismos e a promessa do juízo a ser realizado pelo que haveria de vir.
Dentre os escritores dos Evangelhos, o apóstolo João foi o que mais deu ênfase aos testemunhos que o Batista deu a respeito de Jesus: primeiro, apresentando o profeta como um homem que surgiu para dar testemunho da luz, não sendo ele mesmo a luz (Jo 1.6-8); depois, ressaltando a Eternidade e “primazia” daquele que “vem depois de mim”, pois “já existia antes de mim” (Jo 1.15; cf. Jo 1.30). A isso, o próprio apóstolo emenda declarações que apontam para Jesus Cristo como sendo aquele que trouxe plenitude, “graça sobre graça”, e que é o unigênito do Pai (Jo 1.16-18). Tudo isso se coaduna com a intenção joanina de descrever a Jesus como o Verbo Encarnado, transcendente e divino.
Em seguida, o apóstolo João trata de uma entrevista que João Batista teve com sacerdotes e levitas fariseus enviados de Jerusalém a Betânia para lhe perguntarem quem era ele. Sem titubeios, o Batista confessou não ser ele o Cristo. Como os emissários continuassem a investigação, perguntando se ele era Elias ou “o profeta”, João Batista respondeu mencionando a profecia encontrada em Is 40.3, já referida: ele era a voz do que clama no deserto (Jo 1.19-24).
Ocorreu, porém, que os inquiridores perguntaram por que João batizava, considerando que não era o Cristo, nem Elias, nem “o profeta”. Foi nesse contexto, segundo o apóstolo João, que o Batista comparou o seu batismo nas águas com o batismo a ser ministrado pelo que haveria de vir, e que, na verdade, já estava no meio deles, e eles não conheciam (Jo 1.25-27).
No dia seguinte, João Batista viu Jesus, que vinha em sua direção, e disse: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”. João também admitiu que não o conhecia, e que, para que o mesmo fosse manifestado a Israel, foi que ele veio batizando em água (Jo 1.29,31). Em poucas palavras, portanto, tem-se a revelação nítida de Jesus como o Salvador, prefigurado no cordeiro veterotestamentário, além do esclarecimento da finalidade do batismo de João.
Há, ainda, outro testemunho do Batista registrado pelo apóstolo João, e se encontra em Jo 3.22-30: estando Jesus a batizar com seus discípulos na Judéia, João Batista se encontrava batizando em Enom, perto de Salim...Tendo surgido uma contenda entre os discípulos de João e um judeu a respeito da purificação, foram ter com João e lhe disseram: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (v. 26).
Com sabedoria, João respondeu que “o homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (v. 27); que ele mesmo havia dito não ser o Cristo, mas fora “enviado” como “seu precursor” (v. 28); que se considerava como o “amigo do noivo”, cuja alegria é se regozijar com o noivo, o qual, este sim, tem a noiva (v. 29); e “convém que ele cresça e que eu diminua” (v. 30), declaração esta que bem pode ser um resumo da vida de João Batista.
Cumpre deixar bem patente que João veio para dar seu testemunho, mas que o maior testemunho foi dado pelas obras do próprio Cristo. Com efeito, de acordo com Jo 5.31-37, Jesus disse aos judeus que, se Ele testificasse a respeito de Si mesmo, o Seu testemunho não seria verdadeiro – daí se pode refletir sobre o porquê do envio de João. Prosseguindo, Jesus disse que “outro” (v. 32) é o que testemunha a Seu respeito, e é verdadeiro esse testemunho. Expressamente, Jesus afirma que João deu testemunho verdadeiro aos mensageiros enviados pelos judeus, o que comprova que o testemunho de João foi singular.
Contudo, Jesus não aceita “humano testemunho” (v. 34). Isso não significa que Jesus estivesse desprezando a João, mas o contrário, pois “ele era a lâmpada que ardia e iluminava, e vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz” (v. 35). A questão é que Jesus tem “maior testemunho do que o de João”, eis que as obras do Pai, realizadas por Ele, testemunham a Seu respeito, assegurando que o Pai O enviara (v.36).
4. Dois discípulos de João Batista seguem a Jesus (Jo 1.35-42).
Conquanto não quisesse fazer discípulos, a admiração do povo por João Batista fez com que ele formasse um movimento de seguidores, os chamados “discípulos de João”. Estes, por exemplo, usavam a prática do jejum, como se infere de Mt 9.14, Mc 2.18 e Lc 9.33; e foram ensinados a orar, como se vê em Lc 11.1.
Por outro lado, os discípulos de João foram ensinados corretamente sobre o Cristo, ante os testemunhos que o Batista dava de Jesus.
Tanto isso é verdade que, certa vez, estando dois deles com João e vendo Jesus passar, João Batista disse: “Eis o Cordeiro de Deus!”. Esse testemunho fez com que os dois discípulos fossem atrás de Jesus, querendo saber onde ele assistia (recebia pessoas). Um deles era André, que levou Simão, seu irmão, à presença de Jesus, que lhe mudou o nome para Cefas, que em grego é Pedro.
Essa é uma das passagens que estabelecem forte vínculo entre o ministério de João e o ministério de Jesus.
Entretanto, nem o povo nem a liderança conseguiram compreender a relação entre João Batista e Jesus. Tanto que disseram aos fariseus que Jesus batizava mais discípulos do que João, numa comparação sem fundamento, não só porque Jesus não batizava, mas também porque Ele era o Cristo, enquanto João era tão-somente o precursor (Jo 4.1).
5. João batiza Jesus (Mt 3.13-17, Mc 1.9-11, Lc 3.21,22; Jo 1.32-34).
Os quatro Evangelhos relatam o batismo de Jesus pelas mãos de João, que, a princípio, relutava, considerando que ele é que deveria ser batizado por Jesus. Por sua vez, o SENHOR respondeu que “convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15).
Ao sair da água, Jesus viu descer dos céus o Espírito de Deus em forma de pomba, e ouviu uma voz dos céus que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17; cf. Mc 1.11; Lc 3.22). Aquela foi uma demonstração audiovisual da Trindade, algo que João Batista pôde testemunhar de muito perto, dado o seu discernimento espiritual, como ele mesmo afirmou (Jo 1.32,34).
6. João repreende Herodes e é preso (Lc 3.18-20).
Conta o evangelista Lucas que “com muitas outras exortações [João Batista] anunciava o evangelho ao povo” (Lc 3.18). Essa era a sua tarefa primordial como precursor do Messias. E, como deve ter ficado claro, seu discurso possuía um profundo apelo ético, que resultou em sua prisão, ordenada por Herodes, o tetrarca da Galiléia.
Curiosamente, foi uma repreensão moral e particular que levou João Batista ao cárcere (Lc 3.19-20), quando se poderia esperar uma perseguição de natureza política e religiosa, como a que se daria mais tarde sobre Jesus.
A prisão ocorreu porque João Batista repreendeu Herodes devido ao concubinato que este mantinha com Herodias, mulher de seu irmão.
7. Jesus inicia seu ministério depois que João é preso (Mt 4.12-17; Mc 1.14,15; Lc 4.14,15).
Ao saber que João havia sido preso, Jesus se retirou para a Galiléia, e, em lá chegando, mudou de Nazaré para Cafarnaum, para que se cumprisse a predição de Isaías quanto à “Galiléia dos gentios”. Desde então, a pregação de Jesus foi “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17), igualmente ao que João pregara (cf. Mt 3.2).
Na versão de Marcos, a mensagem foi a seguinte: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15).
Mais uma vez se observa a proximidade entre os ministérios de Jesus e de seu primo João. A mensagem era a mesma, e Jesus começou a pregar com um sentido de urgência, de indispensável tomada de posição frente ao “evangelho de Deus” (Mc 1.14).
Não há dúvida, pois, de que se está diante de um plano concebido por Deus para a Salvação da humanidade, e que se inaugurou uma nova etapa desde que o ministério de João cessou.
8. João envia mensageiros a Jesus (Mt 11.2-6 e Lc 7.18-23).
Mesmo João Batista teve seu momento de fraqueza, quando, no cárcere, ao ouvir falar das obras de Cristo, mandou que seus discípulos lhe perguntassem se era Ele “aquele que estava para vir” ou se outro deveria ser esperado (Mt 11.2,3; cf. Lc 7.18-20). É realmente curioso que essa dúvida tenha surgido da parte do homem que testemunhou várias vezes de Jesus como sendo o Cristo, o que incluiu a descida do Espírito Santo e a audição da voz do Pai desde os céus abertos.
A fim de mostrar a João que era Ele o Cristo, Jesus “curou (...) muitos de moléstias, e flagelos, e de espíritos malignos; e deu vista a muitos cegos” (Lc 7.21), mandando em seguida dizerem o que eles estavam “ouvindo e vendo” (Mt 11.4; cf. Lc 7.22) – cura de cegos, surdos, coxos, leprosos, ressurreição de mortos e o anúncio do evangelho aos pobres (Mt 11.5; Lc 7.22). Por fim, disse também: “Bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mt 11.6; Lc 7.23).
De toda maneira, vê-se que Jesus não requereu de João mais do que se poderia esperar do ser humano, com suas limitações.
9. Jesus dá testemunho de João (Mt 11.7-19 e Lc 7.24-35).
Em reconhecimento ao caráter de João, Jesus deu testemunho dele, assim que seus emissários partiram.
Para Jesus, João não era “um caniço agitado pelo vento” (Mt 11.7), embora também não fosse “um homem vestido de roupas finas”, porque estes “assistem nos palácios reais” (Mt 11.8). João era, isto sim, aquele mensageiro de Deus anunciado por Malaquias para preparar o Seu caminho (Ml 3.1).
Falando de maneira quase enigmática, Jesus disse que entre os nascidos de mulher “ninguém apareceu maior do que João Batista”, ao passo que “o menor no reino dos céus é maior do que ele” (Mt 11.11). A um só tempo, Jesus elogia o seu precursor e ensina que os valores celestiais são diferentes dos valores terrenos.
Mas Jesus prossegue revelando algo mais sobre a missão de João Batista no Plano de Salvação: “Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é o Elias que havia de vir” (Mt 11.12-14; ver também Lc 16.16).
Todavia, os corações dos judeus estavam tão endurecidos que não aceitaram a pregação de João nem a de Jesus: assim como meninos que não dançam com a alegria da flauta nem choram ao som de lamentações, os judeus diziam que João, que não comia nem bebia, tinha demônio, enquanto criticavam o Filho do homem, que comia e bebia, chamando-O de glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores (Mt 11.16.19). O problema, na verdade, estava com as pessoas, e não com a mensagem apresentada pelo Batista ou por Jesus.
10. A morte de João Batista (Mt 14.1-12; Mc 6.14-29; Lc 9.7-9).
Os evangelistas que tratam da morte de João Batista iniciam dizendo que os feitos de Jesus fizeram Herodes pensar que o mesmo havia ressurgido dentre os mortos – e que por isso nele operavam “forças miraculosas” – enquanto outros diziam que seria Elias ou um dos antigos profetas.
Abre-se, então, um parêntese, para narrar as circunstâncias em que João morreu: por causa de uma censura ao fato de Herodes viver com a esposa de seu irmão (Filipe), João Batista foi encarcerado. Herodes, em si mesmo, temia a João, sabendo que era “homem justo e santo”, e o guardava em segurança. Além disso, ficava “perplexo” quando o ouvia, e o fazia “de boa mente”. Por outro lado, Herodias – esse era o nome da mulher, ou seu título – odiava o profeta, que só não era assassinado por ser popularmente reconhecido como tal.
Em certa festividade, porém, Herodias teve a oportunidade que procurava.
11. João Batista é o Elias que havia de vir (Mt 17.9-13; Mc 9.9-13; cf. Is 40.3 e Ml 4.5,6).
Como já referido, João Batista era parecido com Elias na forma de vestir, mas as semelhanças vão além, e possuem fundamento bíblico. Com efeito, foi Malaquias (4.5,6) quem anunciou a vinda do profeta Elias “antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição”.
Vale frisar que não se trata de reencarnação, a qual, na concepção espiritualista, exige que o reencarnado tenha falecido, coisa que não aconteceu com Elias, o qual foi arrebatado (II Rs 2.11), e apareceu, como ele mesmo, na Transfiguração de Jesus (Lc 9.30,31 e 33). Mais do que isso, a Escritura, que não pode se contradizer, preceitua que ao homem é ordenado morrer uma só vez (Hb 9.27), e que os mortos não intervêm nos assuntos dos vivos (Lc 16.29-31).
Na época de Jesus, as pessoas esperavam pela vinda de Elias, mas não sabiam como isso iria ocorrer. Chegaram a pensar que Jesus fosse Elias, dado o seu ministério extraordinário.
Dessa forma, quando da Transfiguração, tendo visto Elias, os discípulos perguntaram a Jesus “por que dizem os escribas ser necessário que Elias venha primeiro” (Mt 17.10; cf. Mc 9.11). Essa foi uma pergunta inteligente, à qual Jesus respondeu que, “de fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quando quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles” (Mt 17.11,12; cf. Mc 9.12).
Com isso, os discípulos entenderam que se tratava de João Batista (Mt 17.13).
Como já asseverado, coube a um anjo do SENHOR anunciar a Zacarias, pai de João Batista, que este iria “adiante do SENHOR no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos”, expressão extraída de Malaquias (cf. Lc 1.11,17; grifo nosso). Assim, tem-se que João veio como Elias em termos de capacitação sobrenatural para pregar a mensagem divina a um povo carente.
As andanças pelo deserto, o enfrentamento de reis e o estilo solitário são pontos que aproximam essas duas personagens. Mas não se deve olvidar que sua afinidade maior está exatamente no cumprimento de uma missão especial, para a qual foram devidamente preparados, como se houvessem nascido exclusivamente para isso.
12. A autoridade de Jesus e o batismo de João (Mt 21.23-27; Mc 11.27-33 e Lc 20.1-8).
Certa vez, enquanto ensinava no Templo, ao ver questionada a Sua autoridade pelos principais sacerdotes e anciãos do povo, Jesus respondeu com outra pergunta, referente ao batismo de João, se era do céu ou dos homens. Foi um excelente recurso de retórica, pois, se respondessem que era do céu, Jesus lhes perguntaria por que eles não acreditaram no batismo de João; e se respondessem que era dos homens, era para temer o povo, que o tinha como profeta. Assim, depois de muito cogitar, os líderes disseram simplesmente que não sabiam. Jesus, então, não precisou dizer com que autoridade fazia aquelas coisas.
Ao utilizar como referência o batismo de João, Jesus estava, primeiro, valorizando o trabalho do Seu precursor; segundo, revelando que a liderança não havia recebido João como profeta, diferentemente do que aparentavam quando iam buscar o batismo no Jordão; terceiro, resguardando-se para que não fosse morto antes da hora.
13. O batismo de João como início do ministério de Jesus (At 1.21,22).
Quando falava sobre a necessidade de escolherem o sucessor de Judas Iscariotes, o apóstolo Pedro arrolou como requisito o ter estado com Jesus por todo o tempo, desde o batismo de João. Isso significa que o ministério de Jesus estava intimamente relacionado ao de João Batista, que lhe foi um necessário antecedente.
14. Pessoas que “só conheciam o batismo de João” (At 18.24-19.6).
Em dois momentos, no Livro de Atos, Lucas registra que alguém conhecia apenas o batismo de João: um deles foi Apolo, judeu, natural de Alexandria, “homem eloqüente e poderoso nas Escrituras” (At 18.24), que era “instruído no caminho do SENHOR”, “fervoroso de espírito”, falando e ensinando “com precisão a respeito de Jesus”... (cf. At 18.25), mas que apresentava, como deficiência, o fato de conhecer apenas o batismo de João; outros foram uns doze homens de Éfeso.
No primeiro caso, o casal Priscila e Áquila tomaram a Apolo e, “com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus” (At 18.26). No segundo caso, Paulo perguntou ao grupo se haviam recebido o Espírito Santo quando creram, ao que eles disseram que sequer sabiam que existia o Espírito Santo. Por isso, Paulo perguntou em que foram eles batizados, e obteve a resposta “no batismo de João”.
De forma didática, o apóstolo forneceu o propósito do batismo de João, a saber:
“Disse-lhes Paulo: João realizou batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus” (At 19.4).
Ao ouvir essa definição, o grupo foi batizado em nome do SENHOR Jesus (At 19.5), o que, em tese, aponta para uma diferença entre o batismo de João e o batismo cristão , algo que não se costuma ensinar nas igrejas, como se o batismo recomendado por Jesus fosse o mesmo (Mt 28.19; Mc 16.16). Mais do que isso, com a imposição de mãos do apóstolo, “veio sobre eles o Espírito Santo; e tanto falavam em línguas como profetizavam” (At 19.6), o que sugere que a preocupação inicial de Paulo foi satisfeita de modo cabal, pela evidência física – assim, ele constatou que os homens receberam mesmo o Espírito Santo.
Conclusão.
De um modo geral, analisando os textos bíblicos relacionados a João Batista, pode-se observar que ele era o precursor daquele que havia de vir, e estava plenamente consciente disso, como por ele expressamente afirmado.
Essa função de João vem consignada em suas palavras a respeito de si mesmo, no testemunho que deu de Jesus, nas profecias de Isaías e Malaquias, na predição do anjo, no ensino de Jesus, na definição dada por Paulo quanto ao batismo de arrependimento.
Pode-se afirmar, portanto, que João Batista foi um homem predestinado, e teve um ministério singular, pois somente ele foi precursor do Messias, não havendo nada semelhante nas Escrituras.
Embora seja uma figura do Novo Testamento, João Batista encerrou o período dos profetas, porque a Lei e os Profetas vigoraram até João (cf. Mt 11.13 e Lc 16.16).
Era João Batista um profeta que não operava milagres, algo tão celebrado nos dias atuais, quando as pessoas buscam sinais e prodígios, bem como a satisfação de interesses materiais. O essencial é que, conforme Jo 6.41, João não fez nenhum sinal, mas tudo quanto disse de Jesus era verdade. Não há nada mais importante do que falar a verdade sobre Jesus.
Enfim, João Batista deixou para a História um exemplo de extrema humildade, de consciência irrestrita acerca de si mesmo, do plano de Deus para a sua vida. Ele não nutria sonhos pessoais, mas cumpria cabalmente aquilo que lhe fora determinado pelo SENHOR.
É fundamental que o cristão tome João Batista como referencial, a fim de se entregar exatamente à missão que Deus lhe confiou, pois cada um dos salvos em Cristo possui uma tarefa a desempenhar no Reino dos Céus.
Referências bibliográficas:
BORNKAMM, Günther, Jesus de Nazaré. Tradução de José dos Santos Gonçalves e Nélio Schneider, São Paulo: Editora Teológica, 2005, 397p.
PEREIRA, Adão José. Boas Novas para um mundo em ruínas, encadernado, 2000, 113p.
STAGG, Frank. Atos: A luta dos cristãos por uma igreja livre e sem fronteiras. Tradução de Waldemar W. Wey, 3ª Ed., Rio de Janeiro: JUERP, 1994, 261p.
*Trabalho apresentado na Disciplina de Evangelhos, quando estudava Teologia na FATHEL, em Campo Grande-MS (curso que não concluí). O professor era o estimado Pr. Bento Roque de Souza.
Embora estejamos num veículo eletrônico, em que as leituras devem ser mais amenas ou menos extensas, lanço o fruto de minha pesquisa à apreciação dos mui atilados leitores. É como segue:
Esquema de João Batista, o precursor de Cristo:
Introdução.
1. Ascendência, anúncio e nascimento de João Batista: Lc 1.5-25; 57-66.
2. Aparição e pregação de João Batista: Mt 3.1-10; Mc 1.2-6 e Lc 3.1-14.
3. João Batista dá testemunho de Cristo: Mt 3.11-12; Mc 1.7,8; Lc 3.15-17; Jo 1.15-31; 3.22-30.
4. Dois discípulos de João Batista seguem a Jesus: Jo 1.35-42.
5. João batiza Jesus: Mt 3.13-17, Mc 1.9-11, Lc 3.21,22; Jo 1.32-34.
6. João Batista repreende Herodes e é preso: Lc 3.18-20.
7. Jesus inicia seu ministério depois que João Batista é preso: Mt 4.12-17; Mc 1.14,15; Lc 4.14,15.
8. João Batista envia mensageiros a Jesus: Mt 11.2-6; Lc 7.18-23.
9. Jesus dá testemunho de João Batista: Mt 11.7-19; Lc 7.24-35.
10. A morte de João Batista: Mt 14.1-12; Mc 6.14-29; Lc 9.7-9.
11. João Batista é o Elias que havia de vir: Mt 17.9-13; Mc 9.9-13; cf. Is 40.3; Ml 4.5,6.
12. A autoridade de Jesus e o batismo de João: Mt 21.23-27; Mc 11.27-33; Lc 20.1-8.
13. O batismo de João como início do ministério de Jesus: At 1.21,22.
14. Pessoas que “só conheciam o batismo de João”: At 18.24-19.6.
Conclusão.
Referências bibliográficas.
Introdução.
Para uma análise da figura de João Batista, é necessário examinar tudo o que consta dos Evangelhos a seu respeito, atentando para alguns aspectos principais.
1. Ascendência, anúncio e nascimento de João Batista (Lc 1.5-25, 57-80).
Os dados biográficos de João Batista são oferecidos com maiores detalhes pelo evangelista Lucas, único que escreve sobre a origem e nascimento do profeta.
Os pais de João Batista, Zacarias e Isabel, são retratados como piedosos e irrepreensíveis, vivendo de acordo com “todos os preceitos e mandamentos do SENHOR” (Lc 1.6). Ela era descendente de Arão, e ele, sacerdote do turno de Abias.
O anúncio do nascimento de João Batista ocorreu quando Zacarias cumpria seu ofício de queimar o incenso no santuário de Deus, e foi envolvido pela operação divina: à semelhança de Sara e Raquel, mulheres de patriarcas, e de Ana, mãe do grande líder Samuel, Isabel era estéril, condição que implicava forte preconceito social e sentimento de inferioridade, mas que, nas páginas da Escritura, deu ensejo a intervenções poderosas de Deus, abrindo a madre e trazendo ao mundo homens que iriam marcar a História da Redenção.
No caso de Isabel e Zacarias, havia a agravante da idade avançada. Foi nessa situação desfavorável que o anjo Gabriel apareceu a Zacarias dentro do santuário e lhe prometeu o nascimento de um filho, com menção literal de um trecho da profecia de Malaquias e outras palavras sobre o perfil e missão do menino, tudo a indicar que se trataria de uma pessoa separada para um destino especial, porque “cheio do Espírito Santo, já desde o ventre materno” (Lc 1.15) e preservado do vinho e da bebida forte.
A incredulidade do sacerdote, porém, fez com que ficasse mudo, até que o filho nascesse. Mas desde logo Isabel ficou alegre pela maternidade anunciada.
Desse modo, o nascimento de João Batista foi cercado de expectativa, dada a atuação sobrenatural que fez com que um casal idoso, sendo a mulher estéril, gerasse um filho. Isso fez com que perguntassem o que haveria de ser daquele menino.
O relato de Lucas contém três cânticos, um dos quais atribuído a Zacarias, por conta do nascimento de João (Lc 1.67-80). Aliás, esse nome também foi conferido por Deus, e fez com que Zacarias rejeitasse a idéia de colocar no filho um nome oriundo da tradição familiar. “João” significa “O SENHOR dá graça ”, e condiz com a vida do Batista.
Outra característica de Lucas é mencionar a dotação do Espírito Santo. Isso ocorreu com Isabel ao ser visitada por Maria, sua prima, quando o próprio feto saltou de alegria ante a visita da mulher que havia sido escolhida mãe do Salvador (ver Lc 1.26-45).
Esses elementos fornecidos exclusivamente por Lucas mostram que João Batista foi o homem enviado por Deus para ser o precursor do Messias.
2. A aparição e pregação de João Batista (Mt 3.1-10; Mc 1.2-6; Lc 3.1-14).
Tanto Mateus quanto Marcos afirmam que João Batista “apareceu” no deserto (Mt 3.1; 1.4). O verbo “aparecer” sugere a idéia de que João irrompeu sem aviso e sem envolvimento com um sistema preestabelecido.
De repente, aquele homem começou sua pregação na região da Judéia com um discurso simples, voltado ao arrependimento, “porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2). Elias, por sua vez, também apareceu sem precedentes, já proferindo uma mensagem contra Acabe (I Rs 17.1).
No entanto, no caso de João, não se deveria tratar de uma surpresa completa, eis que “este é o referido por intermédio do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas ” (Mt 3.3; cf. Is 40.3).
É um traço reconhecido de Mateus fazer referências ao Antigo Testamento para mostrar a Israel o cumprimento do plano de Redenção, do qual a “voz do que clama no deserto” faria parte. Mas o evangelista Marcos também faz citação expressa dessa profecia, ao passo que, pondo tudo na pena de Isaías, remete, ainda, a outro profeta, quando diz: “Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho” (Mc 1.2, cf. Ml 3.1). A seu turno, Lucas faz uma citação maior (Lc 3.4-6).
Dessa forma, João Batista vem apresentado como alguém que foi prometido pelos profetas, assim como o anjo deixara entrever ao falar com Zacarias.
Como já visto, e diferentemente de Mateus e Marcos, Lucas não começa dizendo que João Batista “apareceu”, mas, seguindo seu método mais detalhista, oferece importantes elementos temporais, quais sejam, o fato de que João Batista surgiu no décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes, tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe, tetrarca da região da Ituréia e Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene, além de serem sumos sacerdotes Anás e Caifás (Lc 3.1,2).
Segundo GÜNTHER BORNKAMM , esse período foi de outubro de 27 a setembro de 28 d.C. (talvez até 28/29), o que constitui, para o estudioso da Bíblia, relevante colaboração para a historicidade do personagem.
Tal como sua aparição e pregação, o estilo de vida de João Batista era simples: vestia-se de pêlos de camelo e trazia nos lombos um cinto de couro (Mt 3.4; Mc 1.6) – nisso ele já parecia com o profeta Elias (II Rs 1.8). Sua alimentação eram gafanhotos e mel silvestre (Mt 3.4; Mc 1.6). Tratava-se de um homem que escolheu o deserto – ou que foi escolhido por ele.
Não obstante esse exotismo, o trabalho realizado por João atraiu multidões. Pessoas de Jerusalém, de toda a Judéia e da circunvizinhança do Jordão iam ter com ele para o ouvir e serem batizadas naquele rio, “confessando os seus pecados” (Mt 3.5,6; Mc 1.5).
O batismo era um meio de confissão pública, e caracterizou tanto o trabalho de João que lhe rendeu o predicativo de “Batista”, equivalente a “batizador”.
Tamanha era a proporção do movimento que a liderança religiosa quis tirar algum proveito. Assim, fariseus e saduceus, membros de dois grupos religiosos de destaque, foram atrás do batismo, mas tiveram que ouvir de João:
“Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar pedras a Abraão. Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.7-10; cf. Lc 3.7-9).
Percebendo que os líderes não haviam se arrependido, e que estavam apenas querendo agradar o povo, João os repreendeu severamente, empregando a terrível, mas verdadeira, alcunha de “raça de víboras”. Além disso, desbaratou a frágil noção de que a nacionalidade israelita lhes poderia ajudar na questão espiritual.
A verdade central era a de um juízo iminente, que chegaria tão rápido quanto dura o tempo entre o machado colocado à raiz da árvore e o corte.
Demais disto, Lucas acresce uma informação importante: a censura do profeta não se dirigia somente à hipocrisia da liderança, mas às multidões egoístas. Diante da pergunta “Que havemos, pois, de fazer?”, João responde com uma exortação de cunho social, para que se distribuíssem roupas e comida aos pobres, para que os publicanos cobrassem apenas o estipulado, para que os soldados a ninguém maltratassem, não dessem denúncia falsa e se contentassem com o seu soldo (ver Lc 3.10-14).
Todas essas recomendações apontam para um profeta extremamente desafiador e objetivo, desprovido de compromissos políticos e de convenções sociais.
3. João dá testemunho de Cristo (Mt 3.11,12; Mc 1.7,8; Lc 3.15-17; Jo 1.6-8, 15-31; 3.22-30).
O Batista demonstrou ter pleno conhecimento de sua função na história salvífica. Uma de suas prédicas foi no sentido de que, enquanto ele batizava em água, à vista de arrependimento, aquele que viria depois dele, e que era mais poderoso e mais importante – “cujas sandálias não sou digno de levar” – batizaria no Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11,12; Mc 1.7,8; Lc 3.16; Jo 1.26,27).
Havia, pois, diferença entre os ministérios do precursor e do que viria depois, entre o batismo do arrependimento e o batismo no Espírito Santo e com fogo. Estava claro que João era menor, que não era protagonista.
Mais do que isso, o que viria depois executaria juízo, o que João expressou na ilustração daquele que tem a pá em sua mão, e “limpará completamente a eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” (Mt 3.12; cf. Lc 3.17).
Para essa ocasião, Lucas revela um aspecto não registrado pelos demais evangelistas: “Estando o povo na expectativa, discorrendo todos no seu íntimo a respeito de João, se não seria ele, porventura, o próprio Cristo” (Lc 3.15), foi que ele respondeu com o contraste entre os dois batismos e a promessa do juízo a ser realizado pelo que haveria de vir.
Dentre os escritores dos Evangelhos, o apóstolo João foi o que mais deu ênfase aos testemunhos que o Batista deu a respeito de Jesus: primeiro, apresentando o profeta como um homem que surgiu para dar testemunho da luz, não sendo ele mesmo a luz (Jo 1.6-8); depois, ressaltando a Eternidade e “primazia” daquele que “vem depois de mim”, pois “já existia antes de mim” (Jo 1.15; cf. Jo 1.30). A isso, o próprio apóstolo emenda declarações que apontam para Jesus Cristo como sendo aquele que trouxe plenitude, “graça sobre graça”, e que é o unigênito do Pai (Jo 1.16-18). Tudo isso se coaduna com a intenção joanina de descrever a Jesus como o Verbo Encarnado, transcendente e divino.
Em seguida, o apóstolo João trata de uma entrevista que João Batista teve com sacerdotes e levitas fariseus enviados de Jerusalém a Betânia para lhe perguntarem quem era ele. Sem titubeios, o Batista confessou não ser ele o Cristo. Como os emissários continuassem a investigação, perguntando se ele era Elias ou “o profeta”, João Batista respondeu mencionando a profecia encontrada em Is 40.3, já referida: ele era a voz do que clama no deserto (Jo 1.19-24).
Ocorreu, porém, que os inquiridores perguntaram por que João batizava, considerando que não era o Cristo, nem Elias, nem “o profeta”. Foi nesse contexto, segundo o apóstolo João, que o Batista comparou o seu batismo nas águas com o batismo a ser ministrado pelo que haveria de vir, e que, na verdade, já estava no meio deles, e eles não conheciam (Jo 1.25-27).
No dia seguinte, João Batista viu Jesus, que vinha em sua direção, e disse: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”. João também admitiu que não o conhecia, e que, para que o mesmo fosse manifestado a Israel, foi que ele veio batizando em água (Jo 1.29,31). Em poucas palavras, portanto, tem-se a revelação nítida de Jesus como o Salvador, prefigurado no cordeiro veterotestamentário, além do esclarecimento da finalidade do batismo de João.
Há, ainda, outro testemunho do Batista registrado pelo apóstolo João, e se encontra em Jo 3.22-30: estando Jesus a batizar com seus discípulos na Judéia, João Batista se encontrava batizando em Enom, perto de Salim...Tendo surgido uma contenda entre os discípulos de João e um judeu a respeito da purificação, foram ter com João e lhe disseram: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (v. 26).
Com sabedoria, João respondeu que “o homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (v. 27); que ele mesmo havia dito não ser o Cristo, mas fora “enviado” como “seu precursor” (v. 28); que se considerava como o “amigo do noivo”, cuja alegria é se regozijar com o noivo, o qual, este sim, tem a noiva (v. 29); e “convém que ele cresça e que eu diminua” (v. 30), declaração esta que bem pode ser um resumo da vida de João Batista.
Cumpre deixar bem patente que João veio para dar seu testemunho, mas que o maior testemunho foi dado pelas obras do próprio Cristo. Com efeito, de acordo com Jo 5.31-37, Jesus disse aos judeus que, se Ele testificasse a respeito de Si mesmo, o Seu testemunho não seria verdadeiro – daí se pode refletir sobre o porquê do envio de João. Prosseguindo, Jesus disse que “outro” (v. 32) é o que testemunha a Seu respeito, e é verdadeiro esse testemunho. Expressamente, Jesus afirma que João deu testemunho verdadeiro aos mensageiros enviados pelos judeus, o que comprova que o testemunho de João foi singular.
Contudo, Jesus não aceita “humano testemunho” (v. 34). Isso não significa que Jesus estivesse desprezando a João, mas o contrário, pois “ele era a lâmpada que ardia e iluminava, e vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz” (v. 35). A questão é que Jesus tem “maior testemunho do que o de João”, eis que as obras do Pai, realizadas por Ele, testemunham a Seu respeito, assegurando que o Pai O enviara (v.36).
4. Dois discípulos de João Batista seguem a Jesus (Jo 1.35-42).
Conquanto não quisesse fazer discípulos, a admiração do povo por João Batista fez com que ele formasse um movimento de seguidores, os chamados “discípulos de João”. Estes, por exemplo, usavam a prática do jejum, como se infere de Mt 9.14, Mc 2.18 e Lc 9.33; e foram ensinados a orar, como se vê em Lc 11.1.
Por outro lado, os discípulos de João foram ensinados corretamente sobre o Cristo, ante os testemunhos que o Batista dava de Jesus.
Tanto isso é verdade que, certa vez, estando dois deles com João e vendo Jesus passar, João Batista disse: “Eis o Cordeiro de Deus!”. Esse testemunho fez com que os dois discípulos fossem atrás de Jesus, querendo saber onde ele assistia (recebia pessoas). Um deles era André, que levou Simão, seu irmão, à presença de Jesus, que lhe mudou o nome para Cefas, que em grego é Pedro.
Essa é uma das passagens que estabelecem forte vínculo entre o ministério de João e o ministério de Jesus.
Entretanto, nem o povo nem a liderança conseguiram compreender a relação entre João Batista e Jesus. Tanto que disseram aos fariseus que Jesus batizava mais discípulos do que João, numa comparação sem fundamento, não só porque Jesus não batizava, mas também porque Ele era o Cristo, enquanto João era tão-somente o precursor (Jo 4.1).
5. João batiza Jesus (Mt 3.13-17, Mc 1.9-11, Lc 3.21,22; Jo 1.32-34).
Os quatro Evangelhos relatam o batismo de Jesus pelas mãos de João, que, a princípio, relutava, considerando que ele é que deveria ser batizado por Jesus. Por sua vez, o SENHOR respondeu que “convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15).
Ao sair da água, Jesus viu descer dos céus o Espírito de Deus em forma de pomba, e ouviu uma voz dos céus que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17; cf. Mc 1.11; Lc 3.22). Aquela foi uma demonstração audiovisual da Trindade, algo que João Batista pôde testemunhar de muito perto, dado o seu discernimento espiritual, como ele mesmo afirmou (Jo 1.32,34).
6. João repreende Herodes e é preso (Lc 3.18-20).
Conta o evangelista Lucas que “com muitas outras exortações [João Batista] anunciava o evangelho ao povo” (Lc 3.18). Essa era a sua tarefa primordial como precursor do Messias. E, como deve ter ficado claro, seu discurso possuía um profundo apelo ético, que resultou em sua prisão, ordenada por Herodes, o tetrarca da Galiléia.
Curiosamente, foi uma repreensão moral e particular que levou João Batista ao cárcere (Lc 3.19-20), quando se poderia esperar uma perseguição de natureza política e religiosa, como a que se daria mais tarde sobre Jesus.
A prisão ocorreu porque João Batista repreendeu Herodes devido ao concubinato que este mantinha com Herodias, mulher de seu irmão.
7. Jesus inicia seu ministério depois que João é preso (Mt 4.12-17; Mc 1.14,15; Lc 4.14,15).
Ao saber que João havia sido preso, Jesus se retirou para a Galiléia, e, em lá chegando, mudou de Nazaré para Cafarnaum, para que se cumprisse a predição de Isaías quanto à “Galiléia dos gentios”. Desde então, a pregação de Jesus foi “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17), igualmente ao que João pregara (cf. Mt 3.2).
Na versão de Marcos, a mensagem foi a seguinte: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15).
Mais uma vez se observa a proximidade entre os ministérios de Jesus e de seu primo João. A mensagem era a mesma, e Jesus começou a pregar com um sentido de urgência, de indispensável tomada de posição frente ao “evangelho de Deus” (Mc 1.14).
Não há dúvida, pois, de que se está diante de um plano concebido por Deus para a Salvação da humanidade, e que se inaugurou uma nova etapa desde que o ministério de João cessou.
8. João envia mensageiros a Jesus (Mt 11.2-6 e Lc 7.18-23).
Mesmo João Batista teve seu momento de fraqueza, quando, no cárcere, ao ouvir falar das obras de Cristo, mandou que seus discípulos lhe perguntassem se era Ele “aquele que estava para vir” ou se outro deveria ser esperado (Mt 11.2,3; cf. Lc 7.18-20). É realmente curioso que essa dúvida tenha surgido da parte do homem que testemunhou várias vezes de Jesus como sendo o Cristo, o que incluiu a descida do Espírito Santo e a audição da voz do Pai desde os céus abertos.
A fim de mostrar a João que era Ele o Cristo, Jesus “curou (...) muitos de moléstias, e flagelos, e de espíritos malignos; e deu vista a muitos cegos” (Lc 7.21), mandando em seguida dizerem o que eles estavam “ouvindo e vendo” (Mt 11.4; cf. Lc 7.22) – cura de cegos, surdos, coxos, leprosos, ressurreição de mortos e o anúncio do evangelho aos pobres (Mt 11.5; Lc 7.22). Por fim, disse também: “Bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mt 11.6; Lc 7.23).
De toda maneira, vê-se que Jesus não requereu de João mais do que se poderia esperar do ser humano, com suas limitações.
9. Jesus dá testemunho de João (Mt 11.7-19 e Lc 7.24-35).
Em reconhecimento ao caráter de João, Jesus deu testemunho dele, assim que seus emissários partiram.
Para Jesus, João não era “um caniço agitado pelo vento” (Mt 11.7), embora também não fosse “um homem vestido de roupas finas”, porque estes “assistem nos palácios reais” (Mt 11.8). João era, isto sim, aquele mensageiro de Deus anunciado por Malaquias para preparar o Seu caminho (Ml 3.1).
Falando de maneira quase enigmática, Jesus disse que entre os nascidos de mulher “ninguém apareceu maior do que João Batista”, ao passo que “o menor no reino dos céus é maior do que ele” (Mt 11.11). A um só tempo, Jesus elogia o seu precursor e ensina que os valores celestiais são diferentes dos valores terrenos.
Mas Jesus prossegue revelando algo mais sobre a missão de João Batista no Plano de Salvação: “Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é o Elias que havia de vir” (Mt 11.12-14; ver também Lc 16.16).
Todavia, os corações dos judeus estavam tão endurecidos que não aceitaram a pregação de João nem a de Jesus: assim como meninos que não dançam com a alegria da flauta nem choram ao som de lamentações, os judeus diziam que João, que não comia nem bebia, tinha demônio, enquanto criticavam o Filho do homem, que comia e bebia, chamando-O de glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores (Mt 11.16.19). O problema, na verdade, estava com as pessoas, e não com a mensagem apresentada pelo Batista ou por Jesus.
10. A morte de João Batista (Mt 14.1-12; Mc 6.14-29; Lc 9.7-9).
Os evangelistas que tratam da morte de João Batista iniciam dizendo que os feitos de Jesus fizeram Herodes pensar que o mesmo havia ressurgido dentre os mortos – e que por isso nele operavam “forças miraculosas” – enquanto outros diziam que seria Elias ou um dos antigos profetas.
Abre-se, então, um parêntese, para narrar as circunstâncias em que João morreu: por causa de uma censura ao fato de Herodes viver com a esposa de seu irmão (Filipe), João Batista foi encarcerado. Herodes, em si mesmo, temia a João, sabendo que era “homem justo e santo”, e o guardava em segurança. Além disso, ficava “perplexo” quando o ouvia, e o fazia “de boa mente”. Por outro lado, Herodias – esse era o nome da mulher, ou seu título – odiava o profeta, que só não era assassinado por ser popularmente reconhecido como tal.
Em certa festividade, porém, Herodias teve a oportunidade que procurava.
11. João Batista é o Elias que havia de vir (Mt 17.9-13; Mc 9.9-13; cf. Is 40.3 e Ml 4.5,6).
Como já referido, João Batista era parecido com Elias na forma de vestir, mas as semelhanças vão além, e possuem fundamento bíblico. Com efeito, foi Malaquias (4.5,6) quem anunciou a vinda do profeta Elias “antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição”.
Vale frisar que não se trata de reencarnação, a qual, na concepção espiritualista, exige que o reencarnado tenha falecido, coisa que não aconteceu com Elias, o qual foi arrebatado (II Rs 2.11), e apareceu, como ele mesmo, na Transfiguração de Jesus (Lc 9.30,31 e 33). Mais do que isso, a Escritura, que não pode se contradizer, preceitua que ao homem é ordenado morrer uma só vez (Hb 9.27), e que os mortos não intervêm nos assuntos dos vivos (Lc 16.29-31).
Na época de Jesus, as pessoas esperavam pela vinda de Elias, mas não sabiam como isso iria ocorrer. Chegaram a pensar que Jesus fosse Elias, dado o seu ministério extraordinário.
Dessa forma, quando da Transfiguração, tendo visto Elias, os discípulos perguntaram a Jesus “por que dizem os escribas ser necessário que Elias venha primeiro” (Mt 17.10; cf. Mc 9.11). Essa foi uma pergunta inteligente, à qual Jesus respondeu que, “de fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quando quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles” (Mt 17.11,12; cf. Mc 9.12).
Com isso, os discípulos entenderam que se tratava de João Batista (Mt 17.13).
Como já asseverado, coube a um anjo do SENHOR anunciar a Zacarias, pai de João Batista, que este iria “adiante do SENHOR no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos”, expressão extraída de Malaquias (cf. Lc 1.11,17; grifo nosso). Assim, tem-se que João veio como Elias em termos de capacitação sobrenatural para pregar a mensagem divina a um povo carente.
As andanças pelo deserto, o enfrentamento de reis e o estilo solitário são pontos que aproximam essas duas personagens. Mas não se deve olvidar que sua afinidade maior está exatamente no cumprimento de uma missão especial, para a qual foram devidamente preparados, como se houvessem nascido exclusivamente para isso.
12. A autoridade de Jesus e o batismo de João (Mt 21.23-27; Mc 11.27-33 e Lc 20.1-8).
Certa vez, enquanto ensinava no Templo, ao ver questionada a Sua autoridade pelos principais sacerdotes e anciãos do povo, Jesus respondeu com outra pergunta, referente ao batismo de João, se era do céu ou dos homens. Foi um excelente recurso de retórica, pois, se respondessem que era do céu, Jesus lhes perguntaria por que eles não acreditaram no batismo de João; e se respondessem que era dos homens, era para temer o povo, que o tinha como profeta. Assim, depois de muito cogitar, os líderes disseram simplesmente que não sabiam. Jesus, então, não precisou dizer com que autoridade fazia aquelas coisas.
Ao utilizar como referência o batismo de João, Jesus estava, primeiro, valorizando o trabalho do Seu precursor; segundo, revelando que a liderança não havia recebido João como profeta, diferentemente do que aparentavam quando iam buscar o batismo no Jordão; terceiro, resguardando-se para que não fosse morto antes da hora.
13. O batismo de João como início do ministério de Jesus (At 1.21,22).
Quando falava sobre a necessidade de escolherem o sucessor de Judas Iscariotes, o apóstolo Pedro arrolou como requisito o ter estado com Jesus por todo o tempo, desde o batismo de João. Isso significa que o ministério de Jesus estava intimamente relacionado ao de João Batista, que lhe foi um necessário antecedente.
14. Pessoas que “só conheciam o batismo de João” (At 18.24-19.6).
Em dois momentos, no Livro de Atos, Lucas registra que alguém conhecia apenas o batismo de João: um deles foi Apolo, judeu, natural de Alexandria, “homem eloqüente e poderoso nas Escrituras” (At 18.24), que era “instruído no caminho do SENHOR”, “fervoroso de espírito”, falando e ensinando “com precisão a respeito de Jesus”... (cf. At 18.25), mas que apresentava, como deficiência, o fato de conhecer apenas o batismo de João; outros foram uns doze homens de Éfeso.
No primeiro caso, o casal Priscila e Áquila tomaram a Apolo e, “com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus” (At 18.26). No segundo caso, Paulo perguntou ao grupo se haviam recebido o Espírito Santo quando creram, ao que eles disseram que sequer sabiam que existia o Espírito Santo. Por isso, Paulo perguntou em que foram eles batizados, e obteve a resposta “no batismo de João”.
De forma didática, o apóstolo forneceu o propósito do batismo de João, a saber:
“Disse-lhes Paulo: João realizou batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus” (At 19.4).
Ao ouvir essa definição, o grupo foi batizado em nome do SENHOR Jesus (At 19.5), o que, em tese, aponta para uma diferença entre o batismo de João e o batismo cristão , algo que não se costuma ensinar nas igrejas, como se o batismo recomendado por Jesus fosse o mesmo (Mt 28.19; Mc 16.16). Mais do que isso, com a imposição de mãos do apóstolo, “veio sobre eles o Espírito Santo; e tanto falavam em línguas como profetizavam” (At 19.6), o que sugere que a preocupação inicial de Paulo foi satisfeita de modo cabal, pela evidência física – assim, ele constatou que os homens receberam mesmo o Espírito Santo.
Conclusão.
De um modo geral, analisando os textos bíblicos relacionados a João Batista, pode-se observar que ele era o precursor daquele que havia de vir, e estava plenamente consciente disso, como por ele expressamente afirmado.
Essa função de João vem consignada em suas palavras a respeito de si mesmo, no testemunho que deu de Jesus, nas profecias de Isaías e Malaquias, na predição do anjo, no ensino de Jesus, na definição dada por Paulo quanto ao batismo de arrependimento.
Pode-se afirmar, portanto, que João Batista foi um homem predestinado, e teve um ministério singular, pois somente ele foi precursor do Messias, não havendo nada semelhante nas Escrituras.
Embora seja uma figura do Novo Testamento, João Batista encerrou o período dos profetas, porque a Lei e os Profetas vigoraram até João (cf. Mt 11.13 e Lc 16.16).
Era João Batista um profeta que não operava milagres, algo tão celebrado nos dias atuais, quando as pessoas buscam sinais e prodígios, bem como a satisfação de interesses materiais. O essencial é que, conforme Jo 6.41, João não fez nenhum sinal, mas tudo quanto disse de Jesus era verdade. Não há nada mais importante do que falar a verdade sobre Jesus.
Enfim, João Batista deixou para a História um exemplo de extrema humildade, de consciência irrestrita acerca de si mesmo, do plano de Deus para a sua vida. Ele não nutria sonhos pessoais, mas cumpria cabalmente aquilo que lhe fora determinado pelo SENHOR.
É fundamental que o cristão tome João Batista como referencial, a fim de se entregar exatamente à missão que Deus lhe confiou, pois cada um dos salvos em Cristo possui uma tarefa a desempenhar no Reino dos Céus.
Referências bibliográficas:
BORNKAMM, Günther, Jesus de Nazaré. Tradução de José dos Santos Gonçalves e Nélio Schneider, São Paulo: Editora Teológica, 2005, 397p.
PEREIRA, Adão José. Boas Novas para um mundo em ruínas, encadernado, 2000, 113p.
STAGG, Frank. Atos: A luta dos cristãos por uma igreja livre e sem fronteiras. Tradução de Waldemar W. Wey, 3ª Ed., Rio de Janeiro: JUERP, 1994, 261p.
*Trabalho apresentado na Disciplina de Evangelhos, quando estudava Teologia na FATHEL, em Campo Grande-MS (curso que não concluí). O professor era o estimado Pr. Bento Roque de Souza.
Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009
A Maravilhosa Graça e os pretensos direitos de alguns
Enquanto o Evangelho afirma que a Salvação e toda a Providência decorrem da Graça de Deus (Gl 2.16, 20,21; Ef 1.3-8; 2.1-10; I Pe 1.3), os falsos mestres da Teologia da Prosperidade e da Confissão Positiva dizem que temos direitos perante Deus. Dizem que podemos "nomear e reivindicar", decretar, declarar, profetizar a bênção, rejeitar, determinar, e exigir nossos direitos.
Ora, não temos direito nenhum diante de Deus. Nem mesmo o fato de Cristo ter morrido na Cruz por nós nos outorga nenhum direito. Trata-se de favor mesmo, oferecido a quem quiser ter a vida eterna.
Ostentar supostos direitos em face do SENHOR é pecado de arrogância. Quem somos nós? "Quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha a ser restituído"? (Rm 11.35).
Nem o justo Jó teve quaisquer direitos para exibir perante o Deus Criador de todas as coisas (Jó 38-41).
O anti-evangelho dos "direitos legais" que acionariam o poder de Deus precisa ser sempre denunciado. O Evangelho que eu recebi da tradição apostólica (I Co 15.1-6) prega a pecaminosidade humana e o amor inexcedível de Deus em Cristo (Rm 7.7-25; II Co 5.18,19).
Qualquer pregação que ostente direitos contra Deus é mentirosa, enganadora, estelionatária. Exemplo disso é o emprego da frase "Deus é Fiel" com o claro intento de dizer que Deus é obrigado a me abençoar se eu fizer "sacrifícios financeiros". Sim, Deus é fiel ainda que sejamos infiéis, Ele não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm 2.13). Mas Deus não é obrigado a fazer nada. O amor é dádiva, não dívida.
Ora, não temos direito nenhum diante de Deus. Nem mesmo o fato de Cristo ter morrido na Cruz por nós nos outorga nenhum direito. Trata-se de favor mesmo, oferecido a quem quiser ter a vida eterna.
Ostentar supostos direitos em face do SENHOR é pecado de arrogância. Quem somos nós? "Quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha a ser restituído"? (Rm 11.35).
Nem o justo Jó teve quaisquer direitos para exibir perante o Deus Criador de todas as coisas (Jó 38-41).
O anti-evangelho dos "direitos legais" que acionariam o poder de Deus precisa ser sempre denunciado. O Evangelho que eu recebi da tradição apostólica (I Co 15.1-6) prega a pecaminosidade humana e o amor inexcedível de Deus em Cristo (Rm 7.7-25; II Co 5.18,19).
Qualquer pregação que ostente direitos contra Deus é mentirosa, enganadora, estelionatária. Exemplo disso é o emprego da frase "Deus é Fiel" com o claro intento de dizer que Deus é obrigado a me abençoar se eu fizer "sacrifícios financeiros". Sim, Deus é fiel ainda que sejamos infiéis, Ele não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm 2.13). Mas Deus não é obrigado a fazer nada. O amor é dádiva, não dívida.
Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009
O castelo de Minas e as bruxas de lá
O Brasil é um país muito curioso mesmo: o deputado tem que chegar aos holofotes para que suas conhecidas irregularidades sejam caso de expulsão do partido e outras sanções. É o caso do deputado Edmar Moreira, do DEM de Minas Gerais, que precisou chegar à Vice-presidência da Câmara - e consequentemente à Corregedoria - para que se levasse ao conhecimento público o seu castelo medieval erguido em São João Nepomuceno, isso sem declaração ao Fisco, sem informação à Justiça Eleitoral, sem recolhimento de contribuições previdenciárias e com problemas trabalhistas. Até já se fala do tempo em que o deputado era tenente linha-dura na época do Regime Militar.
É triste que esse cidadão tenha chegado à Corregedoria com apoio do PT, justamente o partido que ele ajudou ao absolver, no Conselho de Ética, alguns mensaleiros. A gente tem que suspeitar dessas articulações que mais se aproximam de um sistema de compensações do tipo "u'a mão lava outra".
E, por incrível que pareça, o tal deputado tinha por bandeira a ilegitimidade de julgamento político dos seus pares, sendo que seu cargo seria exatamente para encaminhar processos contra deputados...
Não fossem as bruxas que acompanham o deputado, o castelo não seria, em tese, um escândalo. Mas é de se questionar se aquela suntuosidade não guarda outras surpresas, e se tamanha opulência se adequa a um cenário tão modesto quanto o de São João Nepomuceno.
O DEM falava em expulsão, mas o deputado se adiantou, pedindo desfiliação ao TSE. Sei lá como ficará esse deputado, vagando quem sabe como fantasma nos átrios da Casa do Povo. Bem, para quem era rei de um castelo, a condição de fantasma é uma queda e tanto.
É triste que esse cidadão tenha chegado à Corregedoria com apoio do PT, justamente o partido que ele ajudou ao absolver, no Conselho de Ética, alguns mensaleiros. A gente tem que suspeitar dessas articulações que mais se aproximam de um sistema de compensações do tipo "u'a mão lava outra".
E, por incrível que pareça, o tal deputado tinha por bandeira a ilegitimidade de julgamento político dos seus pares, sendo que seu cargo seria exatamente para encaminhar processos contra deputados...
Não fossem as bruxas que acompanham o deputado, o castelo não seria, em tese, um escândalo. Mas é de se questionar se aquela suntuosidade não guarda outras surpresas, e se tamanha opulência se adequa a um cenário tão modesto quanto o de São João Nepomuceno.
O DEM falava em expulsão, mas o deputado se adiantou, pedindo desfiliação ao TSE. Sei lá como ficará esse deputado, vagando quem sabe como fantasma nos átrios da Casa do Povo. Bem, para quem era rei de um castelo, a condição de fantasma é uma queda e tanto.
Domingo, 8 de Fevereiro de 2009
Peregrino e forasteiro...em minha terra
Sei que os salvos em Cristo são peregrinos e forasteiros neste mundo (I Pe 2.10 e Hb 11.13), mas o fato de trabalhar em Salvador está me mostrando essa realidade de maneira mais clara!
Além de me sentir meio turista em minha própria terra - quero dizer, na capital de minha terra - , tenho me sentido estrangeiro porque a cidade de Salvador vive em função de coisas que não me apetecem.
Explico: Salvador vive do carnaval e festas as mais diversas. São festas populares, comerciais e religiosas. De dezembro a fevereiro, há um calendário de eventos que toma a cidade e que vende uma imagem para o mundo inteiro, uma ideia de que o soteropolitano é festeiro, talvez voluptuoso - aqueles alemães que trocaram de roupa no saguão do aeroporto internacional daqui devem ter pensado assim...
Vendo toda aquela propaganda que se faz em torno das festas, percebi o quanto sou estranho nesse ambiente. E para mim ficou mais evidente o que significa ser peregrino e forasteiro.
Não se trata de ser melhor nem pior do que ninguém. Trata-se de uma simples constatação. O ar que paira em Salvador não é apenas o da brisa leve do mar. Há uma atmosfera diferente, creio que uma forte resistência à Palavra de Deus.
Quem sabe eu não esteja tão preparado para enfrentar resistências ao Evangelho. Talvez não seja um aprendiz tão atento. Mas sei que o Evangelho é um desafio constante, não se presta ao comodismo.
Como forasteiro, cabe a mim andar pela cidade e verificar o que Deus quer que eu faça neste planeta-carnaval. Cabe a mim, como peregrino, estar ciente das minhas limitações. A teoria é bonita, as declarações de fé são conhecidas, mas o embate é duro e impiedoso.
Sim, o embate é duro e impiedoso, mas Jesus é bom.
Além de me sentir meio turista em minha própria terra - quero dizer, na capital de minha terra - , tenho me sentido estrangeiro porque a cidade de Salvador vive em função de coisas que não me apetecem.
Explico: Salvador vive do carnaval e festas as mais diversas. São festas populares, comerciais e religiosas. De dezembro a fevereiro, há um calendário de eventos que toma a cidade e que vende uma imagem para o mundo inteiro, uma ideia de que o soteropolitano é festeiro, talvez voluptuoso - aqueles alemães que trocaram de roupa no saguão do aeroporto internacional daqui devem ter pensado assim...
Vendo toda aquela propaganda que se faz em torno das festas, percebi o quanto sou estranho nesse ambiente. E para mim ficou mais evidente o que significa ser peregrino e forasteiro.
Não se trata de ser melhor nem pior do que ninguém. Trata-se de uma simples constatação. O ar que paira em Salvador não é apenas o da brisa leve do mar. Há uma atmosfera diferente, creio que uma forte resistência à Palavra de Deus.
Quem sabe eu não esteja tão preparado para enfrentar resistências ao Evangelho. Talvez não seja um aprendiz tão atento. Mas sei que o Evangelho é um desafio constante, não se presta ao comodismo.
Como forasteiro, cabe a mim andar pela cidade e verificar o que Deus quer que eu faça neste planeta-carnaval. Cabe a mim, como peregrino, estar ciente das minhas limitações. A teoria é bonita, as declarações de fé são conhecidas, mas o embate é duro e impiedoso.
Sim, o embate é duro e impiedoso, mas Jesus é bom.
Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009
Visitem o blog de minha esposa
Minha esposa, Miriam, criou um blog (www.miriam-sousa.blogspot.com). Chama-se "Diário de uma dona de casa". E é sobre família que ela tem escrito mesmo, sobre nossos filhos.
Miriam escreve muito bem, tem raciocínio lógico, clareza e conteúdo. Gosto de suas reflexões, e tenho a honra de conversar sobre tudo com ela. Sei mais ou menos como ela pensa, compartilho de seus valores e princípios. Desde o namoro nós fomos nos afinando.
Então, gostaria de convidar o (a) eventual leitor (a) a acompanhar o blog de minha esposa. Ela tem algo a dizer.
Miriam escreve muito bem, tem raciocínio lógico, clareza e conteúdo. Gosto de suas reflexões, e tenho a honra de conversar sobre tudo com ela. Sei mais ou menos como ela pensa, compartilho de seus valores e princípios. Desde o namoro nós fomos nos afinando.
Então, gostaria de convidar o (a) eventual leitor (a) a acompanhar o blog de minha esposa. Ela tem algo a dizer.
Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009
Inácio nasceu
Inácio nasceu:
Que alegria eu sinto!
De parto normal,
Às cinco e trinta e cinco.
Inácio nasceu
No dia primeiro
Do mês de fevereiro
Deste ano que o SENHOR nos deu.
Inácio nasceu
Com os olhos "puxados",
O cabelo preto da mãe
E o nariz um pouco do pai...
Inácio nasceu
E já queria sair logo da toca.
"Se demorasse um pouco", disse a doutora,
"Eis que nasceria em casa".
Inácio nasceu
Querido por todos,
E já tem sua companheirinha
De todas as bagunças possíveis.
Assina Papai Alex.
Que alegria eu sinto!
De parto normal,
Às cinco e trinta e cinco.
Inácio nasceu
No dia primeiro
Do mês de fevereiro
Deste ano que o SENHOR nos deu.
Inácio nasceu
Com os olhos "puxados",
O cabelo preto da mãe
E o nariz um pouco do pai...
Inácio nasceu
E já queria sair logo da toca.
"Se demorasse um pouco", disse a doutora,
"Eis que nasceria em casa".
Inácio nasceu
Querido por todos,
E já tem sua companheirinha
De todas as bagunças possíveis.
Assina Papai Alex.
Sábado, 31 de Janeiro de 2009
O desabamento do teto da Renascer em Cristo e a reflexão que ele exige*
O desabamento do teto da sede mundial da Igreja Renascer em Cristo, em São Paulo/SP, traz o casal Hernandes de volta ao noticiário nacional. Com nove mortos e centenas de feridos, a igreja assiste agora às investigações policiais e ao trabalho do Ministério Público Estadual, tendo ainda que apresentar documentos e explicações sobre sua eventual responsabilidade nessa tragédia.
Não creio ser correta qualquer tentativa de ligar o caso às ocorrências policiais do casal Hernandes (como o episódio que os levou à prisão e condenação nos Estados Unidos por quererem entrar naquele País com dólares não declarados). Também não sei se podemos fazer ilações legítimas quanto às acusações de estelionato, falsidade, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro que correm contra eles no Brasil. Embora essas condutas criminosas e/ou suspeitas de crime possam sugerir pecados do “apóstolo” e da “bispa”, as notícias relacionadas ao drama do dia 18 de janeiro devem ser aquelas que possam indicar algum desprezo às leis municipais de segurança de imóveis, porque é isso que interessa objetivamente. Hipóteses mais especulativas poderão redundar em julgamento indevido e desrespeito ao sentimento dos enlutados.
Entretanto, é altamente reprovável, se for mesmo verdade, a afirmação de Estevam Hernandes no sentido de que a culpa é de Satanás (conforme matéria da Época). Com efeito, segundo a revista, o “apóstolo” disse em culto transmitido da prisão domiciliar nos Estados Unidos que a Igreja Renascer deve pisar com os pés sangrando na cabeça do gigante Satanás. Ora, nem na hora da dor mais cruel esse homem deixa de lado sua teologia triunfalista, notadamente quando ela se mostra flagrantemente irreal? É diante de posturas como essa que as críticas à teologia e à ética da Renascer são apropriadas, confrontando-a com o teto que desabou.
Devo, com toda a seriedade que o tema requer, asseverar que, antes de culpar o diabo, é necessário fazer um auto-exame e pelo menos ficar calado diante de cenário tão triste. Adão pôs a culpa na mulher, que pôs a culpa na serpente, mas quem deu ouvidos à mulher foi Adão, e disso ele não poderia se furtar (Gn 3.6,12,13). Aliás, lembre-se de que ele também quis responsabilizar ao próprio Deus, quando afirmou “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi”(Gn 3.12). Afinal, até onde vamos nós com as nossas racionalizações?
Não podemos espiritualizar onde os problemas podem ser explicados de maneira comum: alguma coisa estava errada com aquela estrutura que desabou, e isso ainda está sendo apurado. Caso as autoridades venham a concluir que tudo estava bem e mesmo assim o teto caiu, aí sim poderemos começar a buscar explicações diferentes.
Até aqui, não é o caso de culpar o diabo nem recorrer ao sobrenatural. O mínimo que se deve fazer é esperar com humildade o desenrolar dos fatos, e colaborar com a Justiça. Por outro lado, eu poderia escrever sobre a sensação estranha de ver o teto de um templo cair, quando a gente sempre se considera de algum modo refugiado e seguro na igreja. Não obstante, para não fugir ao assunto, limito-me ao que escrevi acima.
*Publicado também na Palavra do Leitor do "site" www.ultimato.com.br, no dia 27/01/09.
Não creio ser correta qualquer tentativa de ligar o caso às ocorrências policiais do casal Hernandes (como o episódio que os levou à prisão e condenação nos Estados Unidos por quererem entrar naquele País com dólares não declarados). Também não sei se podemos fazer ilações legítimas quanto às acusações de estelionato, falsidade, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro que correm contra eles no Brasil. Embora essas condutas criminosas e/ou suspeitas de crime possam sugerir pecados do “apóstolo” e da “bispa”, as notícias relacionadas ao drama do dia 18 de janeiro devem ser aquelas que possam indicar algum desprezo às leis municipais de segurança de imóveis, porque é isso que interessa objetivamente. Hipóteses mais especulativas poderão redundar em julgamento indevido e desrespeito ao sentimento dos enlutados.
Entretanto, é altamente reprovável, se for mesmo verdade, a afirmação de Estevam Hernandes no sentido de que a culpa é de Satanás (conforme matéria da Época). Com efeito, segundo a revista, o “apóstolo” disse em culto transmitido da prisão domiciliar nos Estados Unidos que a Igreja Renascer deve pisar com os pés sangrando na cabeça do gigante Satanás. Ora, nem na hora da dor mais cruel esse homem deixa de lado sua teologia triunfalista, notadamente quando ela se mostra flagrantemente irreal? É diante de posturas como essa que as críticas à teologia e à ética da Renascer são apropriadas, confrontando-a com o teto que desabou.
Devo, com toda a seriedade que o tema requer, asseverar que, antes de culpar o diabo, é necessário fazer um auto-exame e pelo menos ficar calado diante de cenário tão triste. Adão pôs a culpa na mulher, que pôs a culpa na serpente, mas quem deu ouvidos à mulher foi Adão, e disso ele não poderia se furtar (Gn 3.6,12,13). Aliás, lembre-se de que ele também quis responsabilizar ao próprio Deus, quando afirmou “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi”(Gn 3.12). Afinal, até onde vamos nós com as nossas racionalizações?
Não podemos espiritualizar onde os problemas podem ser explicados de maneira comum: alguma coisa estava errada com aquela estrutura que desabou, e isso ainda está sendo apurado. Caso as autoridades venham a concluir que tudo estava bem e mesmo assim o teto caiu, aí sim poderemos começar a buscar explicações diferentes.
Até aqui, não é o caso de culpar o diabo nem recorrer ao sobrenatural. O mínimo que se deve fazer é esperar com humildade o desenrolar dos fatos, e colaborar com a Justiça. Por outro lado, eu poderia escrever sobre a sensação estranha de ver o teto de um templo cair, quando a gente sempre se considera de algum modo refugiado e seguro na igreja. Não obstante, para não fugir ao assunto, limito-me ao que escrevi acima.
*Publicado também na Palavra do Leitor do "site" www.ultimato.com.br, no dia 27/01/09.
Sábado, 24 de Janeiro de 2009
Os evangelizadores que pedem fogo do céu e a evangelização em Salvador-BA
Pensemos sobre evangelização e alguns lampejos de missão urbana a partir de Lc 9.51-56.
Em certa ocasião, ao depararem com samaritanos que não quiseram lhes dar pousada, os irmãos Tiago e João pediram permissão a Jesus para fazerem cair fogo do céu, a fim de que as pessoas fossem consumidas. A negativa dos samaritanos partiu da impressão de que os apóstolos seguiam para Jerusalém, o que indica um preconceito cultural-religioso por parte dos aldeões.
Por causa desse temperamento explosivo, os filhos de Zebedeu foram chamados de Boanerges, que significa “filhos do Trovão” (Mc 3.17). Digno de nota é que eles conseguiram achar um precedente “histórico-teológico” no episódio em que Elias pediu fogo do céu!
Vale observar que, embora não tivessem pregado aos samaritanos, Tiago e João estavam com Jesus havia cerca de três anos e apesar disso não conseguiram entender que mensagem Ele viera anunciar. Sendo assim, acharam que sua proclamação do Reino de Deus nada tinha que ver com os samaritanos.
Mais do que isso, os filhos de Zebedeu se colocaram como vítimas, exatamente porque, aos olhos dos samaritanos, quem ia para Jerusalém não merecia sequer uma pousada. Aqui está um claro exemplo de hostilidade religiosa, que sufoca qualquer comunicação antes que ela comece.
Em vez de misericórdia, os dois apóstolos clamaram por destruição. Mesmo tendo recebido a palavra do Reino de Deus, quiseram detonar as vidas dos samaritanos. Mas Jesus, pleno de compaixão, não levou em conta essa ignorância, e aproveitou o momento para ensinar um pouco mais sobre Sua missão salvadora.
De fato, contrariando a intenção homicida dos incautos discípulos, Jesus disse que o Filho do Homem não veio destruir as almas dos homens, mas salvá-las.
Tempos depois, João se tornaria um amável pastor de almas, e que, pelos seus escritos, se tornaria conhecido, vejam só, como o “apóstolo do amor”. Nada parecido com aquele rapaz que pedia fogo do céu sobre os incrédulos!
Semelhantemente, Tiago mudou, a ponto de entregar sua vida à espada de Herodes, por amor do Evangelho.
Essa passagem deve nos ensinar que o Evangelho não pode ser vivenciado como uma denúncia sem compaixão. O querigma do Reino de Deus é amoroso, cheio de graça e misericórdia, para salvação dos pecadores. Embora devamos denunciar veementemente o pecado, não podemos nos voltar contra o pecador, porque Jesus não nos ensinou a agir dessa forma.
Pedimos fogo do céu sobre os samaritanos todas as vezes em que brigamos com as pessoas porque elas não nos aceitam. Nesse sentido nos posicionamos como “filhos do Trovão”, em lugar de nos apresentamos como “filhos da luz” ou “filhos de consolação”.
Sei que não é fácil ser cristão hoje, pois as resistências são muitas e graves. Eu mesmo estou sempre em contato com pessoas que rejeitam a pregação do Evangelho, ou simplesmente discordam da defesa de valores morais absolutos, tachando-nos, indiretamente, de hipócritas, julgadores e autoritários. Mas não me importo, desde que assuma uma postura de amor por essas pessoas.
Que farei? Agora trabalhando em Salvador, vejo que é muito mais complicado pregar o Evangelho aqui do que eu poderia imaginar. A capital do meu Estado respira os ares de festas comerciais-culturais-religiosas-políticas o ano inteiro. O calendário religioso é extenso, e as festas populares misturam crenças afro-brasileiras com costumes centenários. Dinheiro e poder político mesclam-se à multifacetada e colorida cultura baiana. Monumentos protegidos pelos Poderes Públicos são demonstrações históricas da religiosidade ou da antiga instituição oficial do Catolicismo, bem como benefícios governamentais apoiam o candomblé e segmentos similares.
Em meio a essa tessitura social, fala-se muito de tolerância racial e religiosa, num claro recado, a meu ver, de que o discurso evangélico de alguns grupos precisa encontrar um limite. À tolerância nada podemos opor, pois é bíblica e constitucional – mas continuaremos a pregar o Evangelho, com toda a tolerância do mundo e sem pedir fogo do céu, nem para samaritanos nem para soteropolitanos.
Acredito que Deus pode transformar vidas, e é o que Ele tem feito em muitas regiões do País. Não sei exatamente como tem sido o desenvolvimento das igrejas em terras baianas, e especialmente em Salvador, mas vejo que a presença evangélica parece maior do que há alguns anos. No entanto, mais do que em outras capitais, Salvador oferece grandes dificuldades ao cristão, porque a atmosfera da cidade é tomada de carnaval, erotismo, exploração econômica e culto a demônios – um caldeirão e tanto.
Um item a ser analisado em Salvador é a extrema desigualdade social. Vejo condomínios e mansões de alto luxo ao lado de favelas e inúmeros pedintes nas ruas. Parece que aqui não há classe média, só ricos e pobres. Isso porventura é coisa de que alguém possa se orgulhar? Certamente as políticas tradicionais não conduziram o Estado ao desenvolvimento, o que fez com que baianos migrassem para a capital, superlotando-a e esvaziando o grande interior.
Diante de tudo isso, repito que não vou pedir fogo do céu. Quem sou eu para querer que pecadores como eu sejam destruídos, se eu mesmo fui inexplicavelmente alcançado pelo amor de Deus em Cristo? Entendo, pois, que em Salvador é hora de pedir, não o fogo do céu para destruir, mas o fogo do céu para encher a Igreja de poder do Espírito Santo – só assim dá para evangelizar com eficácia, principalmente num lugar melindroso como este.
Em certa ocasião, ao depararem com samaritanos que não quiseram lhes dar pousada, os irmãos Tiago e João pediram permissão a Jesus para fazerem cair fogo do céu, a fim de que as pessoas fossem consumidas. A negativa dos samaritanos partiu da impressão de que os apóstolos seguiam para Jerusalém, o que indica um preconceito cultural-religioso por parte dos aldeões.
Por causa desse temperamento explosivo, os filhos de Zebedeu foram chamados de Boanerges, que significa “filhos do Trovão” (Mc 3.17). Digno de nota é que eles conseguiram achar um precedente “histórico-teológico” no episódio em que Elias pediu fogo do céu!
Vale observar que, embora não tivessem pregado aos samaritanos, Tiago e João estavam com Jesus havia cerca de três anos e apesar disso não conseguiram entender que mensagem Ele viera anunciar. Sendo assim, acharam que sua proclamação do Reino de Deus nada tinha que ver com os samaritanos.
Mais do que isso, os filhos de Zebedeu se colocaram como vítimas, exatamente porque, aos olhos dos samaritanos, quem ia para Jerusalém não merecia sequer uma pousada. Aqui está um claro exemplo de hostilidade religiosa, que sufoca qualquer comunicação antes que ela comece.
Em vez de misericórdia, os dois apóstolos clamaram por destruição. Mesmo tendo recebido a palavra do Reino de Deus, quiseram detonar as vidas dos samaritanos. Mas Jesus, pleno de compaixão, não levou em conta essa ignorância, e aproveitou o momento para ensinar um pouco mais sobre Sua missão salvadora.
De fato, contrariando a intenção homicida dos incautos discípulos, Jesus disse que o Filho do Homem não veio destruir as almas dos homens, mas salvá-las.
Tempos depois, João se tornaria um amável pastor de almas, e que, pelos seus escritos, se tornaria conhecido, vejam só, como o “apóstolo do amor”. Nada parecido com aquele rapaz que pedia fogo do céu sobre os incrédulos!
Semelhantemente, Tiago mudou, a ponto de entregar sua vida à espada de Herodes, por amor do Evangelho.
Essa passagem deve nos ensinar que o Evangelho não pode ser vivenciado como uma denúncia sem compaixão. O querigma do Reino de Deus é amoroso, cheio de graça e misericórdia, para salvação dos pecadores. Embora devamos denunciar veementemente o pecado, não podemos nos voltar contra o pecador, porque Jesus não nos ensinou a agir dessa forma.
Pedimos fogo do céu sobre os samaritanos todas as vezes em que brigamos com as pessoas porque elas não nos aceitam. Nesse sentido nos posicionamos como “filhos do Trovão”, em lugar de nos apresentamos como “filhos da luz” ou “filhos de consolação”.
Sei que não é fácil ser cristão hoje, pois as resistências são muitas e graves. Eu mesmo estou sempre em contato com pessoas que rejeitam a pregação do Evangelho, ou simplesmente discordam da defesa de valores morais absolutos, tachando-nos, indiretamente, de hipócritas, julgadores e autoritários. Mas não me importo, desde que assuma uma postura de amor por essas pessoas.
Que farei? Agora trabalhando em Salvador, vejo que é muito mais complicado pregar o Evangelho aqui do que eu poderia imaginar. A capital do meu Estado respira os ares de festas comerciais-culturais-religiosas-políticas o ano inteiro. O calendário religioso é extenso, e as festas populares misturam crenças afro-brasileiras com costumes centenários. Dinheiro e poder político mesclam-se à multifacetada e colorida cultura baiana. Monumentos protegidos pelos Poderes Públicos são demonstrações históricas da religiosidade ou da antiga instituição oficial do Catolicismo, bem como benefícios governamentais apoiam o candomblé e segmentos similares.
Em meio a essa tessitura social, fala-se muito de tolerância racial e religiosa, num claro recado, a meu ver, de que o discurso evangélico de alguns grupos precisa encontrar um limite. À tolerância nada podemos opor, pois é bíblica e constitucional – mas continuaremos a pregar o Evangelho, com toda a tolerância do mundo e sem pedir fogo do céu, nem para samaritanos nem para soteropolitanos.
Acredito que Deus pode transformar vidas, e é o que Ele tem feito em muitas regiões do País. Não sei exatamente como tem sido o desenvolvimento das igrejas em terras baianas, e especialmente em Salvador, mas vejo que a presença evangélica parece maior do que há alguns anos. No entanto, mais do que em outras capitais, Salvador oferece grandes dificuldades ao cristão, porque a atmosfera da cidade é tomada de carnaval, erotismo, exploração econômica e culto a demônios – um caldeirão e tanto.
Um item a ser analisado em Salvador é a extrema desigualdade social. Vejo condomínios e mansões de alto luxo ao lado de favelas e inúmeros pedintes nas ruas. Parece que aqui não há classe média, só ricos e pobres. Isso porventura é coisa de que alguém possa se orgulhar? Certamente as políticas tradicionais não conduziram o Estado ao desenvolvimento, o que fez com que baianos migrassem para a capital, superlotando-a e esvaziando o grande interior.
Diante de tudo isso, repito que não vou pedir fogo do céu. Quem sou eu para querer que pecadores como eu sejam destruídos, se eu mesmo fui inexplicavelmente alcançado pelo amor de Deus em Cristo? Entendo, pois, que em Salvador é hora de pedir, não o fogo do céu para destruir, mas o fogo do céu para encher a Igreja de poder do Espírito Santo – só assim dá para evangelizar com eficácia, principalmente num lugar melindroso como este.
A religião cristã não é um toque mágico em Jesus Cristo
Na cidade galiléia de Cafarnaum, enquanto seguia para a casa de Jairo a fim de curar sua filha, Jesus, comprimido pela multidão, foi tocado por uma mulher que sofria de hemorragia já há doze anos. Ela entendeu que seria curada se ao menos tocasse na orla de Suas vestes. É o que narram Mateus, Marcos e Lucas.
Tratava-se de uma pessoa atribulada, primeiro por ser mulher numa sociedade patriarcal, segundo por ser doente, e terceiro porque essa doença lhe dava a pecha de cerimonialmente imunda (Lv 15.25). Vencendo todas essas barreiras, a mulher se aproximou de Jesus e tocou em Sua roupa.
Ao perceber que fora tocado de modo especial, Jesus perguntou: “Quem me tocou”? Como Seus discípulos acharam estranha a pergunta, dada a multidão ao redor, Jesus disse que dele saíra poder.
Pensemos um pouco sobre esse ponto: de onde aquela mulher tirou a idéia de que tocar na roupa de Jesus poderia lhe dar a cura? Naquela época, pensava-se que tocar na roupa ou passar pela sombra de uma pessoa poderosa faria com que dela saísse poder. Foi assim que multidões levavam seus enfermos a Jesus a fim de que fossem curados ao menos pelo toque na orla de suas vestes. Vê-se, então, que a iniciativa não partiu de uma criação mental daquela senhora, mas de um pensamento comum na superstição popular.
Jesus costumava tocar nas pessoas, mas isso não significa que reconhecesse a validade da superstição. O toque de Jesus frequentemente comunicava compaixão, solidariedade, amor, afeição, além de empregar também o simbolismo da imposição de mãos, que decorre dos tempos do Antigo Testamento, significando agora, em síntese, uma transmissão de poder, seja para a plenitude do Espírito, seja para bênção em geral, seja, ainda, para consagração de oficiais da Igreja. Mas não existe poder nas mãos daquele que as impõe: o poder pertence a Deus, e somente a Ele. Como Deus, Jesus tem poder em Si mesmo, e como Homem, recebeu poder quando de Seu batismo, ao ser ungido pelo Espírito Santo na forma de pomba.
É certo que Jesus curou um leproso com um toque, e chegou a colocar lodo nos olhos de um cego para que passasse a enxergar. Mas quanto à cura no contexto da Igreja, a promessa de Jesus foi “Imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão”. Essa é a forma simples e clara de curar enfermos em nome de Jesus. Não há técnicas especiais nem fórmulas verbais que devam ser empregadas, mas um gesto simbólico de transmissão de poder.
Entretanto, a religiosidade do populacho perpassou o período de Jesus com essa noção um tanto fetichista. Em At 5.15, vemos que em Jerusalém muitas pessoas buscavam passar pela sombra de Pedro para serem curadas. Semelhantemente, muitas outras, em Éfeso, afluíam a Paulo, para que ao menos pudessem tocar em seus lenços de uso pessoal e nos aventais que ele usava para fazer tendas (At 19.11,12). No entanto, em sua narrativa, Lucas em nenhum momento afirma que essa fosse uma regra a ser seguida pela Igreja. Além disso, não se pode doutrinar exclusivamente com base em narrativas, o que é demasiado perigoso e pode fomentar heresias.
Devemos fugir de tudo o que possa parecer com o fetichismo, que consiste no emprego de objetos com efeitos espirituais. Em setores chamados “neopentecostais” – que prefiro chamar de “pseudopentecostais” – ocorre o uso de galhos de arruda, sal grosso, rosas, e tantos outros objetos com significação esdrúxula, inventada por figuras cada vez mais criativas e de imaginação incrivelmente fértil para toda sorte de “campanhas”. Tudo isso fazem os pajés, das tribos indígenas, e os pais-de-santo, das religiões afro-brasileiras. Tudo isso se parece muito com feitiçaria e artes mágicas, e não encontra fundamento na Palavra de Deus.
A espiritualidade cristã não pode ser confundida com um simples toque no sobrenatural. A espiritualidade cristã define-se com um relacionamento pessoal com Deus em Cristo Jesus, pela habitação do Espírito Santo na vida dos regenerados. Em vez de apenas curar, Jesus quis saber quem Lhe tocou, o que denota o sentido de comunhão.
Embora a mulher que tocou em Jesus estivesse com uma expectativa limitada e um conhecimento equivocado, Jesus não a desprezou. Pelo contrário, a recebeu em Sua comunhão, dando-lhe a paz e a saúde física. Como vimos, multidões buscavam a Jesus com esse mesmo propósito de cura por meio do toque, mas Jesus, como resta claro nessa passagem, sempre deseja o relacionamento espiritual, que é mais profundo do que um simples toque.
Ademais, outro episódio lança luz ao tema: justamente aquele em que um centurião afirma que somente uma palavra de Jesus já seria suficiente para curar seu criado, mesmo à distância. E qual foi a reação do Mestre? Disse que nem mesmo em Israel encontrou tamanha fé. Qual o diferencial da fé do centurião romano? Ele tinha uma fé que ia além das distâncias, que não dependia de objetos nem sombras.
Em outra linha de idéias, como devemos interpretar a frase de Jesus quanto a ter saído poder de Si? Ora, não nos é dada nenhuma informação sobre a qual possamos especular. Sabemos simplesmente que algum processo sobrenatural ocorreu ali. Em seguida, ao obter o esclarecimento da mulher, que estava trêmula e com medo, Jesus disse “A tua fé te curou” ou “salvou”. Isso não quer dizer que sua fé foi vista por Jesus como um ente autônomo, independente do próprio Jesus. Significa, isto sim, que a fé foi o instrumento da cura, e não a sua causa. Quem cura e salva é sempre Jesus Cristo. Vemos isso claramente em Ef 2.4-10.
No meio pentecostal e pseudopentecostal, causam sensação as pregações e discursos em torno do sobrenatural como solucionador de problemas os mais diversos. Essa é uma tentação antiga, voltada à satisfação de curiosidades quanto ao misterioso e extraordinário. Mas, será que a nossa espiritualidade se resume a isso? Será que nossa religião é assim parecida com tantas religiões fetichistas que há no mundo? Seremos nós também animistas? Que tipo de espiritualidade temos proposto ao mundo? É bom pensarmos nisso para não corrermos o risco de chamarmos de Cristianismo uma religião experiencial fundamentada em bases pagãs.
Querer de Jesus apenas um toque é uma coisa quase mágica – para fazer referência a Helmut Thielicke. Mais uma vez, cumpre lembrar que não se trata de menosprezar a fé daquela senhora, mas é necessário avançarmos em nossa concepção a respeito de Cristo. De uma perspectiva aproximada da magia, podemos e devemos partir para uma perspectiva cristã, que não pode ser menos que relacional.
Tratava-se de uma pessoa atribulada, primeiro por ser mulher numa sociedade patriarcal, segundo por ser doente, e terceiro porque essa doença lhe dava a pecha de cerimonialmente imunda (Lv 15.25). Vencendo todas essas barreiras, a mulher se aproximou de Jesus e tocou em Sua roupa.
Ao perceber que fora tocado de modo especial, Jesus perguntou: “Quem me tocou”? Como Seus discípulos acharam estranha a pergunta, dada a multidão ao redor, Jesus disse que dele saíra poder.
Pensemos um pouco sobre esse ponto: de onde aquela mulher tirou a idéia de que tocar na roupa de Jesus poderia lhe dar a cura? Naquela época, pensava-se que tocar na roupa ou passar pela sombra de uma pessoa poderosa faria com que dela saísse poder. Foi assim que multidões levavam seus enfermos a Jesus a fim de que fossem curados ao menos pelo toque na orla de suas vestes. Vê-se, então, que a iniciativa não partiu de uma criação mental daquela senhora, mas de um pensamento comum na superstição popular.
Jesus costumava tocar nas pessoas, mas isso não significa que reconhecesse a validade da superstição. O toque de Jesus frequentemente comunicava compaixão, solidariedade, amor, afeição, além de empregar também o simbolismo da imposição de mãos, que decorre dos tempos do Antigo Testamento, significando agora, em síntese, uma transmissão de poder, seja para a plenitude do Espírito, seja para bênção em geral, seja, ainda, para consagração de oficiais da Igreja. Mas não existe poder nas mãos daquele que as impõe: o poder pertence a Deus, e somente a Ele. Como Deus, Jesus tem poder em Si mesmo, e como Homem, recebeu poder quando de Seu batismo, ao ser ungido pelo Espírito Santo na forma de pomba.
É certo que Jesus curou um leproso com um toque, e chegou a colocar lodo nos olhos de um cego para que passasse a enxergar. Mas quanto à cura no contexto da Igreja, a promessa de Jesus foi “Imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão”. Essa é a forma simples e clara de curar enfermos em nome de Jesus. Não há técnicas especiais nem fórmulas verbais que devam ser empregadas, mas um gesto simbólico de transmissão de poder.
Entretanto, a religiosidade do populacho perpassou o período de Jesus com essa noção um tanto fetichista. Em At 5.15, vemos que em Jerusalém muitas pessoas buscavam passar pela sombra de Pedro para serem curadas. Semelhantemente, muitas outras, em Éfeso, afluíam a Paulo, para que ao menos pudessem tocar em seus lenços de uso pessoal e nos aventais que ele usava para fazer tendas (At 19.11,12). No entanto, em sua narrativa, Lucas em nenhum momento afirma que essa fosse uma regra a ser seguida pela Igreja. Além disso, não se pode doutrinar exclusivamente com base em narrativas, o que é demasiado perigoso e pode fomentar heresias.
Devemos fugir de tudo o que possa parecer com o fetichismo, que consiste no emprego de objetos com efeitos espirituais. Em setores chamados “neopentecostais” – que prefiro chamar de “pseudopentecostais” – ocorre o uso de galhos de arruda, sal grosso, rosas, e tantos outros objetos com significação esdrúxula, inventada por figuras cada vez mais criativas e de imaginação incrivelmente fértil para toda sorte de “campanhas”. Tudo isso fazem os pajés, das tribos indígenas, e os pais-de-santo, das religiões afro-brasileiras. Tudo isso se parece muito com feitiçaria e artes mágicas, e não encontra fundamento na Palavra de Deus.
A espiritualidade cristã não pode ser confundida com um simples toque no sobrenatural. A espiritualidade cristã define-se com um relacionamento pessoal com Deus em Cristo Jesus, pela habitação do Espírito Santo na vida dos regenerados. Em vez de apenas curar, Jesus quis saber quem Lhe tocou, o que denota o sentido de comunhão.
Embora a mulher que tocou em Jesus estivesse com uma expectativa limitada e um conhecimento equivocado, Jesus não a desprezou. Pelo contrário, a recebeu em Sua comunhão, dando-lhe a paz e a saúde física. Como vimos, multidões buscavam a Jesus com esse mesmo propósito de cura por meio do toque, mas Jesus, como resta claro nessa passagem, sempre deseja o relacionamento espiritual, que é mais profundo do que um simples toque.
Ademais, outro episódio lança luz ao tema: justamente aquele em que um centurião afirma que somente uma palavra de Jesus já seria suficiente para curar seu criado, mesmo à distância. E qual foi a reação do Mestre? Disse que nem mesmo em Israel encontrou tamanha fé. Qual o diferencial da fé do centurião romano? Ele tinha uma fé que ia além das distâncias, que não dependia de objetos nem sombras.
Em outra linha de idéias, como devemos interpretar a frase de Jesus quanto a ter saído poder de Si? Ora, não nos é dada nenhuma informação sobre a qual possamos especular. Sabemos simplesmente que algum processo sobrenatural ocorreu ali. Em seguida, ao obter o esclarecimento da mulher, que estava trêmula e com medo, Jesus disse “A tua fé te curou” ou “salvou”. Isso não quer dizer que sua fé foi vista por Jesus como um ente autônomo, independente do próprio Jesus. Significa, isto sim, que a fé foi o instrumento da cura, e não a sua causa. Quem cura e salva é sempre Jesus Cristo. Vemos isso claramente em Ef 2.4-10.
No meio pentecostal e pseudopentecostal, causam sensação as pregações e discursos em torno do sobrenatural como solucionador de problemas os mais diversos. Essa é uma tentação antiga, voltada à satisfação de curiosidades quanto ao misterioso e extraordinário. Mas, será que a nossa espiritualidade se resume a isso? Será que nossa religião é assim parecida com tantas religiões fetichistas que há no mundo? Seremos nós também animistas? Que tipo de espiritualidade temos proposto ao mundo? É bom pensarmos nisso para não corrermos o risco de chamarmos de Cristianismo uma religião experiencial fundamentada em bases pagãs.
Querer de Jesus apenas um toque é uma coisa quase mágica – para fazer referência a Helmut Thielicke. Mais uma vez, cumpre lembrar que não se trata de menosprezar a fé daquela senhora, mas é necessário avançarmos em nossa concepção a respeito de Cristo. De uma perspectiva aproximada da magia, podemos e devemos partir para uma perspectiva cristã, que não pode ser menos que relacional.
A oferta da Salvação e o julgamento moralista
Tento discernir em minha pregação e pensamento as fronteiras do oferecimento da Salvação e do discurso moralista. Tenho receio de que, com o ímpeto de explicar a depravação humana, acabe me parecendo farisaico, com julgamentos distorcidos a respeito dos outros e de mim mesmo.
Estou ciente de que não há arrependimento sem consciência de pecado. Isso é fundamental. É necessário que o pecador se conscientize de sua reprovação diante das exigências divinas. Essa conscientização advém da evangelização, sem nenhuma dúvida. Por isso, a pregação precisa ser clara e alicerçada na Palavra de Deus.
Entretanto, considerando o contexto evangélico atual, principalmente na seara pentecostal – da qual faço parte –, fico pensando sobre como as pessoas têm ouvido nossa proclamação do amor de Deus, já que não temos demonstrado uma ética muito melhor que a do mundo, e não temos sido competentes em esclarecer qual a necessidade da Salvação, e o que levou Jesus Cristo a morrer por nós, explicitando qual o sentido disso.
Em se tratando de ética, temos nos limitado a condenar o aborto, o homossexualismo e a eutanásia, por exemplo; mas não denunciamos a corrupção política, o nepotismo, a sonegação fiscal, as corruptelas do cotidiano, a burla das regras de trânsito, as muitas formas de injustiça social. Até nos entregamos a alianças com políticos em troca de favores clientelistas, ao mesmo tempo em que muitas de nossas igrejas se vêem solapadas por uma política de promoções e mandonismo”.
Na senda teológica e querigmática somos muito fracos. Primeiro, porque nossa teologia se faz de cima para baixo, sem uma interface com os obreiros que têm contato com o povo mesmo – os quais muitas vezes são avessos à própria palavra “teologia”; segundo, porque nosso querigma (pregação) é uma repetição de palavras conhecidas e frases de efeito, apropriação de conceitos tradicionais e adição de valores pentecostais, mas sem um aprofundamento do que seja a mensagem da cruz.
Dizer que Jesus morreu pelos pecados da humanidade é correto, mas qual o significado disso para uma pessoa culta, que tem todo o conforto necessário para viver bem e informações suficientes para julgar teorias e fatos? Não adianta virmos com o argumento descontextualizado de que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos”, porque isso só iria transferir para o Diabo nossa ineficiência evangelística. Não podemos ficar culpando a serpente quando o assunto é a nossa inaptidão para pregar o Evangelho a diferentes classes sociais.
O que critico é nosso interesse em interromper a reflexão com argumentos supostamente bíblicos, mas que apenas retiram versículos de seu contexto. Paulo não está dizendo que devemos deixar de lado pessoas dessa ou daquela estirpe, mas que o diabo terá cegado o entendimento de muitas pessoas que ouvirem o Evangelho. Então, teremos feito a nossa parte, mas a incredulidade permanecerá no coração dos que assim desejarem, como ensinado por Jesus na Parábola do Semeador.
Ora, conheço pessoas que, além de não fazerem o mal a terceiros, promovem o bem – trabalham pela justiça, são incansáveis na defesa do que acham justo, dão exemplo de correção em seu procedimento diário, mas não frequentam uma igreja evangélica, não professam a Fé em Cristo nem usam a Bíblia como regra de fé e conduta. Dogmaticamente, sei que estão condenadas ao Inferno, e é completamente claro para mim que o juízo de Deus não erra. Todavia, como eu transmito essas noções a esse tipo de interlocutor, se é que o faço?
Todos os seres humanos são pecadores, o leitor evangélico dirá com acerto. Mas, o que é pecado, se nosso discurso tem sido no sentido de que pecar é matar, roubar, beber, fumar, freqüentar certos lugares e adulterar? Quando encontro pessoas que não praticam nada dessas coisas, como me comporto? Como me comporto frente aos “incrédulos” que parecem mais justos do que eu?
Não deveria eu ter mais assentadas em meu coração as verdades da carência espiritual de todo ser humano e a indispensabilidade de comunhão com o Pai? Em vez de falar ao sofredor, não deveria eu falar ao pecador? Quem anunciará as Boas Novas ao intelectual, ao funcionário público, ao estudante de ciências sociais, ao politicamente engajado, ao chefe de família consciente de seus deveres, ao trabalhador honesto, ao promotor de justiça?
Quando perdemos o cerne da mensagem da cruz, nossas pregações e conversas ficam moralistas, porque teremos que falar em pecado, mas não falaremos do quanto é bom pertencer a Cristo. Isso ocorre quando perdemos o senso de realidade do Evangelho.
Minha sugestão é que estudemos na Escritura o que Jesus fez por nós, e por que fez. Precisamos ir além das teorias e do testemunho de nossa experiência – precisamos transmitir aos outros, consistentemente, a mensagem de que sem Jesus não há propósito para a vida, porque sem Jesus não se acessa o Pai.
Estou ciente de que não há arrependimento sem consciência de pecado. Isso é fundamental. É necessário que o pecador se conscientize de sua reprovação diante das exigências divinas. Essa conscientização advém da evangelização, sem nenhuma dúvida. Por isso, a pregação precisa ser clara e alicerçada na Palavra de Deus.
Entretanto, considerando o contexto evangélico atual, principalmente na seara pentecostal – da qual faço parte –, fico pensando sobre como as pessoas têm ouvido nossa proclamação do amor de Deus, já que não temos demonstrado uma ética muito melhor que a do mundo, e não temos sido competentes em esclarecer qual a necessidade da Salvação, e o que levou Jesus Cristo a morrer por nós, explicitando qual o sentido disso.
Em se tratando de ética, temos nos limitado a condenar o aborto, o homossexualismo e a eutanásia, por exemplo; mas não denunciamos a corrupção política, o nepotismo, a sonegação fiscal, as corruptelas do cotidiano, a burla das regras de trânsito, as muitas formas de injustiça social. Até nos entregamos a alianças com políticos em troca de favores clientelistas, ao mesmo tempo em que muitas de nossas igrejas se vêem solapadas por uma política de promoções e mandonismo”.
Na senda teológica e querigmática somos muito fracos. Primeiro, porque nossa teologia se faz de cima para baixo, sem uma interface com os obreiros que têm contato com o povo mesmo – os quais muitas vezes são avessos à própria palavra “teologia”; segundo, porque nosso querigma (pregação) é uma repetição de palavras conhecidas e frases de efeito, apropriação de conceitos tradicionais e adição de valores pentecostais, mas sem um aprofundamento do que seja a mensagem da cruz.
Dizer que Jesus morreu pelos pecados da humanidade é correto, mas qual o significado disso para uma pessoa culta, que tem todo o conforto necessário para viver bem e informações suficientes para julgar teorias e fatos? Não adianta virmos com o argumento descontextualizado de que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos”, porque isso só iria transferir para o Diabo nossa ineficiência evangelística. Não podemos ficar culpando a serpente quando o assunto é a nossa inaptidão para pregar o Evangelho a diferentes classes sociais.
O que critico é nosso interesse em interromper a reflexão com argumentos supostamente bíblicos, mas que apenas retiram versículos de seu contexto. Paulo não está dizendo que devemos deixar de lado pessoas dessa ou daquela estirpe, mas que o diabo terá cegado o entendimento de muitas pessoas que ouvirem o Evangelho. Então, teremos feito a nossa parte, mas a incredulidade permanecerá no coração dos que assim desejarem, como ensinado por Jesus na Parábola do Semeador.
Ora, conheço pessoas que, além de não fazerem o mal a terceiros, promovem o bem – trabalham pela justiça, são incansáveis na defesa do que acham justo, dão exemplo de correção em seu procedimento diário, mas não frequentam uma igreja evangélica, não professam a Fé em Cristo nem usam a Bíblia como regra de fé e conduta. Dogmaticamente, sei que estão condenadas ao Inferno, e é completamente claro para mim que o juízo de Deus não erra. Todavia, como eu transmito essas noções a esse tipo de interlocutor, se é que o faço?
Todos os seres humanos são pecadores, o leitor evangélico dirá com acerto. Mas, o que é pecado, se nosso discurso tem sido no sentido de que pecar é matar, roubar, beber, fumar, freqüentar certos lugares e adulterar? Quando encontro pessoas que não praticam nada dessas coisas, como me comporto? Como me comporto frente aos “incrédulos” que parecem mais justos do que eu?
Não deveria eu ter mais assentadas em meu coração as verdades da carência espiritual de todo ser humano e a indispensabilidade de comunhão com o Pai? Em vez de falar ao sofredor, não deveria eu falar ao pecador? Quem anunciará as Boas Novas ao intelectual, ao funcionário público, ao estudante de ciências sociais, ao politicamente engajado, ao chefe de família consciente de seus deveres, ao trabalhador honesto, ao promotor de justiça?
Quando perdemos o cerne da mensagem da cruz, nossas pregações e conversas ficam moralistas, porque teremos que falar em pecado, mas não falaremos do quanto é bom pertencer a Cristo. Isso ocorre quando perdemos o senso de realidade do Evangelho.
Minha sugestão é que estudemos na Escritura o que Jesus fez por nós, e por que fez. Precisamos ir além das teorias e do testemunho de nossa experiência – precisamos transmitir aos outros, consistentemente, a mensagem de que sem Jesus não há propósito para a vida, porque sem Jesus não se acessa o Pai.
Não quero ser um burocrata de igreja nem um moralista sisudo
Preocupa-me a possibilidade de me tornar um burocrata de igreja, que zela pelo andamento das coisas religiosas sem atender à voz de Deus nem à voz dos crentes, e sem estar sensível à voz daqueles que não professam a fé cristã (aqui lembro do livro Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, de John Stott). Esse receio tem sobrevindo à minha mente agora que minha vida tomou rumo distinto em diferentes aspectos, mudando o foco de minhas cogitações teológicas.
Também não quero ser um moralista sisudo, desses que espreitam o comportamento alheio e apontam o erro com um dedo farisaico dirigido ao pecador, meu igual. Sinto tristeza sempre que me vejo agindo parecido com isso.
Tanto a ação na igreja como a moralidade cristã devem estar fundamentadas no amor. Devo ir ao templo e fazer julgamentos éticos a partir de uma concepção cristã construída na Palavra de Deus pela fé. Devo formular argumentos sólidos para tentar convencer meus interlocutores, mas sem a pretensão de ser melhor do que ninguém – sabendo, antes, que o respeito ao próximo é imperativo da ética de Cristo.
Numa conversa sobre costumes, sexualidade, valores morais, as pessoas não-evangélicas ou não-cristãs podem nos ver como fanáticas, obscurantistas, legalistas. Pode ser que nos vejam assim ainda que tenhamos um discurso amoroso e sincero, mas devemos evitar que suas impressões sejam verdadeiras. Que nos chamem de ignorantes e nos rotulem, mas não lhes demos razões para isso.
Em dias de pós-modernidade, o relativismo ensina que não existe o certo e o errado, o adequado e o inadequado, que tudo depende do ponto de vista, da subjetividade. Acabou-se a moral. Sob o pretexto de que não se pode julgar, de que não se pode atirar a primeira pedra, de que todo mundo é pecador, dizem que não podemos fazer juízos de valor, o que seria, naturalmente, o fim de toda discussão ética, e a cessação, em última análise, até mesmo de minha profissão ligada ao Direito.
As pessoas afirmam que não podemos impor a ética cristã à sociedade, e nisso estão certas. Mas não aceito a alegação de que não podemos propor ao mundo os postulados da ética cristã. Dito de outro modo, cabe a mim argumentar de maneira suficientemente clara e segura sobre os motivos que tornam a ética bíblica uma solução para os males sociais, e o critério de aperfeiçoamento humano. A questão é a seguinte: “Estou preparado para isso”? Creio que eu não estou, pois costumo ser contundente demais em diálogos com pessoas que negam peremptoriamente a autenticidade da Bíblia ou a validade das exigências éticas ali contidas.
Para estar preparado ao diálogo com o mundo, preciso não ser um burocrata cristão. Preciso ir além de uma rotina eclesiástica de ir ao culto e preencher um calendário de afazeres que tão-somente cumpre as tradições e anseios da religiosidade evangélica e de minha denominação. Devo renunciar ao ativismo de Marta e me apegar à humildade de Maria.
Não é fácil ser cristão de verdade. Fácil é ser burocrata e moralista. Fácil é comportar-se como o fariseu frente ao publicano, como os líderes de Israel frente a Jesus e Seus acompanhantes “maltrapilhos”, para usar uma expressão de Brennan Manning.
Definitivamente, só aceito ser cristão porque Jesus me aceitou primeiro. O sistema ético de Cristo é tão moral e intelectualmente elevado que nenhuma criatura poderia conceber seus valores de per si. Por outro lado, ser burocrata e moralista é tão fácil que acaba sendo comuníssima tentação, tangidos que estamos pela vontade de agradar a Deus, mas fustigados a todo instante pela sedução do legalismo e da hipocrisia.
Também não quero ser um moralista sisudo, desses que espreitam o comportamento alheio e apontam o erro com um dedo farisaico dirigido ao pecador, meu igual. Sinto tristeza sempre que me vejo agindo parecido com isso.
Tanto a ação na igreja como a moralidade cristã devem estar fundamentadas no amor. Devo ir ao templo e fazer julgamentos éticos a partir de uma concepção cristã construída na Palavra de Deus pela fé. Devo formular argumentos sólidos para tentar convencer meus interlocutores, mas sem a pretensão de ser melhor do que ninguém – sabendo, antes, que o respeito ao próximo é imperativo da ética de Cristo.
Numa conversa sobre costumes, sexualidade, valores morais, as pessoas não-evangélicas ou não-cristãs podem nos ver como fanáticas, obscurantistas, legalistas. Pode ser que nos vejam assim ainda que tenhamos um discurso amoroso e sincero, mas devemos evitar que suas impressões sejam verdadeiras. Que nos chamem de ignorantes e nos rotulem, mas não lhes demos razões para isso.
Em dias de pós-modernidade, o relativismo ensina que não existe o certo e o errado, o adequado e o inadequado, que tudo depende do ponto de vista, da subjetividade. Acabou-se a moral. Sob o pretexto de que não se pode julgar, de que não se pode atirar a primeira pedra, de que todo mundo é pecador, dizem que não podemos fazer juízos de valor, o que seria, naturalmente, o fim de toda discussão ética, e a cessação, em última análise, até mesmo de minha profissão ligada ao Direito.
As pessoas afirmam que não podemos impor a ética cristã à sociedade, e nisso estão certas. Mas não aceito a alegação de que não podemos propor ao mundo os postulados da ética cristã. Dito de outro modo, cabe a mim argumentar de maneira suficientemente clara e segura sobre os motivos que tornam a ética bíblica uma solução para os males sociais, e o critério de aperfeiçoamento humano. A questão é a seguinte: “Estou preparado para isso”? Creio que eu não estou, pois costumo ser contundente demais em diálogos com pessoas que negam peremptoriamente a autenticidade da Bíblia ou a validade das exigências éticas ali contidas.
Para estar preparado ao diálogo com o mundo, preciso não ser um burocrata cristão. Preciso ir além de uma rotina eclesiástica de ir ao culto e preencher um calendário de afazeres que tão-somente cumpre as tradições e anseios da religiosidade evangélica e de minha denominação. Devo renunciar ao ativismo de Marta e me apegar à humildade de Maria.
Não é fácil ser cristão de verdade. Fácil é ser burocrata e moralista. Fácil é comportar-se como o fariseu frente ao publicano, como os líderes de Israel frente a Jesus e Seus acompanhantes “maltrapilhos”, para usar uma expressão de Brennan Manning.
Definitivamente, só aceito ser cristão porque Jesus me aceitou primeiro. O sistema ético de Cristo é tão moral e intelectualmente elevado que nenhuma criatura poderia conceber seus valores de per si. Por outro lado, ser burocrata e moralista é tão fácil que acaba sendo comuníssima tentação, tangidos que estamos pela vontade de agradar a Deus, mas fustigados a todo instante pela sedução do legalismo e da hipocrisia.
Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008
Minha homenagem à memória do Professor Peter Klassen
Com tristeza recebi a notícia de que no dia 23 de dezembro faleceu repentinamente o meu querido professor de Teologia Pr. PETER KLASSEN. Soube disso na sexta, dia 26, pela manhã.
Conheci o Pr. Peter neste ano de 2008, em Campo Grande-MS, na Faculdade Theológica (FATHEL). Tive com ele apenas uma disciplina, Teologia Prática, mas desde então criamos uma boa amizade. O Pr. Peter era uma pessoa alegre, simples, inteligente, cujos olhos claros irradiavam simpatia, assim como seu sorriso farto em meio à barba branca indicavam um misto de experiência e disposição. Era também um homem trabalhador, que eu encontrava muitas vezes digitando num dos computadores da faculdade. Ele tinha projetos.
Por coincidência, numa conversa descobrimos que um dos tios de minha esposa, o Pr. Hitoshi Watanabe, fora colega de seminário do Pr. Peter em Londrina (no ISBEL). De algum modo, me senti honrado, ainda que tenha sido o tio de minha esposa, e não um tio meu. Afinal, eu queria mesmo houvesse qualquer vínculo com o Pr. Peter - mas nós tínhamos: éramos irmãos em Cristo, comprados pelo sangue precioso do nosso Salvador.
Eu conversava com o Pr. Peter sobre algumas coisas de minha vida, principalmente acerca de algumas querelas, digamos, teológicas...E ele me deu conselhos, como "Escreva um artigo para a editora de sua denominação. Por que não"?
Dei um material para o Pr. Peter ler e dar sugestões. Ele disse que eu poderia ser útil escrevendo, que eu tinha vocação para isso, que eu poderia empregar a escrita e atingir um número maior de pessoas...
Em nossa derradeira conversa, na biblioteca da FATHEL, numa tarde em que, se não me engano, fui pegar o histórico escolar - porque estava de mudança para a Bahia - falei de um projeto que eu estava concebendo, e ele me disse, entre duas estantes de livros: "Quando estiver pronto, quero ser o primeiro a ler". Creio que foram as últimas palavras que ouvi dele.
Ora, tenho absoluta convicção de que a despedida do Pr. Peter foi preparada por Deus. Depois de entregar seu trabalho à faculdade, o SENHOR o levou para as paragens celestiais. É assim que vejo.
Se eu puder ser o mais sincero e leal à memória do meu querido Professor, direi o seguinte: queira Deus eu possa conter em meu coração um pouco do ideal que movia o prezado e inesquecível Professor Pastor PETER KLASSEN.
Que Deus conforte a todos nós, os que ficamos.
Conheci o Pr. Peter neste ano de 2008, em Campo Grande-MS, na Faculdade Theológica (FATHEL). Tive com ele apenas uma disciplina, Teologia Prática, mas desde então criamos uma boa amizade. O Pr. Peter era uma pessoa alegre, simples, inteligente, cujos olhos claros irradiavam simpatia, assim como seu sorriso farto em meio à barba branca indicavam um misto de experiência e disposição. Era também um homem trabalhador, que eu encontrava muitas vezes digitando num dos computadores da faculdade. Ele tinha projetos.
Por coincidência, numa conversa descobrimos que um dos tios de minha esposa, o Pr. Hitoshi Watanabe, fora colega de seminário do Pr. Peter em Londrina (no ISBEL). De algum modo, me senti honrado, ainda que tenha sido o tio de minha esposa, e não um tio meu. Afinal, eu queria mesmo houvesse qualquer vínculo com o Pr. Peter - mas nós tínhamos: éramos irmãos em Cristo, comprados pelo sangue precioso do nosso Salvador.
Eu conversava com o Pr. Peter sobre algumas coisas de minha vida, principalmente acerca de algumas querelas, digamos, teológicas...E ele me deu conselhos, como "Escreva um artigo para a editora de sua denominação. Por que não"?
Dei um material para o Pr. Peter ler e dar sugestões. Ele disse que eu poderia ser útil escrevendo, que eu tinha vocação para isso, que eu poderia empregar a escrita e atingir um número maior de pessoas...
Em nossa derradeira conversa, na biblioteca da FATHEL, numa tarde em que, se não me engano, fui pegar o histórico escolar - porque estava de mudança para a Bahia - falei de um projeto que eu estava concebendo, e ele me disse, entre duas estantes de livros: "Quando estiver pronto, quero ser o primeiro a ler". Creio que foram as últimas palavras que ouvi dele.
Ora, tenho absoluta convicção de que a despedida do Pr. Peter foi preparada por Deus. Depois de entregar seu trabalho à faculdade, o SENHOR o levou para as paragens celestiais. É assim que vejo.
Se eu puder ser o mais sincero e leal à memória do meu querido Professor, direi o seguinte: queira Deus eu possa conter em meu coração um pouco do ideal que movia o prezado e inesquecível Professor Pastor PETER KLASSEN.
Que Deus conforte a todos nós, os que ficamos.
Sábado, 27 de Dezembro de 2008
EVANGELHO E AMIZADE - o que uma coisa tem que ver com a outra?*
Definição de amizade.
Segundo o Mini Dicionário Aurélio, amizade é o “sentimento fiel de afeição, estima ou ternura entre pessoas que em geral não são parentes nem amantes...; ternura”. Para o mesmo dicionário, amigo é aquele que “é ligado a outrem por laços de amizade” (idem).
A amizade é uma afeição, digamos, gratuita. As pessoas ficam amigas “de graça”. Enquanto os parentes têm o amor familiar, e os cônjuges, o amor conjugal, a amizade é um amor diferente, que não se explica pelos laços sanguíneos nem pela parceria afetivo-sexual.
Dito de outro modo: todo mundo espera que os parentes e cônjuges se amem; mas a amizade entre as pessoas é um sentimento que se explica por si.
Agora, o que a amizade tem que ver com o Evangelho? Façamos um estudo acerca disso.
Exemplos de amizade na Bíblia.
Deus e Abraão – Abraão foi chamado de “amigo de Deus” (II Cr 20.7; Tg 2.23). Por quê? Porque Abraão conversava com Deus, confiava n’Ele inteiramente e se mostrava fiel. Enquanto todos os outros deuses são tidos como inacessíveis, o Deus de Abraão é Aquele que deseja um relacionamento de amizade com o ser humano.
Deus e Moisés – Deus falava a Moisés “face a face, como qualquer fala a seu amigo” (Ex 33.11).
Rute e sua ex-sogra Noemi – Sem nenhuma obrigação legal, e numa situação de calamidade, Rute declarou fervorosa amizade à mãe de seu marido morto (Rt 1.16).
Davi e Jônatas – Davi e Jônatas eram muito amigos. O Texto Sagrado diz que “a alma de Jônatas se ligou com a de Davi” (I Sm 18.1). Sua amizade era tão verdadeira que mereceu registro nas Escrituras Sagradas. Havia companheirismo e lealdade, a ponto de Jônatas salvar a vida do amigo por mais de uma vez, contra a vontade de seu pai, o rei Saul (ver I Sm 18.1-4; 19.1-10; 20.1-43).
Paulo e Tito – em certa passagem da vida, o apóstolo Paulo só ficou confortado depois que recebeu a visita de seu amigo Tito (II Co 7.5-7).
Os amigos de Jesus de Nazaré – Além de uma relação de Senhor e servos, Mestre e discípulos, Jesus estabeleceu com os Doze Apóstolos uma relação de amizade, algo mais profundo do que a relação de senhorio (Jo 15.13-15).
Num dia em que multidões se aglomeravam em torno de Jesus, a ponto de se atropelarem, Ele se dirigiu especialmente aos Seus discípulos, chamando-os de “amigos” (Lc 12.4).
Havia, porém, amigos mais próximos, como Pedro, Tiago e João, que Jesus levava consigo em ocasiões especiais (ver em Mt 17.1-8; Mc 9.2-8 e Lc 9.28-36 o episódio da Transfiguração; e Mt 26.36-46; Mc 14.32-42; Lc 22.40-46, na oração no Getsêmane, quando, ao se afastar para orar, Jesus levou somente Pedro, Tiago e João, embora os demais discípulos também estivessem ali).
Dentre os três amigos mais chegados, João era o discípulo a quem Jesus amava, e os textos demonstram claramente que ele tinha maior intimidade com Jesus do que qualquer outro discípulo (Jo 13.23-25 e 21.20).
Havia também os irmãos Lázaro, Marta e Maria, todos amigos de Jesus (Jo 11.5). O próprio Lázaro foi chamado por Jesus de “nosso amigo Lázaro” (Jo 11.11).
Jesus foi reconhecido como “amigo de publicanos e pecadores” porque comia e bebia com eles, sem preconceito (Mt 11.19; Lc 7.34).
E, mesmo sabendo que Judas Iscariotes estava ali para o entregar aos soldados, Jesus o chamou de “amigo” no Jardim do Getsêmane (Mt 26.50).
Aprendemos, assim, que o Homem Jesus tinha amigos, uns mais chegados que outros. Isso ocorreu porque é natural ao Ser Humano construir relações mais profundas que outras, amizades mais íntimas que outras.
No entanto, quando se trata da amizade de Cristo com Sua Igreja, precisamos compreender que Jesus é Amigo de todos os que nasceram de novo. Veremos isso em outro tópico.
O que a Bíblia diz da verdadeira amizade.
A verdadeira amizade é contemplada na Bíblia como uma coisa muito boa, uma relação saudável e valiosa. Senão, vejamos:
• O amigo mostra compaixão ao aflito (Jó 6.14).
• O amigo ora pelos seus amigos, ainda que eles se revelem falsos (Jó 42.10; c/c 6.27 e 16.20). No Sl 35, Davi afirma que tratou como amigos uns homens que depois se revelaram seus inimigos (ver vv. 13-16).
• O amigo ama “em todo o tempo”, e na angústia “nasce o irmão” (Pv 17.17).
• O “conselho cordial” do amigo é comparado ao “óleo e o perfume”, pois alegra o coração (Pv 27.9). Na profecia de Isaías, Jesus Cristo é chamado de “Maravilhoso Conselheiro” (Is 9.6) porque Seus conselhos são perfeitos e produzem milagres na vida de quem os recebe.
• Não se deve abandonar o amigo (Pv 27.10).
• A amizade é importante na formação do caráter, assim como o ferro que se afia com o ferro (Pv 27.17).
As limitações da amizade humana.
No Sl 41.9, texto messiânico, o salmista Davi prevê o momento em que até o “amigo íntimo” de Cristo levantaria o calcanhar contra Ele. Algo semelhante está no Sl 55.12,13, quando o salmista, também se referindo profeticamente a Cristo, diz que suportaria a afronta de um inimigo, mas não de um amigo íntimo, companheiro e homem igual a ele. Essa dor é maior.
A profecia do Sl 41 cumpriu-se em Jo 13.18, quando Jesus disse que um que comia do mesmo pão que Ele lhe levantaria o calcanhar. Esse homem foi Judas Iscariotes, o traidor. Judas traiu não apenas uma religião – ele traiu uma amizade.
Num contexto de crise nacional, o profeta Jeremias foi perseguido por amigos íntimos (Jr 20.10).
Por causa de uma doença e da pobreza repentina, Jó foi abandonado por todos os seus amigos íntimos (Jó 19.19). Seus parentes e conhecidos fizeram o mesmo (Jó 19.14). Mas certamente a dor maior não veio da distância de parentes e conhecidos – o pior é ser deixado pelos amigos íntimos.
Parece que Davi também foi desprezado por amigos devido a uma doença (Sl 38.11). Isso ele podia esperar de adversários, talvez até de vizinhos e conhecidos (Sl 31.11), mas não de amigos íntimos. Só que isso às vezes acontece, como o Salmo sugere.
O salmista Hemã, de igual modo, expressou em poesia a dor de ser abandonado pelos próprios amigos (Sl 88.8,18).
O difamador separa os maiores amigos (Pv 16.28).
Curiosamente, o mesmo autor de Provérbios diz que “o homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão” (Pv 18.24). O que isso quer dizer? A Bíblia Anotada traz uma tradução alternativa: “Um homem com amigos demais será quebrado em pedaços”. E dá a seguinte explicação: “Amigos indiscriminadamente escolhidos podem trazer problemas, mas um verdadeiro amigo permanece fiel na alegria e na tristeza” (p. 812).
Há “amigos” que aparecem aos montes quando alguém fica rico, mas, ao mesmo tempo, fica o pobre desamparado de seus amigos (Pv 19.4). Essa é a amizade interesseira, que, na verdade, não é amizade coisa nenhuma. São os amigos que surgem quando o indivíduo ganha na loteria, tão-somente para gastar sua fortuna; e que desaparecem assim que a riqueza se esvai.
Há “amigos” que são bajuladores dos que dão presentes (Pv 19.6). Dependendo da situação, comportam-se como capachos.
Numa sociedade afastada de Deus, o profeta Miquéias precisou dizer para não se confiar no amigo, e para não se falar nada àquele que reclina a cabeça sobre o seu peito (Mq 7.5-7). Esse é um cenário de problemas familiares e sociais, bem parecido com o que temos hoje no mundo.
Devido às muitas limitações da amizade humana, há quem perca a esperança. Mas a amizade é um bem precioso, que deve ser construído como num processo. De toda maneira, há uma amizade que transcende todo sentimento humano, e que só Jesus Cristo pode ofertar.
Jesus, o Amigo Incomparável.
Jesus apresenta-se como SENHOR, Mestre, Rei, Pastor, Noivo, Juiz, Primogênito, mas também como Amigo. Ele é o maior Amigo, o verdadeiro Amigo.
Por que Jesus é o maior Amigo?
Jesus sempre está disposto a nos ajudar;
Jesus sempre tem tempo para Seus amigos;
Jesus tem conselhos maravilhosos (Is 9.6).
Jesus é fiel;
Jesus é leal;
Jesus não muda;
Jesus não mente.
E, o que é mais importante, Jesus deu a Sua vida por nós, quando ainda éramos Seus inimigos.
É até possível que alguém dê sua vida por um amigo. Mas só Jesus Cristo ofereceu sua vida por Seus inimigos.
A amizade de Cristo implica em intimidade, conhecimento mútuo, diálogo aberto e lealdade.
Vejamos a seguir, com base bíblica, em que consiste a amizade de Cristo.
O Evangelho é a oportunidade de fazer as pazes com Deus.
Em Rm 5.7-11, Paulo explica o Evangelho de uma forma muito clara: mesmo que dificilmente, pode ser que alguém se anime a morrer por um justo, por uma pessoa boa; mas Deus prova o Seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós sendo nós ainda pecadores. De fato, quando ainda éramos inimigos de Deus, Ele enviou Seu Filho para morrer pelos nossos pecados, para nos reconciliar. Agora, tendo recebido a reconciliaçao, e sendo, portanto, amigos de Deus, “seremos por ele salvos da ira” (v.9), “seremos salvos pela sua vida” (v.10). Isto porque agora somos amigos de Deus, fizemos as pazes com Deus.
Paulo escreveu que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (II Co 5.18-20), e nos deu a palavra ou o ministério da reconciliação. Isto significa que o mundo estava em conflito com Deus, e que Jesus Cristo veio fazer as pazes entre Deus e os homens. Como um mediador, advogado ou conselheiro, Jesus Cristo veio restaurar a amizade do Homem com Deus, perdida na Queda (Gn 3.1-7).
Com Sua morte na Cruz, Jesus Cristo derrubou “a parede da separação”, que era a “inimizade” (Ef 2.11-22). Quem era estrangeiro, passou a ser da “família de Deus”; quem era peregrino passou a ser “concidadão dos santos”; quem era gentio (pagão) passou a ser parte da “comunidade de Israel”; quem estava longe foi aproximado pelo sangue de Jesus.
Conclusão.
Há muitas formas de explicar o Plano de Salvação, mas percebo que a mensagem cristã evangélica não tem sido compreendida pela sociedade, talvez por nossa incompreensão pessoal da essência do Evangelho.
Espero que esta palavra sobre a amizade e o Evangelho tenha contribuído para um entendimento do que Jesus Cristo fez pela Humanidade.
*Material preparado para pregação no Culto do Amigo, na Congregação da Assembléia de Deus do Riacho do Mel, em Alagoinhas-BA, a ser realizada no dia 28 de dezembro de 2008.
Segundo o Mini Dicionário Aurélio, amizade é o “sentimento fiel de afeição, estima ou ternura entre pessoas que em geral não são parentes nem amantes...; ternura”. Para o mesmo dicionário, amigo é aquele que “é ligado a outrem por laços de amizade” (idem).
A amizade é uma afeição, digamos, gratuita. As pessoas ficam amigas “de graça”. Enquanto os parentes têm o amor familiar, e os cônjuges, o amor conjugal, a amizade é um amor diferente, que não se explica pelos laços sanguíneos nem pela parceria afetivo-sexual.
Dito de outro modo: todo mundo espera que os parentes e cônjuges se amem; mas a amizade entre as pessoas é um sentimento que se explica por si.
Agora, o que a amizade tem que ver com o Evangelho? Façamos um estudo acerca disso.
Exemplos de amizade na Bíblia.
Deus e Abraão – Abraão foi chamado de “amigo de Deus” (II Cr 20.7; Tg 2.23). Por quê? Porque Abraão conversava com Deus, confiava n’Ele inteiramente e se mostrava fiel. Enquanto todos os outros deuses são tidos como inacessíveis, o Deus de Abraão é Aquele que deseja um relacionamento de amizade com o ser humano.
Deus e Moisés – Deus falava a Moisés “face a face, como qualquer fala a seu amigo” (Ex 33.11).
Rute e sua ex-sogra Noemi – Sem nenhuma obrigação legal, e numa situação de calamidade, Rute declarou fervorosa amizade à mãe de seu marido morto (Rt 1.16).
Davi e Jônatas – Davi e Jônatas eram muito amigos. O Texto Sagrado diz que “a alma de Jônatas se ligou com a de Davi” (I Sm 18.1). Sua amizade era tão verdadeira que mereceu registro nas Escrituras Sagradas. Havia companheirismo e lealdade, a ponto de Jônatas salvar a vida do amigo por mais de uma vez, contra a vontade de seu pai, o rei Saul (ver I Sm 18.1-4; 19.1-10; 20.1-43).
Paulo e Tito – em certa passagem da vida, o apóstolo Paulo só ficou confortado depois que recebeu a visita de seu amigo Tito (II Co 7.5-7).
Os amigos de Jesus de Nazaré – Além de uma relação de Senhor e servos, Mestre e discípulos, Jesus estabeleceu com os Doze Apóstolos uma relação de amizade, algo mais profundo do que a relação de senhorio (Jo 15.13-15).
Num dia em que multidões se aglomeravam em torno de Jesus, a ponto de se atropelarem, Ele se dirigiu especialmente aos Seus discípulos, chamando-os de “amigos” (Lc 12.4).
Havia, porém, amigos mais próximos, como Pedro, Tiago e João, que Jesus levava consigo em ocasiões especiais (ver em Mt 17.1-8; Mc 9.2-8 e Lc 9.28-36 o episódio da Transfiguração; e Mt 26.36-46; Mc 14.32-42; Lc 22.40-46, na oração no Getsêmane, quando, ao se afastar para orar, Jesus levou somente Pedro, Tiago e João, embora os demais discípulos também estivessem ali).
Dentre os três amigos mais chegados, João era o discípulo a quem Jesus amava, e os textos demonstram claramente que ele tinha maior intimidade com Jesus do que qualquer outro discípulo (Jo 13.23-25 e 21.20).
Havia também os irmãos Lázaro, Marta e Maria, todos amigos de Jesus (Jo 11.5). O próprio Lázaro foi chamado por Jesus de “nosso amigo Lázaro” (Jo 11.11).
Jesus foi reconhecido como “amigo de publicanos e pecadores” porque comia e bebia com eles, sem preconceito (Mt 11.19; Lc 7.34).
E, mesmo sabendo que Judas Iscariotes estava ali para o entregar aos soldados, Jesus o chamou de “amigo” no Jardim do Getsêmane (Mt 26.50).
Aprendemos, assim, que o Homem Jesus tinha amigos, uns mais chegados que outros. Isso ocorreu porque é natural ao Ser Humano construir relações mais profundas que outras, amizades mais íntimas que outras.
No entanto, quando se trata da amizade de Cristo com Sua Igreja, precisamos compreender que Jesus é Amigo de todos os que nasceram de novo. Veremos isso em outro tópico.
O que a Bíblia diz da verdadeira amizade.
A verdadeira amizade é contemplada na Bíblia como uma coisa muito boa, uma relação saudável e valiosa. Senão, vejamos:
• O amigo mostra compaixão ao aflito (Jó 6.14).
• O amigo ora pelos seus amigos, ainda que eles se revelem falsos (Jó 42.10; c/c 6.27 e 16.20). No Sl 35, Davi afirma que tratou como amigos uns homens que depois se revelaram seus inimigos (ver vv. 13-16).
• O amigo ama “em todo o tempo”, e na angústia “nasce o irmão” (Pv 17.17).
• O “conselho cordial” do amigo é comparado ao “óleo e o perfume”, pois alegra o coração (Pv 27.9). Na profecia de Isaías, Jesus Cristo é chamado de “Maravilhoso Conselheiro” (Is 9.6) porque Seus conselhos são perfeitos e produzem milagres na vida de quem os recebe.
• Não se deve abandonar o amigo (Pv 27.10).
• A amizade é importante na formação do caráter, assim como o ferro que se afia com o ferro (Pv 27.17).
As limitações da amizade humana.
No Sl 41.9, texto messiânico, o salmista Davi prevê o momento em que até o “amigo íntimo” de Cristo levantaria o calcanhar contra Ele. Algo semelhante está no Sl 55.12,13, quando o salmista, também se referindo profeticamente a Cristo, diz que suportaria a afronta de um inimigo, mas não de um amigo íntimo, companheiro e homem igual a ele. Essa dor é maior.
A profecia do Sl 41 cumpriu-se em Jo 13.18, quando Jesus disse que um que comia do mesmo pão que Ele lhe levantaria o calcanhar. Esse homem foi Judas Iscariotes, o traidor. Judas traiu não apenas uma religião – ele traiu uma amizade.
Num contexto de crise nacional, o profeta Jeremias foi perseguido por amigos íntimos (Jr 20.10).
Por causa de uma doença e da pobreza repentina, Jó foi abandonado por todos os seus amigos íntimos (Jó 19.19). Seus parentes e conhecidos fizeram o mesmo (Jó 19.14). Mas certamente a dor maior não veio da distância de parentes e conhecidos – o pior é ser deixado pelos amigos íntimos.
Parece que Davi também foi desprezado por amigos devido a uma doença (Sl 38.11). Isso ele podia esperar de adversários, talvez até de vizinhos e conhecidos (Sl 31.11), mas não de amigos íntimos. Só que isso às vezes acontece, como o Salmo sugere.
O salmista Hemã, de igual modo, expressou em poesia a dor de ser abandonado pelos próprios amigos (Sl 88.8,18).
O difamador separa os maiores amigos (Pv 16.28).
Curiosamente, o mesmo autor de Provérbios diz que “o homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão” (Pv 18.24). O que isso quer dizer? A Bíblia Anotada traz uma tradução alternativa: “Um homem com amigos demais será quebrado em pedaços”. E dá a seguinte explicação: “Amigos indiscriminadamente escolhidos podem trazer problemas, mas um verdadeiro amigo permanece fiel na alegria e na tristeza” (p. 812).
Há “amigos” que aparecem aos montes quando alguém fica rico, mas, ao mesmo tempo, fica o pobre desamparado de seus amigos (Pv 19.4). Essa é a amizade interesseira, que, na verdade, não é amizade coisa nenhuma. São os amigos que surgem quando o indivíduo ganha na loteria, tão-somente para gastar sua fortuna; e que desaparecem assim que a riqueza se esvai.
Há “amigos” que são bajuladores dos que dão presentes (Pv 19.6). Dependendo da situação, comportam-se como capachos.
Numa sociedade afastada de Deus, o profeta Miquéias precisou dizer para não se confiar no amigo, e para não se falar nada àquele que reclina a cabeça sobre o seu peito (Mq 7.5-7). Esse é um cenário de problemas familiares e sociais, bem parecido com o que temos hoje no mundo.
Devido às muitas limitações da amizade humana, há quem perca a esperança. Mas a amizade é um bem precioso, que deve ser construído como num processo. De toda maneira, há uma amizade que transcende todo sentimento humano, e que só Jesus Cristo pode ofertar.
Jesus, o Amigo Incomparável.
Jesus apresenta-se como SENHOR, Mestre, Rei, Pastor, Noivo, Juiz, Primogênito, mas também como Amigo. Ele é o maior Amigo, o verdadeiro Amigo.
Por que Jesus é o maior Amigo?
Jesus sempre está disposto a nos ajudar;
Jesus sempre tem tempo para Seus amigos;
Jesus tem conselhos maravilhosos (Is 9.6).
Jesus é fiel;
Jesus é leal;
Jesus não muda;
Jesus não mente.
E, o que é mais importante, Jesus deu a Sua vida por nós, quando ainda éramos Seus inimigos.
É até possível que alguém dê sua vida por um amigo. Mas só Jesus Cristo ofereceu sua vida por Seus inimigos.
A amizade de Cristo implica em intimidade, conhecimento mútuo, diálogo aberto e lealdade.
Vejamos a seguir, com base bíblica, em que consiste a amizade de Cristo.
O Evangelho é a oportunidade de fazer as pazes com Deus.
Em Rm 5.7-11, Paulo explica o Evangelho de uma forma muito clara: mesmo que dificilmente, pode ser que alguém se anime a morrer por um justo, por uma pessoa boa; mas Deus prova o Seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós sendo nós ainda pecadores. De fato, quando ainda éramos inimigos de Deus, Ele enviou Seu Filho para morrer pelos nossos pecados, para nos reconciliar. Agora, tendo recebido a reconciliaçao, e sendo, portanto, amigos de Deus, “seremos por ele salvos da ira” (v.9), “seremos salvos pela sua vida” (v.10). Isto porque agora somos amigos de Deus, fizemos as pazes com Deus.
Paulo escreveu que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (II Co 5.18-20), e nos deu a palavra ou o ministério da reconciliação. Isto significa que o mundo estava em conflito com Deus, e que Jesus Cristo veio fazer as pazes entre Deus e os homens. Como um mediador, advogado ou conselheiro, Jesus Cristo veio restaurar a amizade do Homem com Deus, perdida na Queda (Gn 3.1-7).
Com Sua morte na Cruz, Jesus Cristo derrubou “a parede da separação”, que era a “inimizade” (Ef 2.11-22). Quem era estrangeiro, passou a ser da “família de Deus”; quem era peregrino passou a ser “concidadão dos santos”; quem era gentio (pagão) passou a ser parte da “comunidade de Israel”; quem estava longe foi aproximado pelo sangue de Jesus.
Conclusão.
Há muitas formas de explicar o Plano de Salvação, mas percebo que a mensagem cristã evangélica não tem sido compreendida pela sociedade, talvez por nossa incompreensão pessoal da essência do Evangelho.
Espero que esta palavra sobre a amizade e o Evangelho tenha contribuído para um entendimento do que Jesus Cristo fez pela Humanidade.
*Material preparado para pregação no Culto do Amigo, na Congregação da Assembléia de Deus do Riacho do Mel, em Alagoinhas-BA, a ser realizada no dia 28 de dezembro de 2008.
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008
Ética Bíblica
Definição de ética.
Ética divina e ética humana.
Por que a Bíblia é um Código de Ética?
A Lei de Moisés.
Os Dez Mandamentos.
Ética Cristã.
O Sermão do Monte.
Conclusão.
Definição de ética.
Ética é o conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto. Está relacionada ao caráter, à moralidade, aos bons costumes, ao que é bom e justo, ao que é direito, honesto.
A palavra “ética” vem do grego ethos, e significa estilo de vida, costumes, conduta ou prática. Aparece 12 vezes no Novo Testamento , enquanto o plural, ethes, surge uma só vez, em I Co 15.33 (“costumes”). É importante também ressaltar que o vocábulo “ética” decorre diretamente do texto bíblico, e assim se difundiu pelo mundo .
Ética divina e ética humana.
Além da ética divina, existe a ética humana, secular ou filosófica.
Antes da Queda, Adão e Eva alimentavam-se da ética divina. Deus dizia qual o procedimento correto.
A tentação da Serpente foi no sentido de que eles se tornassem como Deus, sabendo o bem e o mal. Ou seja: a tentação para que Adão e Eva comessem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal significou uma insinuação de que eles poderiam escolher seus próprios caminhos, independentemente de Deus, e, assim, podendo se tornar autônomos, independentes, emancipados.
Veja os textos de Gn 2.16,17 (mandamento e consequência) e Gn 3.1-7 (tentação e Queda).
A tentação colocou em dúvida a Palavra de Deus; lançou a idéia de que o mandamento divino era uma tortura; lançou a idéia de que comer da Árvore proibida era necessário; lançou a idéia de que viver com Deus era mais negativo do que positivo, com uma proibição supostamente injusta; lançou a idéia de que Deus não queria que eles se tornassem como Ele, sabendo o bem e o mal, quando, na realidade, Deus queria que eles se conduzissem de acordo com a ética divina, e não com a ética pessoal.
Ali houve o pecado, que é basicamente desobediência à Palavra de Deus.
A morte, como consequência do pecado, é separação de Deus. Tem os aspectos moral, espiritual e físico.
Por que a Bíblia é um Código de Ética?
A Bíblia é um Código de Ética porque trata de como as pessoas devem se comportar diante de Deus e do próximo.
A Bíblia tem regras, mandamentos, estatutos, ordens, preceitos, juízos, normas de conduta. Essas palavras têm que ver com o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto, o lícito e o ilícito. Por isso, a Bíblia é um Livro ou Código de Ética, mas de Ética Divina.
Nós, cristãos, temos na Bíblia nosso modelo ético absoluto, perfeito e imutável. Ela nos ensina a ter um comportamento ético na família, no trabalho, na sociedade e na igreja.
A Lei de Moisés.
A Lei de Moisés, presente nos Livros de Êxodo a Deuteronômio, contém regras de conduta para o povo de Israel, e muitos princípios de ética divina que servem para todos os seres humanos, especialmente para a Igreja de Cristo.
A Lei de Moisés possui regras morais, cerimoniais e civis. As regras cerimoniais tinham função religiosa, e eram dirigidas apenas a Israel (leis sobre sacerdotes, levitas, sistema de sacrifícios e outros rituais religiosos). As regras civis também se dirigiam a Israel, mas no sentido jurídico, para Israel enquanto Nação, e diziam respeito às normas de convivência social. Eram regras referentes a crimes, indenizações, impostos, descanso da terra, dentre outras.
As leis morais são universais, e, por isso servem para todas as pessoas em qualquer época e lugar. Estão resumidas nos Dez Mandamentos (Ex 20.1-17), e tratam do respeito a Deus e ao próximo.
Os Dez Mandamentos valorizam:
1 – O culto exclusivo, espiritual e reverente a Deus (Ex 20.1-7);
2 – A administração do tempo (Ex 20.8-11);
3 – O respeito aos pais (Ex 20.12);
4 – O direito à vida (Ex 20.13);
5 – A instituição do casamento (Ex 20.14, 17);
6 – O direito de propriedade, que envolve o direito do trabalhador e o direito de crédito (Ex 20.15, 17);
7 – O respeito à honra e à justiça, em sentido forense (Ex 20.16).
A Lei de Moisés protegia os mais fracos: pobres, escravos, estrangeiros, órfãos e viúvas.
Ética cristã.
Ética cristã é o padrão de conduta baseado nas palavras de Jesus Cristo e nas Cartas Apostólicas.
A Ética Cristã está bem caracterizada no Sermão do Monte.
O Sermão do Monte.
O Sermão do Monte encontra-se em Mt 5 a 7 (com textos paralelos em Mc 9.50 e Lc 6.20-49; 11.2-4; 34-36; 12.22-31; 13.24; 14.34,35).
A ética cristã é completamente diferente da ética humana, e pode ser resumida nos seguintes princípios:
1. Renúncia aos valores mundanos e apego aos valores do Reino dos Céus (Mt 5.3-12; Is 57.15; Sl 126.5); “mansos” são os altruístas, os que pensam nos outros, conforme Sl 37.11; II Pe 3.13; “limpos de coração vêm de uma referência a Sl 24.4, Sl 51.10 e 73.1;
2. Necessidade de fazer a diferença e conservar da corrupção (Mt 5.13-16; Jo 8.12; II Co 4.5,6);
3. Interiorização da Lei (Mt 5.17-20) – aplicado à questão do homicídio (21-26); do adultério (27-32); dos juramentos (33-37; Nm 30.2); da vingança (38-42;); e ao tema das relações entre as pessoas (43-48; Lv 19.18);
4. Humildade em tudo, como no caso das esmolas (6.2-4); das orações (6.5-8); do jejum (16-18);
5. Simplicidade quanto às coisas materiais (6.19-21, 24);
6. Entendimento de que a ética não pode ser de fora para dentro, mas de dentro para fora (6.22,23);
7. Priorização do Reino de Deus e de sua justiça, confiança na providência divina (6.25-34);
8. Fuga da hipocrisia e do julgar aos outros (7.1-5; diferente do discernimento dentro das questões da igreja, como, por exemplo, em I Co 5.3,12,13);
9. Compromisso e auto-negação, enquanto a maioria segue confortavelmente pelo caminho espaçoso (13,14);
10. Valorização dos frutos do caráter, e não dos supostos milagres nem das meras palavras ou cargos eclesiásticos (7.15-23; Jr 14.14; 27.15; Sl 6.8);
11. Aplicação das palavras de Cristo (7.24-27).
A chamada Lei Áurea está em Mt 7.12 – o critério da vida em sociedade deve ser aquilo que eu quero que façam comigo. Isso mesmo eu devo fazer aos outros.
Rm 13.10 – A Ética Cristã é o amor.
Conclusão.
Estamos vivendo na época da Pós-Modernidade. A sociedade é relativista, pluralista, hedonista, materialista, individualista e pragmática.
Vemos o avanço da criminalidade, da corrupção política, do tráfico de drogas ilícitas, do homossexualismo, do sexo livre e da desagregação familiar. Vemos também que muitos que se dizem cristãos evangélicos pensam e praticam obras segundo a ética mundana, e não segundo a Ética Cristã.
Só a Ética Cristã vai na contramão de tudo isso. Não podemos sucumbir diante da ética do mundo.
Mundanismo não é só usar roupas dessa ou daquela maneira: mundanismo é deixar que os valores do mundo tomem conta da igreja, mesmo que disfarçadamente.
*Material preparado para a "Festa dos Senhores", na Congregação da Assembléia de Deus no Bairro Jardim Petrolar, em Alagoinhas-BA, onde congreguei de 1988 a 1995. Trata-se de um estudo feito a partir da Revista da CPAD para o IV Trimestre de 2008, especificamente sobre a Lição "A Bíblia: O Código de Ética Divino". A palavra foi ministrada no dia 07 de dezembro de 2008.
Ética divina e ética humana.
Por que a Bíblia é um Código de Ética?
A Lei de Moisés.
Os Dez Mandamentos.
Ética Cristã.
O Sermão do Monte.
Conclusão.
Definição de ética.
Ética é o conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto. Está relacionada ao caráter, à moralidade, aos bons costumes, ao que é bom e justo, ao que é direito, honesto.
A palavra “ética” vem do grego ethos, e significa estilo de vida, costumes, conduta ou prática. Aparece 12 vezes no Novo Testamento , enquanto o plural, ethes, surge uma só vez, em I Co 15.33 (“costumes”). É importante também ressaltar que o vocábulo “ética” decorre diretamente do texto bíblico, e assim se difundiu pelo mundo .
Ética divina e ética humana.
Além da ética divina, existe a ética humana, secular ou filosófica.
Antes da Queda, Adão e Eva alimentavam-se da ética divina. Deus dizia qual o procedimento correto.
A tentação da Serpente foi no sentido de que eles se tornassem como Deus, sabendo o bem e o mal. Ou seja: a tentação para que Adão e Eva comessem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal significou uma insinuação de que eles poderiam escolher seus próprios caminhos, independentemente de Deus, e, assim, podendo se tornar autônomos, independentes, emancipados.
Veja os textos de Gn 2.16,17 (mandamento e consequência) e Gn 3.1-7 (tentação e Queda).
A tentação colocou em dúvida a Palavra de Deus; lançou a idéia de que o mandamento divino era uma tortura; lançou a idéia de que comer da Árvore proibida era necessário; lançou a idéia de que viver com Deus era mais negativo do que positivo, com uma proibição supostamente injusta; lançou a idéia de que Deus não queria que eles se tornassem como Ele, sabendo o bem e o mal, quando, na realidade, Deus queria que eles se conduzissem de acordo com a ética divina, e não com a ética pessoal.
Ali houve o pecado, que é basicamente desobediência à Palavra de Deus.
A morte, como consequência do pecado, é separação de Deus. Tem os aspectos moral, espiritual e físico.
Por que a Bíblia é um Código de Ética?
A Bíblia é um Código de Ética porque trata de como as pessoas devem se comportar diante de Deus e do próximo.
A Bíblia tem regras, mandamentos, estatutos, ordens, preceitos, juízos, normas de conduta. Essas palavras têm que ver com o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto, o lícito e o ilícito. Por isso, a Bíblia é um Livro ou Código de Ética, mas de Ética Divina.
Nós, cristãos, temos na Bíblia nosso modelo ético absoluto, perfeito e imutável. Ela nos ensina a ter um comportamento ético na família, no trabalho, na sociedade e na igreja.
A Lei de Moisés.
A Lei de Moisés, presente nos Livros de Êxodo a Deuteronômio, contém regras de conduta para o povo de Israel, e muitos princípios de ética divina que servem para todos os seres humanos, especialmente para a Igreja de Cristo.
A Lei de Moisés possui regras morais, cerimoniais e civis. As regras cerimoniais tinham função religiosa, e eram dirigidas apenas a Israel (leis sobre sacerdotes, levitas, sistema de sacrifícios e outros rituais religiosos). As regras civis também se dirigiam a Israel, mas no sentido jurídico, para Israel enquanto Nação, e diziam respeito às normas de convivência social. Eram regras referentes a crimes, indenizações, impostos, descanso da terra, dentre outras.
As leis morais são universais, e, por isso servem para todas as pessoas em qualquer época e lugar. Estão resumidas nos Dez Mandamentos (Ex 20.1-17), e tratam do respeito a Deus e ao próximo.
Os Dez Mandamentos valorizam:
1 – O culto exclusivo, espiritual e reverente a Deus (Ex 20.1-7);
2 – A administração do tempo (Ex 20.8-11);
3 – O respeito aos pais (Ex 20.12);
4 – O direito à vida (Ex 20.13);
5 – A instituição do casamento (Ex 20.14, 17);
6 – O direito de propriedade, que envolve o direito do trabalhador e o direito de crédito (Ex 20.15, 17);
7 – O respeito à honra e à justiça, em sentido forense (Ex 20.16).
A Lei de Moisés protegia os mais fracos: pobres, escravos, estrangeiros, órfãos e viúvas.
Ética cristã.
Ética cristã é o padrão de conduta baseado nas palavras de Jesus Cristo e nas Cartas Apostólicas.
A Ética Cristã está bem caracterizada no Sermão do Monte.
O Sermão do Monte.
O Sermão do Monte encontra-se em Mt 5 a 7 (com textos paralelos em Mc 9.50 e Lc 6.20-49; 11.2-4; 34-36; 12.22-31; 13.24; 14.34,35).
A ética cristã é completamente diferente da ética humana, e pode ser resumida nos seguintes princípios:
1. Renúncia aos valores mundanos e apego aos valores do Reino dos Céus (Mt 5.3-12; Is 57.15; Sl 126.5); “mansos” são os altruístas, os que pensam nos outros, conforme Sl 37.11; II Pe 3.13; “limpos de coração vêm de uma referência a Sl 24.4, Sl 51.10 e 73.1;
2. Necessidade de fazer a diferença e conservar da corrupção (Mt 5.13-16; Jo 8.12; II Co 4.5,6);
3. Interiorização da Lei (Mt 5.17-20) – aplicado à questão do homicídio (21-26); do adultério (27-32); dos juramentos (33-37; Nm 30.2); da vingança (38-42;); e ao tema das relações entre as pessoas (43-48; Lv 19.18);
4. Humildade em tudo, como no caso das esmolas (6.2-4); das orações (6.5-8); do jejum (16-18);
5. Simplicidade quanto às coisas materiais (6.19-21, 24);
6. Entendimento de que a ética não pode ser de fora para dentro, mas de dentro para fora (6.22,23);
7. Priorização do Reino de Deus e de sua justiça, confiança na providência divina (6.25-34);
8. Fuga da hipocrisia e do julgar aos outros (7.1-5; diferente do discernimento dentro das questões da igreja, como, por exemplo, em I Co 5.3,12,13);
9. Compromisso e auto-negação, enquanto a maioria segue confortavelmente pelo caminho espaçoso (13,14);
10. Valorização dos frutos do caráter, e não dos supostos milagres nem das meras palavras ou cargos eclesiásticos (7.15-23; Jr 14.14; 27.15; Sl 6.8);
11. Aplicação das palavras de Cristo (7.24-27).
A chamada Lei Áurea está em Mt 7.12 – o critério da vida em sociedade deve ser aquilo que eu quero que façam comigo. Isso mesmo eu devo fazer aos outros.
Rm 13.10 – A Ética Cristã é o amor.
Conclusão.
Estamos vivendo na época da Pós-Modernidade. A sociedade é relativista, pluralista, hedonista, materialista, individualista e pragmática.
Vemos o avanço da criminalidade, da corrupção política, do tráfico de drogas ilícitas, do homossexualismo, do sexo livre e da desagregação familiar. Vemos também que muitos que se dizem cristãos evangélicos pensam e praticam obras segundo a ética mundana, e não segundo a Ética Cristã.
Só a Ética Cristã vai na contramão de tudo isso. Não podemos sucumbir diante da ética do mundo.
Mundanismo não é só usar roupas dessa ou daquela maneira: mundanismo é deixar que os valores do mundo tomem conta da igreja, mesmo que disfarçadamente.
*Material preparado para a "Festa dos Senhores", na Congregação da Assembléia de Deus no Bairro Jardim Petrolar, em Alagoinhas-BA, onde congreguei de 1988 a 1995. Trata-se de um estudo feito a partir da Revista da CPAD para o IV Trimestre de 2008, especificamente sobre a Lição "A Bíblia: O Código de Ética Divino". A palavra foi ministrada no dia 07 de dezembro de 2008.
Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008
Idiossincrasia do meu povo, na perspectiva da auto-crítica
Nós construímos templos centrais enormes e confortáveis, mas nem sempre atendemos às congregações menores, periféricas e pobres.
Nós apoiamos projetos gigantescos que dão visibilidade a líderes personalistas.
Nós não apreciamos ações anônimas pelo Reino de Deus.
Nós empregamos o tosco argumento de que o líder fulano de tal ensina umas heresias de vez em quando, mas dá frutos, ganha almas para Jesus...
Nós parecemos os políticos brasileiros que votam projetos visando a interesses pessoais, interesses de grupos e interesses mesquinhos.
Nós lutamos pelo poder, mesmo que seja sobre um pequeno rebanho de irmãos analfabetos funcionais, ou sobre o grupo da mocidade, o grupo das senhoras, o conjunto coral...
Nós imitamos o mundo, ao mesmo tempo em que criamos uma cultura evangélica toda especial, com linguagem, música e costumes diferentes.
Nós não temos influenciado positivamente a sociedade brasileira.
Nós não somos mais perseguidos nem tolerados, mas abertamente aceitos pela sociedade pluralista – e achamos vantajosa essa triste simbiose.
Nós idolatramos pregadores sensacionalistas, ocos de conteúdo, que têm simplesmente o poder de encantar platéias e fazer teatro com a Bíblia em punho.
Nós não entendemos a diferença entre teologia e formalismo teológico – achamos que estudar teologia conduz necessariamente a um tipo de esfriamento espiritual.
Nós acusamos os irmãos tradicionais de frieza, e nisso somos injustos.
Nós fechamos os olhos para o que a Universal do Reino de Deus e a Internacional da Graça de Deus têm feito, e ainda queremos descobrir o segredo do sucesso deles, ainda que sejamos um tanto tímidos na imitação de suas artimanhas.
Nós estamos abandonando o grande legado deixado pelos pioneiros e pelos primeiros pastores e líderes de nossa igreja, mas achamos que nossa tradição tem sido seguida à risca.
Nós estamos nos vendendo à Teologia da Prosperidade, à Confissão Positiva.
Nós consagramos certos cantores evangélicos a praticamente profetas para a nossa juventude, quando sua teologia é centrada no subjetivismo, na auto-ajuda e no antropocentrismo.
Nós desprezamos as excelentes revistas de escola dominical e a farta literatura de nossa igreja, e nos apegamos a festas, congressos e outras coisas que às vezes me soam meras frivolidades.
Nós temos uma teologia muito séria na teoria e uma teologia "nonsense" na prática.
Nós gostamos de títulos e aparatos.
Nós temos em nosso meio muitos e muitos irmãos tristes ou amargurados desde o dia em que aprenderam a pensar diferente.
Nós instituímos, ao longo dos anos, a noção de que pastor é senhor, quando deveria ser servo.
Nós instituímos, ao longo dos anos, a noção de que pastor-presidente é um homem todo-poderoso, inacessível, de mando unilateral, quando em outras igrejas, ou mesmo em algumas das nossas, a gente vê que pastor é um homem vocacionado para servir pela Palavra de Deus, com humildade e pessoalidade.
Nós aprendemos que ser crente é participar ativamente de todos os trabalhos da igreja, compor aqueles conjuntos musicais, usar uns chavões, e que mais crente ainda é o que um dia falou em "línguas estranhas".
Nós também temos muitas qualidades, mas o auto-exame para a correção de pecados ainda é uma virtude cristã.
Nós apoiamos projetos gigantescos que dão visibilidade a líderes personalistas.
Nós não apreciamos ações anônimas pelo Reino de Deus.
Nós empregamos o tosco argumento de que o líder fulano de tal ensina umas heresias de vez em quando, mas dá frutos, ganha almas para Jesus...
Nós parecemos os políticos brasileiros que votam projetos visando a interesses pessoais, interesses de grupos e interesses mesquinhos.
Nós lutamos pelo poder, mesmo que seja sobre um pequeno rebanho de irmãos analfabetos funcionais, ou sobre o grupo da mocidade, o grupo das senhoras, o conjunto coral...
Nós imitamos o mundo, ao mesmo tempo em que criamos uma cultura evangélica toda especial, com linguagem, música e costumes diferentes.
Nós não temos influenciado positivamente a sociedade brasileira.
Nós não somos mais perseguidos nem tolerados, mas abertamente aceitos pela sociedade pluralista – e achamos vantajosa essa triste simbiose.
Nós idolatramos pregadores sensacionalistas, ocos de conteúdo, que têm simplesmente o poder de encantar platéias e fazer teatro com a Bíblia em punho.
Nós não entendemos a diferença entre teologia e formalismo teológico – achamos que estudar teologia conduz necessariamente a um tipo de esfriamento espiritual.
Nós acusamos os irmãos tradicionais de frieza, e nisso somos injustos.
Nós fechamos os olhos para o que a Universal do Reino de Deus e a Internacional da Graça de Deus têm feito, e ainda queremos descobrir o segredo do sucesso deles, ainda que sejamos um tanto tímidos na imitação de suas artimanhas.
Nós estamos abandonando o grande legado deixado pelos pioneiros e pelos primeiros pastores e líderes de nossa igreja, mas achamos que nossa tradição tem sido seguida à risca.
Nós estamos nos vendendo à Teologia da Prosperidade, à Confissão Positiva.
Nós consagramos certos cantores evangélicos a praticamente profetas para a nossa juventude, quando sua teologia é centrada no subjetivismo, na auto-ajuda e no antropocentrismo.
Nós desprezamos as excelentes revistas de escola dominical e a farta literatura de nossa igreja, e nos apegamos a festas, congressos e outras coisas que às vezes me soam meras frivolidades.
Nós temos uma teologia muito séria na teoria e uma teologia "nonsense" na prática.
Nós gostamos de títulos e aparatos.
Nós temos em nosso meio muitos e muitos irmãos tristes ou amargurados desde o dia em que aprenderam a pensar diferente.
Nós instituímos, ao longo dos anos, a noção de que pastor é senhor, quando deveria ser servo.
Nós instituímos, ao longo dos anos, a noção de que pastor-presidente é um homem todo-poderoso, inacessível, de mando unilateral, quando em outras igrejas, ou mesmo em algumas das nossas, a gente vê que pastor é um homem vocacionado para servir pela Palavra de Deus, com humildade e pessoalidade.
Nós aprendemos que ser crente é participar ativamente de todos os trabalhos da igreja, compor aqueles conjuntos musicais, usar uns chavões, e que mais crente ainda é o que um dia falou em "línguas estranhas".
Nós também temos muitas qualidades, mas o auto-exame para a correção de pecados ainda é uma virtude cristã.
Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
Diálogo com o jovem Naor, adepto confesso da Teologia da Prosperidade
Transcrevo* abaixo o segundo comentário que o jovem Naor (16 anos) fez ao nosso texto “Silas Malafaia e a Conferência Profética Passando o Manto”. O primeiro comentário desse irmão já havia sido respondido por mim no espaço próprio, mas agora, com os argumentos que ele declina, entendo que podemos construir um diálogo mais construtivo, que é nosso interesse neste "blog".
Segue, portanto, "ipsis litteris", o comentário do irmão Naor, com as minhas considerações em seguida, na forma de tópicos:
“Alex,desculpe estava com pressa na hora de escrever.rsrs.
O Apostolo Paulo afirma que muitos pregam o evangelho por contenda,e por ganancia,mas o importante é que Jesus seja pregado.
Sou adepto da Teolgia da Prosperidade(com bases biblicas).Quando Jesus diz que o Reino dos céu é dos pobres,acredito que Ele esteja afirmando sobre pobres de Espirito,humildes etc.
Sou contra a FAMOSA a afirmção:VENHA PRA JESUS ELE TE ENRIQUECERÁ..Pois Jesus nos fala para buscarmos primeiro o reino dos céus,e as demais coisas nos serão acrescentadas.
Jesus fala mais sobre dinheiro nos evangelhos do que outra coisa,e também fala mais sobre o inferno do que sobre o céu.
A prosperidade em que acredito é a emocional,sentimental e financeira.
O salmista afirma que nunca viu o justo mendigar o pão e Jesus também afirma que veio para dar vida e vida em abundância(em todas areas de nossas vidas).
Concordo que não podemos amar ao dinheiro e a Deus ao mesmo tempo isto é pecado de cobiça e idolatria,mas creio que Deus sim levanta ministros para levar sua palavra ministrando cada um em sua area ex.cura,libertação,prosperidade etc.Claro todos com bas na Palavra.
Eu tenho visto os frutos do ministerio do Silas Malafaia,sou contribuinte,e Deus cada vez mais tem me abençoado,tambe´m fui muito impactado com os livros de MURDOCK(esqueci como escreve o nome dele suahusahusa, por isso digo para olharmos os frutos,por que Jesus disse que uma arvore boa não produz frutos maus,e uma arvore má não produz frutos bons.
Vidas tem sido levadas a Cristo,e em tudo o que eles tem ensinado usam como base a palavra.
Sim vemos muitos se pertendo,e cobiçando o que não agrada a Deus,mas não posso crer em Deus que não abençoa o seu povo,vemos na biblia que Deus sempre a abençou seu povo com milagres na area financeira,e sim tem pessoa que Deus não deixa rico,por que Ele não deseja.
os pregadores da prosperidade são exagerados,quando falam deste assunto,mas não chegam a ser heresias,como também muitos tradicionais,só valoriza a pobreza em extremo,o certo eh o temperado:No mundo Tereis aflições,mas tende bom animo pois eu venci o mundo,como disse jesus,e Pualo que disse de tudo ter esperimentado,e saber estar bem em todas as situações.
Meu pai é um Pr.Assembleiano,e acredito que você saiba que els são bem resistentes a esta Teologia,e ele(não que ele seja alguém importante)esta de acordo com que o Sila tem Ministrado,e temos experimentado prosperidade em nosso lar.
Desejo sim crescer com Cristo Alias tem somente 16 anos,e em nenhum momente te julguei por que eu disse:vamos produzir frutos,assim me incluindo também.
Jesus abençoe..
xD”.
Minha resposta, em atenção a cada proposição do irmão Naor:
“O Apostolo Paulo afirma que muitos pregam o evangelho por contenda,e por ganancia,mas o importante é que Jesus seja pregado” [sic].
Creio que o jovem Naor não quis dizer que o Pr. Silas Malafaia prega o Evangelho por contenda ou ganância, mas é razoável entender que seu emprego do texto paulino serve para tentar justificar a pregação a todo custo, como costumam fazer muitas pessoas. É mesmo recorrente usar o texto de Fp 1.15-18 para dizer que vale tudo em nome da propagação do Evangelho, como se Paulo estivesse aprovando o pragmatismo, o evangelho de resultados, dos fins que justificam os meios, à moda de Maquiavel. Mas o texto paulino não diz isso. Se observarmos com atenção toda a passagem de Fp 1.12-26, veremos que Paulo se refere a motivações errôneas, e não a conteúdo errôneo. Paulo jamais vendeu doutrinas e princípios cristãos. O que ele diz é que alguns pregam com sentimentos de inveja, fingimento e porfia, e não que seja válido pregar evangelho adulterado, porque ele mesmo, o apóstolo Paulo, disse que não se poderia aceitar outro evangelho (veja Gl 1.6-9, por exemplo). Em suma: se alguns pregam o Evangelho de Cristo, mas por motivações equivocadas, o importante é que o nome de Jesus seja anunciado, sabendo, por outro lado, que cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus, e isso não é brincadeira, conforme II Co 5.10. Paulo nunca aprovaria a pregação de evangelho diferente! Creio que está claro assim. O argumento do Naor nesse caso foi pragmático.
“Sou adepto da Teolgia da Prosperidade(com bases biblicas).Quando Jesus diz que o Reino dos céu é dos pobres,acredito que Ele esteja afirmando sobre pobres de Espirito,humildes etc” [sic].
Gosto da sinceridade do irmão Naor: reconhece ser adepto da Teologia da Prosperidade. Mas há uma contradição, pois a Teologia da Prosperidade, ligada que é à Confissão Positiva, não tem as “bases bíblicas” referidas pelo irmão Naor. Concordo com a proposição de que os “pobres” são os “pobres de espírito”, os humildes, os que se enxergam como pecadores, os pequeninos, conforme Mt 5.3 e 11.25. Também creio que a “opção pelos pobres”, ensinada pela Igreja Romana, está fundamentada em bases erradas. No entanto, uma coisa não sustenta a outra. Dito de outro modo: o fato de eu crer que a Salvação se dirige a pobres e ricos não faz com que eu acredite que a prosperidade seja o mesmo que riqueza material, nem me induz a buscar bênçãos materiais como distintivo de espiritualidade cristã ou aprovação divina à minha vida. O argumento do Naor nesse caso foi silogístico, pois é como se tivesse dito: “se os pobres de espírito não são os pobres no sentido material, logo o Evangelho faz com que a pessoa deixe de ser pobre. Esse argumento não tem lógica, e por isso eu o chamo de argumento silogístico, lastreado que está em afirmações sem sentido.
“Sou contra a FAMOSA a afirmção:VENHA PRA JESUS ELE TE ENRIQUECERÁ..Pois Jesus nos fala para buscarmos primeiro o reino dos céus,e as demais coisas nos serão acrescentadas” [sic].
Neste item eu concordo inteiramente com o irmão Naor. Creio que a promessa de enriquecimento instantâneo, como ingrediente da Salvação, não merece maiores comentários. O argumento do Naor nesse caso é bíblico, e, por ser bíblico, anda longe da Teologia da Prosperidade.
“Jesus fala mais sobre dinheiro nos evangelhos do que outra coisa,e também fala mais sobre o inferno do que sobre o céu” [sic].
Gostaria que o jovem Naor me mostrasse como chegou a essa conclusão. Ele contou os textos em que Jesus fala de dinheiro? Contou quantas vezes Jesus fala de céu e inferno? Não entendi a relação entre falar mais em dinheiro e falar mais em inferno...O argumento do Naor nesse caso é infundado.
“A prosperidade em que acredito é a emocional,sentimental e financeira” [sic].
A afirmação de que a prosperidade abrange os aspectos emocional, sentimental e financeiro parece muito boa, se extraída, afastada do contexto da Teologia da Prosperidade. De fato, quem não admite que a prosperidade bíblica possa abarcar todos os aspectos da vida humana? Todavia, a frase, tomada isoladamente, não justifica a priorização que se faz do dinheiro, da saúde e do bem-estar. A Teologia da Prosperidade confunde prosperidade com riqueza e ausência de doenças e sofrimento. A Teologia da Prosperidade não tem piedade dos que sofrem, dos que padecem enfermidades e ficam sem cura, dos que morrem sem a solução de problemas. A prosperidade bíblica deve ser entendida como o efeito de uma vida pautada por princípios sagrados (veja o Sl 1), cumprimento das obrigações sociais, pagamento de impostos, respeito aos contratos, valorização do trabalho, esforço, busca de melhores condições de vida. Mas isso não anula a possibilidade do sofrimento, da cura que não vem, dos acidentes e incidentes, da falência, da falta de emprego ou morte na família. O argumento do Naor nesse caso é deficiente.
“O salmista afirma que nunca viu o justo mendigar o pão e Jesus também afirma que veio para dar vida e vida em abundância(em todas areas de nossas vidas)” [sic].
Aqui temos dois textos bíblicos mencionados: Sl 37.25 e Jo 10.10. Nenhum dos dois prega o evangelho da prosperidade. Quando Davi afirma que, em sua experiência de vida, jamais viu o justo mendigar o pão, nem a sua descendência padecer necessidade, ele está se referindo à providência divina, que nos livra da miséria, mas não diz que o justo não pode ser pobre (há vários exemplos bíblicos de justos que foram pobres, como a conhecida “viúva pobre”, de Lc 21.1-4, e a própria família de Jesus, como se depreende de Lc 2.21-24 c/c Lv 12.6-8). Vale dizer que pobreza é diferente de miséria. Quanto ao outro texto, de Jo 10.10, Jesus se refere à plenitude espiritual. O argumento do Naor nesse caso é hermeneuticamente errado.
“Concordo que não podemos amar ao dinheiro e a Deus ao mesmo tempo isto é pecado de cobiça e idolatria,mas creio que Deus sim levanta ministros para levar sua palavra ministrando cada um em sua area ex.cura,libertação,prosperidade etc.Claro todos com bas na Palavra” [sic].
Naor, não existe dom de ministrar prosperidade. Nenhuma lista de dons no Novo Testamento aponta para ministério de prosperidade. Pode procurar. Isso é invenção de certos pregadores norte-americanos. Pense nisso. Por mais que seja agradável ouvir promessas de cura certa e prosperidade financeira, isso não passa de “palavras fictícias” quando a palavra não procede de Deus (II Pe 2.3, na Almeida Revista e Atualizada). Jeremias enfrentou corajosamente falsos profetas que prometiam paz e prosperidade, quando Deus falava de juízo e necessidade de arrependimento (veja Jr 8.11, por exemplo). O argumento do Naor nesse caso não é bíblico.
“Eu tenho visto os frutos do ministerio do Silas Malafaia,sou contribuinte,e Deus cada vez mais tem me abençoado,tambe´m fui muito impactado com os livros de MURDOCK(esqueci como escreve o nome dele suahusahusa, por isso digo para olharmos os frutos,por que Jesus disse que uma arvore boa não produz frutos maus,e uma arvore má não produz frutos bons” [sic].
Em seu livro A Lei do Reconhecimento, Mike Murdock prega disfarçadamente preceitos próprios do Gnosticismo e do Esoterismo. A primeira frase do livro consiste em dizer que o maior problema da humanidade é a ignorância – essa afirmação é gnóstica, e, conforme a Bíblia, entendemos que o maior problema da humanidade é o pecado, pois gera a morte (Rm 3.23; 6.23, por exemplo). Quanto à lei do reconhecimento em si, associada à tal lei da semeadura financeira, não passa de preceito esotérico, como a lei da atração, no bojo das supostas leis místicas que governariam o Universo. Nada disso é bíblico, mas próximo, isto sim, da Confissão Positiva e da Nova Era.
Eu admirava muito o Pr. Silas Malafaia, que, aliás, é de minha denominação (!). Eu o admiro ainda por sua grande capacidade de expressão, articulação e conhecimento bíblico e teológico. Mas passei a discordar de seu trabalho quando ele aderiu à Teologia da Prosperidade, quando passou a discordar de si mesmo, ao defender muito daquilo que antes combatia com tanta veemência. É como se houvesse dois pastores com o nome de Silas Malafaia...
Mas o principal argumento nesse caso é relativo aos frutos, que Naor menciona tendo em vista o texto de Mt 12.33-37, com o paralelo de Lc 6.43-45. O jovem Naor diz que tem sido abençoado ao contribuir, que foi “impactado” com os livros do Mike Murdock – e eu pergunto: isso por acaso são frutos suficientes para que a Teologia da Prosperidade seja aprovada? Veja que não questiono as motivações pessoais de nenhum dos pastores citados, e, por isso, não os julgo (Mt 7.1-5). Mas avalio o conteúdo de sua mensagem, e dela discordo, porque a Bíblia é minha regra de fé e prática (veja o Sl 119 todinho, bem como II Tm 3.16,17). Devemos conferir nas Escrituras para ver se as coisas são de fato como nos dizem (At 17.11). Com relação aos diversos tipos de julgamento, leia-se, por favor, o nosso artigo, neste mesmo “blog”, sob o título “Resposta a um admirador de René Terra Nova e Cia.”
“Vidas tem sido levadas a Cristo,e em tudo o que eles tem ensinado usam como base a palavra” [sic].
Bom, não posso dizer se todas essas vidas têm sido levadas a Cristo. Não posso adentrar a mérito tão profundo, que só pertence a Deus. Mas minhas avaliações são feitas sobre o parâmetro objetivo das Escrituras, e, apoiado nelas, posso afirmar categoricamente que a Teologia da Prosperidade não tem suporte bíblico, em absoluto (veja I Tm 6.3-10; Fp 4.10-23).
“Sim vemos muitos se pertendo,e cobiçando o que não agrada a Deus,mas não posso crer em Deus que não abençoa o seu povo,vemos na biblia que Deus sempre a abençou seu povo com milagres na area financeira,e sim tem pessoa que Deus não deixa rico,por que Ele não deseja” [sic].
Deus realmente abençoa o Seu povo – mas o que é bênção para você? Confunde-se com riqueza, saúde certa, imunidade ao sofrimento? Então, precisamos explicar que Deus, sim, sempre abençoa o Seu povo, mas que o próprio sofrimento pode ser um meio de bênção, como todas as provações (veja Tg 2.1-11; I Pe 1.6-9).
“os pregadores da prosperidade são exagerados,quando falam deste assunto,mas não chegam a ser heresias,como também muitos tradicionais,só valoriza a pobreza em extremo,o certo eh o temperado:No mundo Tereis aflições,mas tende bom animo pois eu venci o mundo,como disse jesus,e Pualo que disse de tudo ter esperimentado,e saber estar bem em todas as situações” [sic].
Ora, os exageros dos pregadores da prosperidade são, sim, heresias, eis que falsos ensinos são heresias. O texto de Jo 16.33 só atesta essa afirmação.
"Meu pai é um Pr.Assembleiano,e acredito que você saiba que els são bem resistentes a esta Teologia,e ele(não que ele seja alguém importante)esta de acordo com que o Sila tem Ministrado,e temos experimentado prosperidade em nosso lar" [sic].
Infelizmente o ser assembleiano não significa mais, em todos os lugares, o combate a heresias, especialmente à Teologia da Prosperidade. Eu sei o que estou dizendo. A Teologia da Prosperidade é um câncer que se abateu sobre muitas igrejas de nosso País, o que certamente não isenta muitas Assembléias de Deus, para minha enorme tristeza e decepção, porque não foi esse o Evangelho que recebi de minha mãe e de meus amados pastores da infância e adolescência (veja I Co 15.1-3; II Tm 1.5).
“Desejo sim crescer com Cristo Alias tem somente 16 anos,e em nenhum momente te julguei por que eu disse:vamos produzir frutos,assim me incluindo também” [sic].
Finalizando, quero elogiar o irmão Naor pela sua gentileza e disposição para o diálogo. Sendo ele um adolescente de 16 anos, tem toda a vida pela frente, e espero, sinceramente, que seu crescimento em Cristo seja um testemunho a muitas pessoas. A humildade que demonstrou em seu segundo comentário, explicando com detalhes a sua posição, depõe em favor de seu bom caráter. Quero aproveitar este momento para dizer que o objetivo deste "blog" é alcançado sempre que se faz o diálogo construtivo ou a exposição de doutrinas bíblicas. No mais, todo aquele que busca pensar merece meu respeito, e foi o que o Naor fez, ainda que tenhamos grandes divergências teológicas, que nos colocam em campos bem distintos.
* Reproduzi as palavras do irmão Naor do jeito que vieram, e por isso inseri entre colchetes o termo latino "sic". Para esclarecimento a respeito, consulte-se o seguinte endereço: http://www.sualingua.com.br/04/04_sic.htm
Segue, portanto, "ipsis litteris", o comentário do irmão Naor, com as minhas considerações em seguida, na forma de tópicos:
“Alex,desculpe estava com pressa na hora de escrever.rsrs.
O Apostolo Paulo afirma que muitos pregam o evangelho por contenda,e por ganancia,mas o importante é que Jesus seja pregado.
Sou adepto da Teolgia da Prosperidade(com bases biblicas).Quando Jesus diz que o Reino dos céu é dos pobres,acredito que Ele esteja afirmando sobre pobres de Espirito,humildes etc.
Sou contra a FAMOSA a afirmção:VENHA PRA JESUS ELE TE ENRIQUECERÁ..Pois Jesus nos fala para buscarmos primeiro o reino dos céus,e as demais coisas nos serão acrescentadas.
Jesus fala mais sobre dinheiro nos evangelhos do que outra coisa,e também fala mais sobre o inferno do que sobre o céu.
A prosperidade em que acredito é a emocional,sentimental e financeira.
O salmista afirma que nunca viu o justo mendigar o pão e Jesus também afirma que veio para dar vida e vida em abundância(em todas areas de nossas vidas).
Concordo que não podemos amar ao dinheiro e a Deus ao mesmo tempo isto é pecado de cobiça e idolatria,mas creio que Deus sim levanta ministros para levar sua palavra ministrando cada um em sua area ex.cura,libertação,prosperidade etc.Claro todos com bas na Palavra.
Eu tenho visto os frutos do ministerio do Silas Malafaia,sou contribuinte,e Deus cada vez mais tem me abençoado,tambe´m fui muito impactado com os livros de MURDOCK(esqueci como escreve o nome dele suahusahusa, por isso digo para olharmos os frutos,por que Jesus disse que uma arvore boa não produz frutos maus,e uma arvore má não produz frutos bons.
Vidas tem sido levadas a Cristo,e em tudo o que eles tem ensinado usam como base a palavra.
Sim vemos muitos se pertendo,e cobiçando o que não agrada a Deus,mas não posso crer em Deus que não abençoa o seu povo,vemos na biblia que Deus sempre a abençou seu povo com milagres na area financeira,e sim tem pessoa que Deus não deixa rico,por que Ele não deseja.
os pregadores da prosperidade são exagerados,quando falam deste assunto,mas não chegam a ser heresias,como também muitos tradicionais,só valoriza a pobreza em extremo,o certo eh o temperado:No mundo Tereis aflições,mas tende bom animo pois eu venci o mundo,como disse jesus,e Pualo que disse de tudo ter esperimentado,e saber estar bem em todas as situações.
Meu pai é um Pr.Assembleiano,e acredito que você saiba que els são bem resistentes a esta Teologia,e ele(não que ele seja alguém importante)esta de acordo com que o Sila tem Ministrado,e temos experimentado prosperidade em nosso lar.
Desejo sim crescer com Cristo Alias tem somente 16 anos,e em nenhum momente te julguei por que eu disse:vamos produzir frutos,assim me incluindo também.
Jesus abençoe..
xD”.
Minha resposta, em atenção a cada proposição do irmão Naor:
“O Apostolo Paulo afirma que muitos pregam o evangelho por contenda,e por ganancia,mas o importante é que Jesus seja pregado” [sic].
Creio que o jovem Naor não quis dizer que o Pr. Silas Malafaia prega o Evangelho por contenda ou ganância, mas é razoável entender que seu emprego do texto paulino serve para tentar justificar a pregação a todo custo, como costumam fazer muitas pessoas. É mesmo recorrente usar o texto de Fp 1.15-18 para dizer que vale tudo em nome da propagação do Evangelho, como se Paulo estivesse aprovando o pragmatismo, o evangelho de resultados, dos fins que justificam os meios, à moda de Maquiavel. Mas o texto paulino não diz isso. Se observarmos com atenção toda a passagem de Fp 1.12-26, veremos que Paulo se refere a motivações errôneas, e não a conteúdo errôneo. Paulo jamais vendeu doutrinas e princípios cristãos. O que ele diz é que alguns pregam com sentimentos de inveja, fingimento e porfia, e não que seja válido pregar evangelho adulterado, porque ele mesmo, o apóstolo Paulo, disse que não se poderia aceitar outro evangelho (veja Gl 1.6-9, por exemplo). Em suma: se alguns pregam o Evangelho de Cristo, mas por motivações equivocadas, o importante é que o nome de Jesus seja anunciado, sabendo, por outro lado, que cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus, e isso não é brincadeira, conforme II Co 5.10. Paulo nunca aprovaria a pregação de evangelho diferente! Creio que está claro assim. O argumento do Naor nesse caso foi pragmático.
“Sou adepto da Teolgia da Prosperidade(com bases biblicas).Quando Jesus diz que o Reino dos céu é dos pobres,acredito que Ele esteja afirmando sobre pobres de Espirito,humildes etc” [sic].
Gosto da sinceridade do irmão Naor: reconhece ser adepto da Teologia da Prosperidade. Mas há uma contradição, pois a Teologia da Prosperidade, ligada que é à Confissão Positiva, não tem as “bases bíblicas” referidas pelo irmão Naor. Concordo com a proposição de que os “pobres” são os “pobres de espírito”, os humildes, os que se enxergam como pecadores, os pequeninos, conforme Mt 5.3 e 11.25. Também creio que a “opção pelos pobres”, ensinada pela Igreja Romana, está fundamentada em bases erradas. No entanto, uma coisa não sustenta a outra. Dito de outro modo: o fato de eu crer que a Salvação se dirige a pobres e ricos não faz com que eu acredite que a prosperidade seja o mesmo que riqueza material, nem me induz a buscar bênçãos materiais como distintivo de espiritualidade cristã ou aprovação divina à minha vida. O argumento do Naor nesse caso foi silogístico, pois é como se tivesse dito: “se os pobres de espírito não são os pobres no sentido material, logo o Evangelho faz com que a pessoa deixe de ser pobre. Esse argumento não tem lógica, e por isso eu o chamo de argumento silogístico, lastreado que está em afirmações sem sentido.
“Sou contra a FAMOSA a afirmção:VENHA PRA JESUS ELE TE ENRIQUECERÁ..Pois Jesus nos fala para buscarmos primeiro o reino dos céus,e as demais coisas nos serão acrescentadas” [sic].
Neste item eu concordo inteiramente com o irmão Naor. Creio que a promessa de enriquecimento instantâneo, como ingrediente da Salvação, não merece maiores comentários. O argumento do Naor nesse caso é bíblico, e, por ser bíblico, anda longe da Teologia da Prosperidade.
“Jesus fala mais sobre dinheiro nos evangelhos do que outra coisa,e também fala mais sobre o inferno do que sobre o céu” [sic].
Gostaria que o jovem Naor me mostrasse como chegou a essa conclusão. Ele contou os textos em que Jesus fala de dinheiro? Contou quantas vezes Jesus fala de céu e inferno? Não entendi a relação entre falar mais em dinheiro e falar mais em inferno...O argumento do Naor nesse caso é infundado.
“A prosperidade em que acredito é a emocional,sentimental e financeira” [sic].
A afirmação de que a prosperidade abrange os aspectos emocional, sentimental e financeiro parece muito boa, se extraída, afastada do contexto da Teologia da Prosperidade. De fato, quem não admite que a prosperidade bíblica possa abarcar todos os aspectos da vida humana? Todavia, a frase, tomada isoladamente, não justifica a priorização que se faz do dinheiro, da saúde e do bem-estar. A Teologia da Prosperidade confunde prosperidade com riqueza e ausência de doenças e sofrimento. A Teologia da Prosperidade não tem piedade dos que sofrem, dos que padecem enfermidades e ficam sem cura, dos que morrem sem a solução de problemas. A prosperidade bíblica deve ser entendida como o efeito de uma vida pautada por princípios sagrados (veja o Sl 1), cumprimento das obrigações sociais, pagamento de impostos, respeito aos contratos, valorização do trabalho, esforço, busca de melhores condições de vida. Mas isso não anula a possibilidade do sofrimento, da cura que não vem, dos acidentes e incidentes, da falência, da falta de emprego ou morte na família. O argumento do Naor nesse caso é deficiente.
“O salmista afirma que nunca viu o justo mendigar o pão e Jesus também afirma que veio para dar vida e vida em abundância(em todas areas de nossas vidas)” [sic].
Aqui temos dois textos bíblicos mencionados: Sl 37.25 e Jo 10.10. Nenhum dos dois prega o evangelho da prosperidade. Quando Davi afirma que, em sua experiência de vida, jamais viu o justo mendigar o pão, nem a sua descendência padecer necessidade, ele está se referindo à providência divina, que nos livra da miséria, mas não diz que o justo não pode ser pobre (há vários exemplos bíblicos de justos que foram pobres, como a conhecida “viúva pobre”, de Lc 21.1-4, e a própria família de Jesus, como se depreende de Lc 2.21-24 c/c Lv 12.6-8). Vale dizer que pobreza é diferente de miséria. Quanto ao outro texto, de Jo 10.10, Jesus se refere à plenitude espiritual. O argumento do Naor nesse caso é hermeneuticamente errado.
“Concordo que não podemos amar ao dinheiro e a Deus ao mesmo tempo isto é pecado de cobiça e idolatria,mas creio que Deus sim levanta ministros para levar sua palavra ministrando cada um em sua area ex.cura,libertação,prosperidade etc.Claro todos com bas na Palavra” [sic].
Naor, não existe dom de ministrar prosperidade. Nenhuma lista de dons no Novo Testamento aponta para ministério de prosperidade. Pode procurar. Isso é invenção de certos pregadores norte-americanos. Pense nisso. Por mais que seja agradável ouvir promessas de cura certa e prosperidade financeira, isso não passa de “palavras fictícias” quando a palavra não procede de Deus (II Pe 2.3, na Almeida Revista e Atualizada). Jeremias enfrentou corajosamente falsos profetas que prometiam paz e prosperidade, quando Deus falava de juízo e necessidade de arrependimento (veja Jr 8.11, por exemplo). O argumento do Naor nesse caso não é bíblico.
“Eu tenho visto os frutos do ministerio do Silas Malafaia,sou contribuinte,e Deus cada vez mais tem me abençoado,tambe´m fui muito impactado com os livros de MURDOCK(esqueci como escreve o nome dele suahusahusa, por isso digo para olharmos os frutos,por que Jesus disse que uma arvore boa não produz frutos maus,e uma arvore má não produz frutos bons” [sic].
Em seu livro A Lei do Reconhecimento, Mike Murdock prega disfarçadamente preceitos próprios do Gnosticismo e do Esoterismo. A primeira frase do livro consiste em dizer que o maior problema da humanidade é a ignorância – essa afirmação é gnóstica, e, conforme a Bíblia, entendemos que o maior problema da humanidade é o pecado, pois gera a morte (Rm 3.23; 6.23, por exemplo). Quanto à lei do reconhecimento em si, associada à tal lei da semeadura financeira, não passa de preceito esotérico, como a lei da atração, no bojo das supostas leis místicas que governariam o Universo. Nada disso é bíblico, mas próximo, isto sim, da Confissão Positiva e da Nova Era.
Eu admirava muito o Pr. Silas Malafaia, que, aliás, é de minha denominação (!). Eu o admiro ainda por sua grande capacidade de expressão, articulação e conhecimento bíblico e teológico. Mas passei a discordar de seu trabalho quando ele aderiu à Teologia da Prosperidade, quando passou a discordar de si mesmo, ao defender muito daquilo que antes combatia com tanta veemência. É como se houvesse dois pastores com o nome de Silas Malafaia...
Mas o principal argumento nesse caso é relativo aos frutos, que Naor menciona tendo em vista o texto de Mt 12.33-37, com o paralelo de Lc 6.43-45. O jovem Naor diz que tem sido abençoado ao contribuir, que foi “impactado” com os livros do Mike Murdock – e eu pergunto: isso por acaso são frutos suficientes para que a Teologia da Prosperidade seja aprovada? Veja que não questiono as motivações pessoais de nenhum dos pastores citados, e, por isso, não os julgo (Mt 7.1-5). Mas avalio o conteúdo de sua mensagem, e dela discordo, porque a Bíblia é minha regra de fé e prática (veja o Sl 119 todinho, bem como II Tm 3.16,17). Devemos conferir nas Escrituras para ver se as coisas são de fato como nos dizem (At 17.11). Com relação aos diversos tipos de julgamento, leia-se, por favor, o nosso artigo, neste mesmo “blog”, sob o título “Resposta a um admirador de René Terra Nova e Cia.”
“Vidas tem sido levadas a Cristo,e em tudo o que eles tem ensinado usam como base a palavra” [sic].
Bom, não posso dizer se todas essas vidas têm sido levadas a Cristo. Não posso adentrar a mérito tão profundo, que só pertence a Deus. Mas minhas avaliações são feitas sobre o parâmetro objetivo das Escrituras, e, apoiado nelas, posso afirmar categoricamente que a Teologia da Prosperidade não tem suporte bíblico, em absoluto (veja I Tm 6.3-10; Fp 4.10-23).
“Sim vemos muitos se pertendo,e cobiçando o que não agrada a Deus,mas não posso crer em Deus que não abençoa o seu povo,vemos na biblia que Deus sempre a abençou seu povo com milagres na area financeira,e sim tem pessoa que Deus não deixa rico,por que Ele não deseja” [sic].
Deus realmente abençoa o Seu povo – mas o que é bênção para você? Confunde-se com riqueza, saúde certa, imunidade ao sofrimento? Então, precisamos explicar que Deus, sim, sempre abençoa o Seu povo, mas que o próprio sofrimento pode ser um meio de bênção, como todas as provações (veja Tg 2.1-11; I Pe 1.6-9).
“os pregadores da prosperidade são exagerados,quando falam deste assunto,mas não chegam a ser heresias,como também muitos tradicionais,só valoriza a pobreza em extremo,o certo eh o temperado:No mundo Tereis aflições,mas tende bom animo pois eu venci o mundo,como disse jesus,e Pualo que disse de tudo ter esperimentado,e saber estar bem em todas as situações” [sic].
Ora, os exageros dos pregadores da prosperidade são, sim, heresias, eis que falsos ensinos são heresias. O texto de Jo 16.33 só atesta essa afirmação.
"Meu pai é um Pr.Assembleiano,e acredito que você saiba que els são bem resistentes a esta Teologia,e ele(não que ele seja alguém importante)esta de acordo com que o Sila tem Ministrado,e temos experimentado prosperidade em nosso lar" [sic].
Infelizmente o ser assembleiano não significa mais, em todos os lugares, o combate a heresias, especialmente à Teologia da Prosperidade. Eu sei o que estou dizendo. A Teologia da Prosperidade é um câncer que se abateu sobre muitas igrejas de nosso País, o que certamente não isenta muitas Assembléias de Deus, para minha enorme tristeza e decepção, porque não foi esse o Evangelho que recebi de minha mãe e de meus amados pastores da infância e adolescência (veja I Co 15.1-3; II Tm 1.5).
“Desejo sim crescer com Cristo Alias tem somente 16 anos,e em nenhum momente te julguei por que eu disse:vamos produzir frutos,assim me incluindo também” [sic].
Finalizando, quero elogiar o irmão Naor pela sua gentileza e disposição para o diálogo. Sendo ele um adolescente de 16 anos, tem toda a vida pela frente, e espero, sinceramente, que seu crescimento em Cristo seja um testemunho a muitas pessoas. A humildade que demonstrou em seu segundo comentário, explicando com detalhes a sua posição, depõe em favor de seu bom caráter. Quero aproveitar este momento para dizer que o objetivo deste "blog" é alcançado sempre que se faz o diálogo construtivo ou a exposição de doutrinas bíblicas. No mais, todo aquele que busca pensar merece meu respeito, e foi o que o Naor fez, ainda que tenhamos grandes divergências teológicas, que nos colocam em campos bem distintos.
* Reproduzi as palavras do irmão Naor do jeito que vieram, e por isso inseri entre colchetes o termo latino "sic". Para esclarecimento a respeito, consulte-se o seguinte endereço: http://www.sualingua.com.br/04/04_sic.htm
Só uma nota rápida - de outras que certamente virão!
Quem quiser entender por que escrevi textos como "Minha vida de blogueiro" e "Por que não faço parte do ministério da crítica", dentre outros, leia por favor comentários de leitores aos textos "Silas Malafaia fala de sua relação com René Terra Nova" e "Silas Malafaia e a 'Conferência Profética Passando o Manto'". Inserindo um desses nomes na ferramenta de busca do próprio "blog", o senhor ou a senhora verá automaticamente onde estão esses artigos.
Estou ficando cansado de ver como tem gente que pensa pequeno nos arraiais que se dizem evangélicos. É cansativo ter que ensinar a leitores desavisados algumas coisas que são basilares. É cansativo, e parece até que estou aqui para fazer defesas pessoais, como de certo modo imaginou um respeitável leitor chamado Lavrador. Não, eu não estou aqui para destilar demasiados pronomes pessoais do caso reto, na primeira pessoal do singular, mas minha própria consciência e honra demandam defesas pessoais quando leitores acostumados a bajular pregadores de renome vêm aqui me atacar. E aos leitores que me aborrecem: se quiserem, fiquem nos seus mundos, e me deixem trabalhar, pois tenho muito, muito o que fazer. Mas, se porventura querem construir algo realmente sólido, leiam mais a Bíblia, procurem boa literatura - que não seja de auto-ajuda -, e depois venham aqui conversar comigo, pois terei muito prazer em dialogar em atitude de respeito, mesmo que com divergências, desde que bem fundamentadas.
Estou ficando cansado de ver como tem gente que pensa pequeno nos arraiais que se dizem evangélicos. É cansativo ter que ensinar a leitores desavisados algumas coisas que são basilares. É cansativo, e parece até que estou aqui para fazer defesas pessoais, como de certo modo imaginou um respeitável leitor chamado Lavrador. Não, eu não estou aqui para destilar demasiados pronomes pessoais do caso reto, na primeira pessoal do singular, mas minha própria consciência e honra demandam defesas pessoais quando leitores acostumados a bajular pregadores de renome vêm aqui me atacar. E aos leitores que me aborrecem: se quiserem, fiquem nos seus mundos, e me deixem trabalhar, pois tenho muito, muito o que fazer. Mas, se porventura querem construir algo realmente sólido, leiam mais a Bíblia, procurem boa literatura - que não seja de auto-ajuda -, e depois venham aqui conversar comigo, pois terei muito prazer em dialogar em atitude de respeito, mesmo que com divergências, desde que bem fundamentadas.
Domingo, 23 de Novembro de 2008
Por que não faço parte do "ministério da crítica"
Certa vez minha esposa proferiu uma frase que considerei muito interessante, sendo mais ou menos assim: "Parece que tem pessoas que exercem o ministério da crítica". Ela tem razão: existem pessoas que constroem carreira à base de criticar opiniões e posturas alheias, mas sem fornecer uma contribuição positiva ao mundo.
Ela não estava se referindo aos críticos de cinema, de música nem de literatura - embora haja quem defenda a tese de que um crítico é um artista frustrado...Mas, pelo que lembro, ela se referiu aos crentes que vivem de criticar, e só.
Considerando alguns comentários que recebi por causa deste "blog", e que menciono no texto "Minha vida de blogueiro", fiquei pensando se eu sou um membro do tal "ministério da crítica", se estou baseando meu trabalho cristão na crítica aos outros, sem fazer nada - porque essa é uma acusação que já me fizeram aqui.
Por causa de comentários dessa natureza, já fiz outros textos neste "blog", ou comentários a comentários de leitores. Tenho por objetivo neste "blog" mostrar que a fé cristã tem que ver com raciocínio; que devemos ser como os crentes de Beréia, analisando tudo o que se nos é apresentado(At 17.11); que não podemos aceitar tudo o que se diz "evangélico" só porque alguém disse que é bom; que minha cabeça foi feita para funcionar; que profetas e apóstolos enfrentaram duramente heresias e heréticos, como falsos profetas e falsos apóstolos; que é necessário conhecermos as doutrinas fundamentais da Fé Cristã; que devemos nos afastar de influências como o Gnosticismo, Esoterismo e Religiões Orientais, que andam se apossando até mesmo de mentes de cristãos históricos!
Entendo que a redação destes textos é importante, mas não exclusiva. Há muitas outras vozes ortodoxas, e bem mais fundamentadas do que a minha. Apenas creio que cada um deve cumprir o seu chamado. Se eu fui chamado para ensinar, escrevendo ou falando, e se estou vendo que heresias e modismos têm marcado o suposto "crescimento evangélico" no Brasil, por que irei me calar? Não, eu não me calo, e nem por isso devo ser considerado o último dos profetas, um pequeno messias, um herói incompreendido. Sou cristão histórico e pronto, com o adjetivo de pentecostal porque sou membro da Assembléia de Deus. Mas não exerço pura e simplesmente a pena contundente da crítica, já que escrevo sobre doutrinas e textos bíblicos também.
O que acontece é que hoje está-se criando um abismo entre os evangélicos históricos e os evangélicos das diversas ondas que o Bispo Robinson Cavalcanti tem chamado acertadamente de grupos "pseudopentecostais". Somos muito diferentes mesmo! E depois querem que eu não critique?
Veja só como não posso aderir a esse "oba-oba" de certas igrejas e comunidades tupiniquins ou importadas:
a) Não creio em direitos em face de Deus: tudo que tenho e sou decorre da Graça. Por isso não posso reivindicar nada diante de meu SENHOR, tampouco exigir restituição, determinar, decretar, tomar posse, visualizar a bênção;
b) Não creio que a igreja deva priorizar templos suntuosos, mas as pessoas;
c) Entendo que o novo nascimento é algo que deve ser ensinado com insistência, assim como todas as doutrinas fundamentais do Evangelho de Cristo;
d) Estou certo de que a Revelação cessou, estando plenamente contida no Antigo e Novo Testamento;
e) Estou certo de que o Novo Testamento é espelho e cumprimento do Antigo;
f) Não me emociono com pregações sensacionalistas, de auto-ajuda, teatrais e alegóricas;
g) Estudo a Bíblia usando a cabeça e a fé;
h) Valorizo a teologia porque estudar não é pecado, mas ferramenta dada pelo próprio Deus para o conhecimento e edificação;
g) Entendo que não posso ser medido pelo que faço ou deixo de fazer, mas pelo fruto, que é questão de caráter;
h) Tenho total desconfiança de projetos eclesiásticos erigidos sobre líderes centralizadores;
i) Corro de alianças entre igrejas e políticos, e tenho profunda tristeza quanto aos políticos que se aproveitam de serem evangélicos;
j) Não aceito de modo nenhum a confissão positiva porque ela é de origem pagã, hindu;
l) Não me satisfaço com argumentos do tipo: "Você pensa assim porque não crê". E respondo: "Você crê assim porque não pensa".
m) Tenho convicção de que a Bíblia não pode ser interpretada como uma colcha de retalhos, um baú de talismãs, uma caixinha de promessas - a Bíblia tem princípios, histórias concatenadas, normas de conduta, critérios intrínsecos de interpretação, não podendo ser lida ao bel-talante do individuo;
n) O fato de eu não ser pastor não me impede de escrever isso, pois sou sacerdote. Se não sabe por quê, leia I Pe 2.9;
o) Finalmente, tenho liberdade para escrever o que penso porque sou independente. Sou membro de igreja, que frequento regularmente, sou até professor de escola dominical, mas minha independência mora em minha consciência, e é por isso que sou um homem livre.
Agora, eventual leitor, se você ainda supõe que não contribuo para o Reino de Deus, devo entender que você precisa conhecer ainda os rudimentos da Fé, que aqui procuro defender, enquanto muitos desconhecem e distorcem.
E, por fim, devo dizer que existem muitos dons, mas não o de criar e ensinar heresias, assim como não existe na Bíblia o ministério da crítica. O que existe é a necessidade de obedecer à Palavra de Deus, porque Jesus Cristo, enfim, é a Palavra (Jo 1.1-3).
Ela não estava se referindo aos críticos de cinema, de música nem de literatura - embora haja quem defenda a tese de que um crítico é um artista frustrado...Mas, pelo que lembro, ela se referiu aos crentes que vivem de criticar, e só.
Considerando alguns comentários que recebi por causa deste "blog", e que menciono no texto "Minha vida de blogueiro", fiquei pensando se eu sou um membro do tal "ministério da crítica", se estou baseando meu trabalho cristão na crítica aos outros, sem fazer nada - porque essa é uma acusação que já me fizeram aqui.
Por causa de comentários dessa natureza, já fiz outros textos neste "blog", ou comentários a comentários de leitores. Tenho por objetivo neste "blog" mostrar que a fé cristã tem que ver com raciocínio; que devemos ser como os crentes de Beréia, analisando tudo o que se nos é apresentado(At 17.11); que não podemos aceitar tudo o que se diz "evangélico" só porque alguém disse que é bom; que minha cabeça foi feita para funcionar; que profetas e apóstolos enfrentaram duramente heresias e heréticos, como falsos profetas e falsos apóstolos; que é necessário conhecermos as doutrinas fundamentais da Fé Cristã; que devemos nos afastar de influências como o Gnosticismo, Esoterismo e Religiões Orientais, que andam se apossando até mesmo de mentes de cristãos históricos!
Entendo que a redação destes textos é importante, mas não exclusiva. Há muitas outras vozes ortodoxas, e bem mais fundamentadas do que a minha. Apenas creio que cada um deve cumprir o seu chamado. Se eu fui chamado para ensinar, escrevendo ou falando, e se estou vendo que heresias e modismos têm marcado o suposto "crescimento evangélico" no Brasil, por que irei me calar? Não, eu não me calo, e nem por isso devo ser considerado o último dos profetas, um pequeno messias, um herói incompreendido. Sou cristão histórico e pronto, com o adjetivo de pentecostal porque sou membro da Assembléia de Deus. Mas não exerço pura e simplesmente a pena contundente da crítica, já que escrevo sobre doutrinas e textos bíblicos também.
O que acontece é que hoje está-se criando um abismo entre os evangélicos históricos e os evangélicos das diversas ondas que o Bispo Robinson Cavalcanti tem chamado acertadamente de grupos "pseudopentecostais". Somos muito diferentes mesmo! E depois querem que eu não critique?
Veja só como não posso aderir a esse "oba-oba" de certas igrejas e comunidades tupiniquins ou importadas:
a) Não creio em direitos em face de Deus: tudo que tenho e sou decorre da Graça. Por isso não posso reivindicar nada diante de meu SENHOR, tampouco exigir restituição, determinar, decretar, tomar posse, visualizar a bênção;
b) Não creio que a igreja deva priorizar templos suntuosos, mas as pessoas;
c) Entendo que o novo nascimento é algo que deve ser ensinado com insistência, assim como todas as doutrinas fundamentais do Evangelho de Cristo;
d) Estou certo de que a Revelação cessou, estando plenamente contida no Antigo e Novo Testamento;
e) Estou certo de que o Novo Testamento é espelho e cumprimento do Antigo;
f) Não me emociono com pregações sensacionalistas, de auto-ajuda, teatrais e alegóricas;
g) Estudo a Bíblia usando a cabeça e a fé;
h) Valorizo a teologia porque estudar não é pecado, mas ferramenta dada pelo próprio Deus para o conhecimento e edificação;
g) Entendo que não posso ser medido pelo que faço ou deixo de fazer, mas pelo fruto, que é questão de caráter;
h) Tenho total desconfiança de projetos eclesiásticos erigidos sobre líderes centralizadores;
i) Corro de alianças entre igrejas e políticos, e tenho profunda tristeza quanto aos políticos que se aproveitam de serem evangélicos;
j) Não aceito de modo nenhum a confissão positiva porque ela é de origem pagã, hindu;
l) Não me satisfaço com argumentos do tipo: "Você pensa assim porque não crê". E respondo: "Você crê assim porque não pensa".
m) Tenho convicção de que a Bíblia não pode ser interpretada como uma colcha de retalhos, um baú de talismãs, uma caixinha de promessas - a Bíblia tem princípios, histórias concatenadas, normas de conduta, critérios intrínsecos de interpretação, não podendo ser lida ao bel-talante do individuo;
n) O fato de eu não ser pastor não me impede de escrever isso, pois sou sacerdote. Se não sabe por quê, leia I Pe 2.9;
o) Finalmente, tenho liberdade para escrever o que penso porque sou independente. Sou membro de igreja, que frequento regularmente, sou até professor de escola dominical, mas minha independência mora em minha consciência, e é por isso que sou um homem livre.
Agora, eventual leitor, se você ainda supõe que não contribuo para o Reino de Deus, devo entender que você precisa conhecer ainda os rudimentos da Fé, que aqui procuro defender, enquanto muitos desconhecem e distorcem.
E, por fim, devo dizer que existem muitos dons, mas não o de criar e ensinar heresias, assim como não existe na Bíblia o ministério da crítica. O que existe é a necessidade de obedecer à Palavra de Deus, porque Jesus Cristo, enfim, é a Palavra (Jo 1.1-3).
Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
Minha vida de blogueiro
Sou um blogueiro cristão evangélico desde janeiro deste ano. De lá para cá, inseri mais de 400 postagens, entre artigos teológicos, poemas, aforismos, desabafos e comentários gerais sobre cultura, política e comportamento. Dentre os poucos leitores, já que sou desconhecido, recebi elogios por meio de mensagens eletrônicas, comentários no próprio "blog" ou pessoalmente. Também recebi críticas ácidas, geralmente anônimas, a maioria delas relacionadas aos textos "Silas Malafaia e a Conferência Profética Passando o Manto" e "Silas Malafaia fala de sua relação com René Terra Nova".
Devo admitir que até me sinto importante quando leitores que não conheço fazem comentários contra mim. Isso quer dizer que eu de alguma forma lhes comuniquei o meu pensamento, embora eles nem sempre tenham realmente compreendido minha motivação ou a própria postagem.
De fato, já me disseram que não tenho discernimento, que preciso me aprofundar em Deus, que serei cobrado por não obedecer à Palavra, e indagaram acerca de minha contribuição para o Reino, se estou ganhando almas, discipulando...Os textos são tão parecidos que me levam a pensar em duas alternativas: ou esse anônimo é uma só e mesma pessoa ou existe um punhado de irmãos dispostos a defender com unhas e dentes as práticas heréticas de crescimento de igreja, sendo, portanto, pragmáticos.
A propósito, se o (a) leitor (a) vem acompanhando este "blog", deve ter notado que nossa enquete derradeira desapareceu. Explico: eu perguntava se crescimento numérico, dinheiro e espaço na mídia demonstram a aprovação divina à pregação de uma igreja. A votação já havia alcançado dezenas de pessoas, mas eu, por um lapso, na tentativa de aperfeiçoar o "blog", fiz a enquete desaparecer, assim como algumas fotos, o selo da União de Blogueiros Evangélicos e outras coisas... Mas fiquei feliz por saber que cerca de 86% dos leitores que votaram não pensam que aqueles itens demonstram a aprovação divina à pregação de uma igreja, justamente porque acreditar no contrário é ser pragmático, e o pragmatismo não é bom. Dito de outro modo: não são os resultados aparentemente positivos que a Bíblia exalta como critério de verdade absoluta. O único critério de verdade absoluta é a Palavra de Deus!
Mas eu estou aqui tratando de minha vida de blogueiro. Ora, o blogueiro, via de regra, é, a meu ver, uma pessoa desconhecida que gosta de expressar opiniões ou dados de seu cotidiano. E isso é engraçado, porque a gente acaba se expondo às ferramentas de busca, como as do Google, e vem a ser encontrado por pessoas distantes ou próximas, as quais concordam ou discordam de nossas idéias e/ou estilo. Isso faz com que anônimos se tornem, em maior ou menor grau, celebridades pardas, dependendo da gama de acessos ao seu blog.
Sendo eu um simples servo de Deus, trabalhador, professor de Escola Dominical, mas desejoso de aprender e de produzir conhecimento bíblico, fico me sentindo quase que vocacionado à tal “blogosfera”. Talvez descubram afinal que os blogueiros são pessoas com um ego enorme. Talvez descubram que a maioria de nós só se expressa em "blogs" porque não tem espaço em suas igrejas. Mas não penso ser isso o que me conduz a manter o meu "blog". Não quero sucumbir à tentação do egocentrismo nem me reunir aos isolacionistas. Estou blogueiro porque essa é uma das ferramentas mais ágeis de comunicação que pode existir em nossos dias – e, mais do que isso, é gratuita!
Houve um leitor (ou leitora) que fez uma crítica que, em parte, tem um caráter elogioso: disse, entre outras coisas, que eu não deveria (como é que foi mesmo?) me exaltar, não sei se foi essa a palavra, mas que eu não deveria ficar lastreado em minha “intelectualidade”. E eu nunca disse que sou intelectual, e sei que não sou. Só que essa pessoa foi longe demais: querendo usar base bíblica, fez comparação entre Pedro e Judas Iscariotes, perguntando qual deles, afinal, era o intelectual. Ora, para bom entendedor, essa pessoa quis dizer que sou um traidor de Jesus..., já que, antes disso, supôs que tanto eu como Judas éramos intelectuais, e não me consta que nem um nem outro o tenham sido alguma vez na vida.
Essa é a minha vida de blogueiro. Sem querer ser pouco modesto, observo que esses irmãos que ficam chateados comigo não utilizam o conteúdo bíblico que eventualmente possuam. Suas críticas são pragmáticas e vazias, sequer tangenciam o mérito das questões, mas se limitam a defender seus admirados. E com isso reforçam minhas idéias no sentido de que o propalado crescimento numérico da Igreja brasileira é verdadeiro inchaço, acompanhado de heresias e de uma cosmovisão tosca. Desafio-lhes a me retrucar! Digam em que se fundamenta a tese de que vale tudo para supostamente ganhar almas para Cristo! Essa tese não é maquiavélica?
Estou atualmente com dificuldade de atualizar todos os dias o meu "blog" - também descobrimos que a rua em que passamos a morar não é servida de Internet!!! Mas não quero ser vencido pelo tempo nem pelo cansaço. Quero continuar nesse propósito - porque o famoso Rick Warren não patenteou a palavra “propósito”...
Enfim, sou um blogueiro com propósito, mas meu propósito não é outro senão o de ajudar o povo de Deus a pensar a Fé. Esse é meu chamado, essa é a minha missão. Para isso fui vocacionado por Deus, não tenho nenhuma dúvida quanto a esse aspecto de minha vocação. Se me quiserem ouvir ou ler, que bom! Mas se não quiserem, e se me virarem as costas, ficarei triste, mas firme. Porque não quero arredar o pé daquilo para o que fui chamado. Não posso negar a mim mesmo.
Devo admitir que até me sinto importante quando leitores que não conheço fazem comentários contra mim. Isso quer dizer que eu de alguma forma lhes comuniquei o meu pensamento, embora eles nem sempre tenham realmente compreendido minha motivação ou a própria postagem.
De fato, já me disseram que não tenho discernimento, que preciso me aprofundar em Deus, que serei cobrado por não obedecer à Palavra, e indagaram acerca de minha contribuição para o Reino, se estou ganhando almas, discipulando...Os textos são tão parecidos que me levam a pensar em duas alternativas: ou esse anônimo é uma só e mesma pessoa ou existe um punhado de irmãos dispostos a defender com unhas e dentes as práticas heréticas de crescimento de igreja, sendo, portanto, pragmáticos.
A propósito, se o (a) leitor (a) vem acompanhando este "blog", deve ter notado que nossa enquete derradeira desapareceu. Explico: eu perguntava se crescimento numérico, dinheiro e espaço na mídia demonstram a aprovação divina à pregação de uma igreja. A votação já havia alcançado dezenas de pessoas, mas eu, por um lapso, na tentativa de aperfeiçoar o "blog", fiz a enquete desaparecer, assim como algumas fotos, o selo da União de Blogueiros Evangélicos e outras coisas... Mas fiquei feliz por saber que cerca de 86% dos leitores que votaram não pensam que aqueles itens demonstram a aprovação divina à pregação de uma igreja, justamente porque acreditar no contrário é ser pragmático, e o pragmatismo não é bom. Dito de outro modo: não são os resultados aparentemente positivos que a Bíblia exalta como critério de verdade absoluta. O único critério de verdade absoluta é a Palavra de Deus!
Mas eu estou aqui tratando de minha vida de blogueiro. Ora, o blogueiro, via de regra, é, a meu ver, uma pessoa desconhecida que gosta de expressar opiniões ou dados de seu cotidiano. E isso é engraçado, porque a gente acaba se expondo às ferramentas de busca, como as do Google, e vem a ser encontrado por pessoas distantes ou próximas, as quais concordam ou discordam de nossas idéias e/ou estilo. Isso faz com que anônimos se tornem, em maior ou menor grau, celebridades pardas, dependendo da gama de acessos ao seu blog.
Sendo eu um simples servo de Deus, trabalhador, professor de Escola Dominical, mas desejoso de aprender e de produzir conhecimento bíblico, fico me sentindo quase que vocacionado à tal “blogosfera”. Talvez descubram afinal que os blogueiros são pessoas com um ego enorme. Talvez descubram que a maioria de nós só se expressa em "blogs" porque não tem espaço em suas igrejas. Mas não penso ser isso o que me conduz a manter o meu "blog". Não quero sucumbir à tentação do egocentrismo nem me reunir aos isolacionistas. Estou blogueiro porque essa é uma das ferramentas mais ágeis de comunicação que pode existir em nossos dias – e, mais do que isso, é gratuita!
Houve um leitor (ou leitora) que fez uma crítica que, em parte, tem um caráter elogioso: disse, entre outras coisas, que eu não deveria (como é que foi mesmo?) me exaltar, não sei se foi essa a palavra, mas que eu não deveria ficar lastreado em minha “intelectualidade”. E eu nunca disse que sou intelectual, e sei que não sou. Só que essa pessoa foi longe demais: querendo usar base bíblica, fez comparação entre Pedro e Judas Iscariotes, perguntando qual deles, afinal, era o intelectual. Ora, para bom entendedor, essa pessoa quis dizer que sou um traidor de Jesus..., já que, antes disso, supôs que tanto eu como Judas éramos intelectuais, e não me consta que nem um nem outro o tenham sido alguma vez na vida.
Essa é a minha vida de blogueiro. Sem querer ser pouco modesto, observo que esses irmãos que ficam chateados comigo não utilizam o conteúdo bíblico que eventualmente possuam. Suas críticas são pragmáticas e vazias, sequer tangenciam o mérito das questões, mas se limitam a defender seus admirados. E com isso reforçam minhas idéias no sentido de que o propalado crescimento numérico da Igreja brasileira é verdadeiro inchaço, acompanhado de heresias e de uma cosmovisão tosca. Desafio-lhes a me retrucar! Digam em que se fundamenta a tese de que vale tudo para supostamente ganhar almas para Cristo! Essa tese não é maquiavélica?
Estou atualmente com dificuldade de atualizar todos os dias o meu "blog" - também descobrimos que a rua em que passamos a morar não é servida de Internet!!! Mas não quero ser vencido pelo tempo nem pelo cansaço. Quero continuar nesse propósito - porque o famoso Rick Warren não patenteou a palavra “propósito”...
Enfim, sou um blogueiro com propósito, mas meu propósito não é outro senão o de ajudar o povo de Deus a pensar a Fé. Esse é meu chamado, essa é a minha missão. Para isso fui vocacionado por Deus, não tenho nenhuma dúvida quanto a esse aspecto de minha vocação. Se me quiserem ouvir ou ler, que bom! Mas se não quiserem, e se me virarem as costas, ficarei triste, mas firme. Porque não quero arredar o pé daquilo para o que fui chamado. Não posso negar a mim mesmo.
Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008
Salvador, tu precisas do Salvador!
No aeroporto que leva o nome do falecido filho do também falecido Antônio Carlos Magalhães, eu, minha esposa e minha filha, assim como todos os demais passageiros, fomos recepcionados por um grupo de "baianas" que saculejavam ao som ritmado que certamente embala sessões de candomblé e congêneres nos muitos terreiros da Cidade. Não gostei nada disso. Esperava chegar sem essa estranha recepção, e sei que, se isso for pago pelo dinheiro público, fico deveras indignado, porque o Estado brasileiro é laico.
É necessário distinguir baianidade, afrodescendência e religiões afro-brasileiras. Baianidade - arrisco-me a definir - seria um traço cultural que mistura alegria, simpatia e acolhimento. Afrodescendência, em minha opinião, não poderia ser designação apenas dos oriundos da África Subsaariana, porque há uma África que não é negra (algo que ouvi certa vez do meu professor Ivan Gonçalves, e que faz muito sentido).
Quanto às religiões afro-brasileiras, não posso aceitá-las como elemento cultural e folclórico porque contrariam a Palavra de Deus, adoram a vários deuses, praticam fetichismo, crêem no animismo, fazem despachos para prejudicar pessoas, tratam com o obscuro mundo da feitiçaria. Não posso chamar isso de simples cultura, pois é, de fato, religião, e, em se tratando de religião, devemos ter sempre em mente que o Estado é laico, e que Cristo é o exclusivo SENHOR.
Com efeito, não se pode confundir cultura e religião, sob pena de se alimentarem preconceitos e medidas políticas que favorecem a desigualdade. Aliás, nesse mundo que exalta o tal pluralismo, só não há espaço para idéias fundamentadas na Bíblia. Para nós cristãos evangélicos, eles negam o pluralismo, o direito de expressão. Isso demonstra que o pluralismo é uma falácia pós-moderna.
É por isso que digo que a Cidade de Salvador precisa do Salvador, do SENHOR Jesus Cristo. Vejo aqui em Salvador uma combinação não-saudável de religiosidade e política. Eu discordaria do mesmo jeito se dissessem que o Cristianismo evangélico seria a religião oficial, como discordo de dias consagrados a santos ou mesmo de dias dedicados aos evangélicos. Nada disso é constitucional, nem creio que seja compatível com a Escritura Sagrada.
Aqui em Salvador eu sou minoria porque minha pele é branca e meus cabelos, lisos. Mas não é assim que vejo o mundo: essa distinção baseada em raças é ridícula, pois todos somos humanos, não há raças entre nós. Somos a Humanidade, devemos defender valores humanos, e não valores negros, brancos, asiáticos ou indígenas. Devemos, sim, defender interesses de pessoas efetivamente prejudicadas, mas não podemos proteger nem prejudicar ninguém em razão da cor de sua pele. É por isso que discordo das cotas e de outras eventuais medidas que partam da premissa de que ser negro é ser necessariamente oprimido. Conheço brancos que são muito pobres e ignorantes, e negros que são ricos e cultos. Conheço, mais do que isso, pessoas mestiças, em cujas características é impossível, a olho nu, discernir que percentual de negritude terão.
Faço referência a isso porque me parece que a defesa da negritude enquanto raça é um aspecto muito forte em Salvador.
Isso não vai gerar no Brasil um "apartheid"? Não estamos vendo o que a não-integração dos indígenas está causando em Roraima? Queremos um País dividido, enquanto Obama, num País realmente dividido, fala em união e harmonia?
Há uma outra coisa em Salvador que me faz ter certeza do quanto ela precisa do Salvador: a Cidade está estabelecida sobre o fundamento de festas carnais, o Carnaval e seus similares. Exalta-se o corpo, o erotismo, o prazer descompromissado. Que sociedade pode se gloriar de um fundamento desses?
Existe ainda um aspecto digno de nota: a extrema desigualdade social. E, em plena área nobre, vejo os muito pobres deitados nas calçadas, pedindo esmola. As favelas também são um retrato dolorido aos nossos olhos, porque ali tem gente excluída mesmo.
Sou baiano, mas não me orgulho dessas contradições. Gosto de ser baiano, mas antes de tudo sou cristão.
O bom mesmo é ver que nem todas as praias foram dominados pelos ricos, e que o mar, o grande mar, é ainda visto por qualquer um de nós, numa equidade emocionante que só pode vir de Deus.
É necessário distinguir baianidade, afrodescendência e religiões afro-brasileiras. Baianidade - arrisco-me a definir - seria um traço cultural que mistura alegria, simpatia e acolhimento. Afrodescendência, em minha opinião, não poderia ser designação apenas dos oriundos da África Subsaariana, porque há uma África que não é negra (algo que ouvi certa vez do meu professor Ivan Gonçalves, e que faz muito sentido).
Quanto às religiões afro-brasileiras, não posso aceitá-las como elemento cultural e folclórico porque contrariam a Palavra de Deus, adoram a vários deuses, praticam fetichismo, crêem no animismo, fazem despachos para prejudicar pessoas, tratam com o obscuro mundo da feitiçaria. Não posso chamar isso de simples cultura, pois é, de fato, religião, e, em se tratando de religião, devemos ter sempre em mente que o Estado é laico, e que Cristo é o exclusivo SENHOR.
Com efeito, não se pode confundir cultura e religião, sob pena de se alimentarem preconceitos e medidas políticas que favorecem a desigualdade. Aliás, nesse mundo que exalta o tal pluralismo, só não há espaço para idéias fundamentadas na Bíblia. Para nós cristãos evangélicos, eles negam o pluralismo, o direito de expressão. Isso demonstra que o pluralismo é uma falácia pós-moderna.
É por isso que digo que a Cidade de Salvador precisa do Salvador, do SENHOR Jesus Cristo. Vejo aqui em Salvador uma combinação não-saudável de religiosidade e política. Eu discordaria do mesmo jeito se dissessem que o Cristianismo evangélico seria a religião oficial, como discordo de dias consagrados a santos ou mesmo de dias dedicados aos evangélicos. Nada disso é constitucional, nem creio que seja compatível com a Escritura Sagrada.
Aqui em Salvador eu sou minoria porque minha pele é branca e meus cabelos, lisos. Mas não é assim que vejo o mundo: essa distinção baseada em raças é ridícula, pois todos somos humanos, não há raças entre nós. Somos a Humanidade, devemos defender valores humanos, e não valores negros, brancos, asiáticos ou indígenas. Devemos, sim, defender interesses de pessoas efetivamente prejudicadas, mas não podemos proteger nem prejudicar ninguém em razão da cor de sua pele. É por isso que discordo das cotas e de outras eventuais medidas que partam da premissa de que ser negro é ser necessariamente oprimido. Conheço brancos que são muito pobres e ignorantes, e negros que são ricos e cultos. Conheço, mais do que isso, pessoas mestiças, em cujas características é impossível, a olho nu, discernir que percentual de negritude terão.
Faço referência a isso porque me parece que a defesa da negritude enquanto raça é um aspecto muito forte em Salvador.
Isso não vai gerar no Brasil um "apartheid"? Não estamos vendo o que a não-integração dos indígenas está causando em Roraima? Queremos um País dividido, enquanto Obama, num País realmente dividido, fala em união e harmonia?
Há uma outra coisa em Salvador que me faz ter certeza do quanto ela precisa do Salvador: a Cidade está estabelecida sobre o fundamento de festas carnais, o Carnaval e seus similares. Exalta-se o corpo, o erotismo, o prazer descompromissado. Que sociedade pode se gloriar de um fundamento desses?
Existe ainda um aspecto digno de nota: a extrema desigualdade social. E, em plena área nobre, vejo os muito pobres deitados nas calçadas, pedindo esmola. As favelas também são um retrato dolorido aos nossos olhos, porque ali tem gente excluída mesmo.
Sou baiano, mas não me orgulho dessas contradições. Gosto de ser baiano, mas antes de tudo sou cristão.
O bom mesmo é ver que nem todas as praias foram dominados pelos ricos, e que o mar, o grande mar, é ainda visto por qualquer um de nós, numa equidade emocionante que só pode vir de Deus.
Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008
O rei que se foi sem deixar saudades
"Era da idade de trinta e dois anos quando começou a reinar, e reinou oito anos em Jerusalém; e foi sem deixar de si saudades; e sepultaram-no na cidade de Davi, porém não nos sepulcros dos reis" (II Cr 21.20, na versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel).
Embora os reis de Judá tenham sido em sua maioria aprovados por Deus, tal não aconteceu quanto a Jeorão, que, como o texto acima deixa claro, governou durante 08 anos e saiu de cena sem deixar saudades...
Filho do bom rei Josafá, Jeorão herdou o trono por ser o mais velho, mas não herdou a piedade dos seus antepassados. Ao se fortalecer, matou à espada todos os seus irmãos e alguns líderes de Israel (leia-se "Judá"). Além de se casar com uma filha do rei israelita Acabe, andou nos caminhos deste e da maioria dos reis de Israel, cometendo idolatria. O SENHOR só não destruiu a dinastia de Jeorão por causa do juramento divino feito a Davi, de que não lhe faltaria sucessor no reino.
Em seu tumultuado governo, Jeorão contemplou o grito de independência dos edomitas e da cidade de Libna. E foi explicitamente reprovado por Deus, numa carta redigida pelo profeta Elias! Com uma anamnese do que Jeorão fazia como rei, Elias profetizou que seriam feridos o povo, os filhos, as mulheres e o próprio rei, este com uma enfermidade nos intestinos.
Não bastasse, levantaram-se contra Jeorão os filisteus, os árabes e os etíopes, todos impulsionados pelo juízo divino. Houve "hostilidade" por parte desses três povos contra Jeorão, o que conduziu uma invasão ao reino judeu, que resultou no saque de bens do palácio real, além do rapto de mulheres e seus filhos. Só ficou Acazias de sobra, seu filho mais novo.
Ao final de tudo, veio a enfermidade a respeito da qual Elias havia escrito, e o rei morreu sem deixar saudades, a tal ponto que sequer foi sepultado nos túmulos dos reis.
Com essa história, que está narrada em II Cr 21, não tem como eu não lembrar de certo George w. Bush, que, depois de arranjar a inimizade e a antipatia de quase todo o mundo, sai de cena no dia 20 de janeiro de 2009 sem deixar saudades. Será o fim melancólico de um "rei" bonachão, texano legítimo, de sorriso fácil, empurrado pela direita protestante, mas que não me pareceu um rei segundo o coração de Deus - essa é minha opinião pessoal, e para isso não me importa o fato de ele ser contra o aborto, o casamento gay ou as pesquisas com células-tronco embrionárias, pois a verdade também é um valor cristão, e nisso o presidente Bush vacilou muitas vezes, ao dizer que perseguia Saddam Hussein por causa de supostas armas de destruição em massa, que, descobriu-se, não existiam. Interesses outros, muito menores, guiaram a guerra da doutrina Bush.
E, neste dia 05 de novembro, eis que surge certo mulato com Hussein no sobrenome, e cujo pré-nome, Barack, me faz lembrar de um general descrito nas páginas bíblicas (Jz 4). Este Baraque, porém, diferentemente do Barack Obama, não quis seguir para a guerra sem a companhia de uma mulher forte. Mas essa é outra bela história...
Embora os reis de Judá tenham sido em sua maioria aprovados por Deus, tal não aconteceu quanto a Jeorão, que, como o texto acima deixa claro, governou durante 08 anos e saiu de cena sem deixar saudades...
Filho do bom rei Josafá, Jeorão herdou o trono por ser o mais velho, mas não herdou a piedade dos seus antepassados. Ao se fortalecer, matou à espada todos os seus irmãos e alguns líderes de Israel (leia-se "Judá"). Além de se casar com uma filha do rei israelita Acabe, andou nos caminhos deste e da maioria dos reis de Israel, cometendo idolatria. O SENHOR só não destruiu a dinastia de Jeorão por causa do juramento divino feito a Davi, de que não lhe faltaria sucessor no reino.
Em seu tumultuado governo, Jeorão contemplou o grito de independência dos edomitas e da cidade de Libna. E foi explicitamente reprovado por Deus, numa carta redigida pelo profeta Elias! Com uma anamnese do que Jeorão fazia como rei, Elias profetizou que seriam feridos o povo, os filhos, as mulheres e o próprio rei, este com uma enfermidade nos intestinos.
Não bastasse, levantaram-se contra Jeorão os filisteus, os árabes e os etíopes, todos impulsionados pelo juízo divino. Houve "hostilidade" por parte desses três povos contra Jeorão, o que conduziu uma invasão ao reino judeu, que resultou no saque de bens do palácio real, além do rapto de mulheres e seus filhos. Só ficou Acazias de sobra, seu filho mais novo.
Ao final de tudo, veio a enfermidade a respeito da qual Elias havia escrito, e o rei morreu sem deixar saudades, a tal ponto que sequer foi sepultado nos túmulos dos reis.
Com essa história, que está narrada em II Cr 21, não tem como eu não lembrar de certo George w. Bush, que, depois de arranjar a inimizade e a antipatia de quase todo o mundo, sai de cena no dia 20 de janeiro de 2009 sem deixar saudades. Será o fim melancólico de um "rei" bonachão, texano legítimo, de sorriso fácil, empurrado pela direita protestante, mas que não me pareceu um rei segundo o coração de Deus - essa é minha opinião pessoal, e para isso não me importa o fato de ele ser contra o aborto, o casamento gay ou as pesquisas com células-tronco embrionárias, pois a verdade também é um valor cristão, e nisso o presidente Bush vacilou muitas vezes, ao dizer que perseguia Saddam Hussein por causa de supostas armas de destruição em massa, que, descobriu-se, não existiam. Interesses outros, muito menores, guiaram a guerra da doutrina Bush.
E, neste dia 05 de novembro, eis que surge certo mulato com Hussein no sobrenome, e cujo pré-nome, Barack, me faz lembrar de um general descrito nas páginas bíblicas (Jz 4). Este Baraque, porém, diferentemente do Barack Obama, não quis seguir para a guerra sem a companhia de uma mulher forte. Mas essa é outra bela história...
Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Os seguidores atuais da "teologia" de Judas Iscariotes
Parece-me que hoje há muitos seguidores da "teologia" de Judas Iscariotes. Não estou me referindo a nenhum suposto livro escrito pelo apóstolo-traidor, nem afirmo que exista uma doutrina sistemática de seus inexistentes ensinos. Refiro-me a um tipo de atitude para com Jesus Cristo que muito se aproxima do que Judas de fato foi e fez.
Antes gostaria de lembrar que Judas era o único judeu dentre todos os apóstolos. Tinha, portanto, de que se orgulhar perante os rudes pescadores galileus, como Simão Pedro. Essa é mesmo uma grande ironia bíblica, pois os judeus desprezavam não-judeus, principalmente galileus e samaritanos, considerados como um povo misturado com os gentios.
Judas foi escolhido por Jesus, disso não há absolutamente nenhuma dúvida (Mt 10.1-5; Mc 3.13-19; 6.7-13; Lc 9.1-6). Ele foi separado para o ministério apostólico, um verdadeiro "episcopado", que, conforme anotação da Nova Versão Internacional, designa a "função pastoral"(At 1.15-20).
Judas assumiu a tesouraria do grupo que seguia a Jesus (Jo 12.6). Deve ter merecido essa confiança, pois ninguém entrega dinheiro a uma pessoa com reputação ruim.
Judas recebeu poder para expulsar demônios, curar enfermos, ressuscitar mortos, pregar o Evangelho (Mt 10.1,2; Mc 6.12; Lc 9.6). Ele não estava somente no time dos 70 que foram enviados de dois em dois para anunciar as Boas-Novas em cidades e aldeias de Israel (Lc 10.1-23) - ele estava num grupo mais seleto, de doze homens escolhidos sob oração (de Jesus ao Pai): o Colégio Apostólico.
Judas era na verdade ambicioso, mas seu discurso certa vez foi politicamente correto, social, em favor dos pobres, quando criticou Maria, irmã de Lázaro, que derramou perfume precioso sobre os pés de Jesus, em atitude de adoração (Mt 26.6-13; Mc 14.6-9; Jo 12.1-8). É certo que, se por um lado Marcos e Mateus dizem que essa recriminação foi feita por "alguns dos presentes" (Mc 14.4) ou "os discípulos" (Mt 26.8), o próprio Marcos deixa claro que "então, Judas Iscariotes, um dos Doze, dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes a fim de lhes entregar Jesus. A proposta muito os alegrou, e lhe prometeram dinheiro. Assim, ele procurava uma oportunidade para entregá-lo" (Mc 14.10,11). Uma coisa tem que ver com a outra: o dissimulado era também ganancioso.
O apóstolo Judas, o judeu Judas, o tesoureiro Judas, o "altruísta" Judas revelou-se o traidor de Cristo. Ele escolheu seu próprio caminho, entendeu de vender seu amigo Jesus por um punhado de moedas. Ali estava um homem sem integridade, uma pessoa mesquinha. E, mesmo depois de entender que havia pecado, não se arrependeu, ficando tão-somente com o sentimento de remorso que toma conta de quem se sente culpado e não procura o perdão (Mt 27.1-10).
"Mas o que fez o personagem Judas"? "Que mal há nisso"? Essas perguntas seriam feitas pelos fariseus, saduceus, sacerdotes e anciãos que entregaram Jesus aos romanos motivados por inveja. Afinal, por mais que tenha recebido dinheiro em troca, seu ofício foi o de cumprir o que a religião oficial exigia - matar os que supostamente se levantavam contra Moisés e o Templo. E esse foi o argumento oficial contra o Mestre nazareno.
Se Judas fez o que fez, e ainda levou dinheiro, cumpriu o dever e saiu no lucro, diriam os cristãos materialistas de hoje, os pragmáticos, os egoístas, os alienados de Deus, os que seguem a boiada, os que traem princípios em favor de prestígio e poder.
A teologia de Judas Iscariotes - por favor, saiba que a Epístola Geral de Judas não foi escrita por ele, mas outro Judas! - eu dizia que a teologia de Judas Iscariotes é perfeitamente compatível com essa prática de ficar ao lado dos "vencedores" deste mundo, em vez de ficar com o crucificado, com o sofrido, com o cadáver que dizem que ressuscitou, com o homem que pregava arrependimento e era seguido por ex-prostitutas, ex-bêbados, ex-traidores da pátria (caso de Mateus e Zaqueu), ex-guerrilheiros (caso de Simão, o zelote), ex-tudo o que existe de ruim nessa vida. Que tipo de teologia era aquela de Jesus, diriam os hipócritas e materialistas...Que tipo de teologia era aquela que não deu em nada, ou melhor, deu em morte, "derrota", dispersão, divisão de famílias, perseguição pelo governo?
Tome cuidado, leitor, para que você não seja um dos seguidores do apóstolo Judas Iscariotes. Não adianta argumentar que ele operou milagres, isso não adiantará no Dia do Juízo (Mt 7.22,23). Não adianta evocar prerrogativas de nascimento, credibilidade humana ou apostolado. O que importa mesmo é não trair a Cristo, o que significa não vender princípios cristocêntricos por moedas de prata, dólares ou reais. E não vale sequer usar a tese de que os métodos da traição fazem a igreja crescer e aparecer para a sociedade. Quem não assume os princípios da Cruz deve ter estancado em algum momento, quem sabe no Getsêmane, quem sabe com um beijo aparentemente gentil (Mt 26.47-56; Mc 14.43,44; Lc 22.47; Jo 18.1-3).
Antes gostaria de lembrar que Judas era o único judeu dentre todos os apóstolos. Tinha, portanto, de que se orgulhar perante os rudes pescadores galileus, como Simão Pedro. Essa é mesmo uma grande ironia bíblica, pois os judeus desprezavam não-judeus, principalmente galileus e samaritanos, considerados como um povo misturado com os gentios.
Judas foi escolhido por Jesus, disso não há absolutamente nenhuma dúvida (Mt 10.1-5; Mc 3.13-19; 6.7-13; Lc 9.1-6). Ele foi separado para o ministério apostólico, um verdadeiro "episcopado", que, conforme anotação da Nova Versão Internacional, designa a "função pastoral"(At 1.15-20).
Judas assumiu a tesouraria do grupo que seguia a Jesus (Jo 12.6). Deve ter merecido essa confiança, pois ninguém entrega dinheiro a uma pessoa com reputação ruim.
Judas recebeu poder para expulsar demônios, curar enfermos, ressuscitar mortos, pregar o Evangelho (Mt 10.1,2; Mc 6.12; Lc 9.6). Ele não estava somente no time dos 70 que foram enviados de dois em dois para anunciar as Boas-Novas em cidades e aldeias de Israel (Lc 10.1-23) - ele estava num grupo mais seleto, de doze homens escolhidos sob oração (de Jesus ao Pai): o Colégio Apostólico.
Judas era na verdade ambicioso, mas seu discurso certa vez foi politicamente correto, social, em favor dos pobres, quando criticou Maria, irmã de Lázaro, que derramou perfume precioso sobre os pés de Jesus, em atitude de adoração (Mt 26.6-13; Mc 14.6-9; Jo 12.1-8). É certo que, se por um lado Marcos e Mateus dizem que essa recriminação foi feita por "alguns dos presentes" (Mc 14.4) ou "os discípulos" (Mt 26.8), o próprio Marcos deixa claro que "então, Judas Iscariotes, um dos Doze, dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes a fim de lhes entregar Jesus. A proposta muito os alegrou, e lhe prometeram dinheiro. Assim, ele procurava uma oportunidade para entregá-lo" (Mc 14.10,11). Uma coisa tem que ver com a outra: o dissimulado era também ganancioso.
O apóstolo Judas, o judeu Judas, o tesoureiro Judas, o "altruísta" Judas revelou-se o traidor de Cristo. Ele escolheu seu próprio caminho, entendeu de vender seu amigo Jesus por um punhado de moedas. Ali estava um homem sem integridade, uma pessoa mesquinha. E, mesmo depois de entender que havia pecado, não se arrependeu, ficando tão-somente com o sentimento de remorso que toma conta de quem se sente culpado e não procura o perdão (Mt 27.1-10).
"Mas o que fez o personagem Judas"? "Que mal há nisso"? Essas perguntas seriam feitas pelos fariseus, saduceus, sacerdotes e anciãos que entregaram Jesus aos romanos motivados por inveja. Afinal, por mais que tenha recebido dinheiro em troca, seu ofício foi o de cumprir o que a religião oficial exigia - matar os que supostamente se levantavam contra Moisés e o Templo. E esse foi o argumento oficial contra o Mestre nazareno.
Se Judas fez o que fez, e ainda levou dinheiro, cumpriu o dever e saiu no lucro, diriam os cristãos materialistas de hoje, os pragmáticos, os egoístas, os alienados de Deus, os que seguem a boiada, os que traem princípios em favor de prestígio e poder.
A teologia de Judas Iscariotes - por favor, saiba que a Epístola Geral de Judas não foi escrita por ele, mas outro Judas! - eu dizia que a teologia de Judas Iscariotes é perfeitamente compatível com essa prática de ficar ao lado dos "vencedores" deste mundo, em vez de ficar com o crucificado, com o sofrido, com o cadáver que dizem que ressuscitou, com o homem que pregava arrependimento e era seguido por ex-prostitutas, ex-bêbados, ex-traidores da pátria (caso de Mateus e Zaqueu), ex-guerrilheiros (caso de Simão, o zelote), ex-tudo o que existe de ruim nessa vida. Que tipo de teologia era aquela de Jesus, diriam os hipócritas e materialistas...Que tipo de teologia era aquela que não deu em nada, ou melhor, deu em morte, "derrota", dispersão, divisão de famílias, perseguição pelo governo?
Tome cuidado, leitor, para que você não seja um dos seguidores do apóstolo Judas Iscariotes. Não adianta argumentar que ele operou milagres, isso não adiantará no Dia do Juízo (Mt 7.22,23). Não adianta evocar prerrogativas de nascimento, credibilidade humana ou apostolado. O que importa mesmo é não trair a Cristo, o que significa não vender princípios cristocêntricos por moedas de prata, dólares ou reais. E não vale sequer usar a tese de que os métodos da traição fazem a igreja crescer e aparecer para a sociedade. Quem não assume os princípios da Cruz deve ter estancado em algum momento, quem sabe no Getsêmane, quem sabe com um beijo aparentemente gentil (Mt 26.47-56; Mc 14.43,44; Lc 22.47; Jo 18.1-3).
Sobre o livro "O que estão fazendo com a Igreja", de Augustus Nicodemus Lopes
Na quarta-feira 29 de outubro minha turma de escola dominical e alguns irmãos mais próximos fizeram um churrasco de despedida (por conta de minha remoção de Campo Grande-MS para Salvador-BA). Dentre as boas e emocionantes palavras de consideração, deram-me o excelente livro "O que estão fazendo com a Igreja", do Rev. presbiteriano Augustus Nicodemus Lopes. A dedicatória foi assinada pelo prezado irmão Carlos Lima, nosso anfitrião naquela festa e dedicado colega de classe.
O presente foi dado numa ocasião muito oportuna: dois dias antes do 31 de outubro, em que se comemora a Reforma Protestante (1517). Digo isso porque o pastor Nicodemus é reformado, e porque a leitura do livro me fez pensar no excelente legado protestante para todas as igrejas que se pretendem evangélicas.
Começando a ler o livro em meio às preocupaçõs da mudança e da locação de uma casa na Bahia, li a maior parte no ônibus até São Paulo e o terminei aqui na casa da tia de minha esposa. E agora, mais sereno e confortavelmente instalado, me ponho a resenhar, ainda que de modo simples, essa considerável obra.
O livro nasceu do blog http://tempora-mores.blogspot.com, que eu já conhecia, e o Pr. Nicodemus divide com seus amigos Mauro Meister e Solano Portela. Trata-se de uma reunião de "posts" sobre a crise teológica e moral que se abate sobre o evangelicalismo brasileiro.
Quatro linhas teológicas são enfrentadas com maestria pelo pastor calvinista: a) os liberais; b) os neo-ortodoxos ou neoliberais; c) os libertinos; d) os neopentecostais.
De acordo com o autor, conquanto o liberalismo teológico tenha perdido a influência nos Estados Unidos e na Europa, é necessário tratar dele por causa de seminários e escolas de teologia com índole liberal, especialmente quando evangélicos buscam cursos com aprovação do Ministério da Educação, mas desprovidos da ortodoxia cristã, nos quais se ensinam mais dúvidas do que certezas sobre a Bíblia, a partir do método histórico-crítico, suplantando-se o método gramático-histórico de interpretação.
Os liberais gostam de dizer que a Bíblia está repleta de mitos, que não há milagres, que não há uma ação sobrenatural de Deus, e, seguindo o suíço Karl Barth (1886-1968) os neo-ortodoxos ou neoliberais pressupõem as mesmas coisas, com a diferença de que buscam ressaltar que isso não importa, que o que vale é o encontro existencial do indivíduo com a Bíblia, ainda que seja, segundo eles, um livro religioso que expressa simplesmente a reação de um povo a acontecimentos naturais, dando-lhes conotação espiritual.
O pastor Augustus Nicodemus ainda trata dos libertinos, que defendem o casamento gay, o aborto, a eutanásia, o sexo antes e fora do casamento, além de outras coisas moralmente indefensáveis à luz da Palavra de Deus.
Os neopentecostais - termo que o autor emprega para igrejas capitaneadas pela Universal do Reino de Deus e pela Renascer em Cristo - são caracterizados pela ênfase à teologia da prosperidade, batalha espiritual, relativismo, pluralismo religioso, e uma estrutura eclesiástica centrada em apóstolos e bispos.
O autor defende a idéia de que todos esses grupos poderiam ser chamados de "esquerda teológica", por sua tendência a advogar teses da esquerda política, mas tem o cuidado de dizer que isso não significa que todo esquerdista político será esquerdista teológico, embora o esquerdista teológico tenha a inclinação a ser esquerdista na política, como os democratas-liberais norte-americanos.
O pastor Nicodemus não deixou de tratar dos fundamentalistas, puritanos e pastores conservadores em geral. Fez um classificação dos fundamentalistas cristãos históricos, fundamentalistas americanos, fundamentalistas denominacionais e fundamentalistas teológicos. Expôs o lado bom dos puritanos (Séculos XVI a XVIII) e o quanto esse termo tem sido usado com um tom pejorativo (assim como o neologismo "puritânicos"). Mencionou os neopuritanos que hoje mantêm uma atitude de não-conformismo diante do consumismo, e até pedem maior intervenção estatal para corrigir distorções sociais.
Quanto aos pastores conservadores, o autor busca explicações para suas igrejas serem "minúsculas". Esse é um importante auto-exame, não no que diz respeito ao autor, mas às igrejas históricas, que, muitas vezes premidas pelo crescimento de igrejas chamadas neopentecostais, acabam sendo levadas a buscar crescimento numérico a todo custo.
Por fim, observe-se que o autor tratou de defender peremptoriamente a inerrância, a inspiração divina e o caráter autoritativo das Escrituras Sagradas, assim como a pureza sexual, o valor da piedade, da oração, e a necessidade de pensarmos sobre os motivos de as igrejas teologicamente sérias ficarem estagnadas a pequenos rebanhos.
Gostei muito do livro. Cheguei a dizer várias vezes à minha esposa: "Esse livro é bom!". Meus alunos realmente parecem ter compreendido que eu gostaria de ler uma obra dessas. Creio que isso deve ter a ver com o que lhes falei em nossas aulas, defendendo a sã doutrina, a importância do pensar a Fé, e a crítica saudável à situação do que se denomina "Igreja evangélica brasileira".
Então, querido leitor, se eu puder lhe recomender alguma coisa agora, recomendo a leitura do livro "O que estão fazendo com a Igreja - ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro" (LOPES, Augustus Nicodemus. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, 201p).
O presente foi dado numa ocasião muito oportuna: dois dias antes do 31 de outubro, em que se comemora a Reforma Protestante (1517). Digo isso porque o pastor Nicodemus é reformado, e porque a leitura do livro me fez pensar no excelente legado protestante para todas as igrejas que se pretendem evangélicas.
Começando a ler o livro em meio às preocupaçõs da mudança e da locação de uma casa na Bahia, li a maior parte no ônibus até São Paulo e o terminei aqui na casa da tia de minha esposa. E agora, mais sereno e confortavelmente instalado, me ponho a resenhar, ainda que de modo simples, essa considerável obra.
O livro nasceu do blog http://tempora-mores.blogspot.com, que eu já conhecia, e o Pr. Nicodemus divide com seus amigos Mauro Meister e Solano Portela. Trata-se de uma reunião de "posts" sobre a crise teológica e moral que se abate sobre o evangelicalismo brasileiro.
Quatro linhas teológicas são enfrentadas com maestria pelo pastor calvinista: a) os liberais; b) os neo-ortodoxos ou neoliberais; c) os libertinos; d) os neopentecostais.
De acordo com o autor, conquanto o liberalismo teológico tenha perdido a influência nos Estados Unidos e na Europa, é necessário tratar dele por causa de seminários e escolas de teologia com índole liberal, especialmente quando evangélicos buscam cursos com aprovação do Ministério da Educação, mas desprovidos da ortodoxia cristã, nos quais se ensinam mais dúvidas do que certezas sobre a Bíblia, a partir do método histórico-crítico, suplantando-se o método gramático-histórico de interpretação.
Os liberais gostam de dizer que a Bíblia está repleta de mitos, que não há milagres, que não há uma ação sobrenatural de Deus, e, seguindo o suíço Karl Barth (1886-1968) os neo-ortodoxos ou neoliberais pressupõem as mesmas coisas, com a diferença de que buscam ressaltar que isso não importa, que o que vale é o encontro existencial do indivíduo com a Bíblia, ainda que seja, segundo eles, um livro religioso que expressa simplesmente a reação de um povo a acontecimentos naturais, dando-lhes conotação espiritual.
O pastor Augustus Nicodemus ainda trata dos libertinos, que defendem o casamento gay, o aborto, a eutanásia, o sexo antes e fora do casamento, além de outras coisas moralmente indefensáveis à luz da Palavra de Deus.
Os neopentecostais - termo que o autor emprega para igrejas capitaneadas pela Universal do Reino de Deus e pela Renascer em Cristo - são caracterizados pela ênfase à teologia da prosperidade, batalha espiritual, relativismo, pluralismo religioso, e uma estrutura eclesiástica centrada em apóstolos e bispos.
O autor defende a idéia de que todos esses grupos poderiam ser chamados de "esquerda teológica", por sua tendência a advogar teses da esquerda política, mas tem o cuidado de dizer que isso não significa que todo esquerdista político será esquerdista teológico, embora o esquerdista teológico tenha a inclinação a ser esquerdista na política, como os democratas-liberais norte-americanos.
O pastor Nicodemus não deixou de tratar dos fundamentalistas, puritanos e pastores conservadores em geral. Fez um classificação dos fundamentalistas cristãos históricos, fundamentalistas americanos, fundamentalistas denominacionais e fundamentalistas teológicos. Expôs o lado bom dos puritanos (Séculos XVI a XVIII) e o quanto esse termo tem sido usado com um tom pejorativo (assim como o neologismo "puritânicos"). Mencionou os neopuritanos que hoje mantêm uma atitude de não-conformismo diante do consumismo, e até pedem maior intervenção estatal para corrigir distorções sociais.
Quanto aos pastores conservadores, o autor busca explicações para suas igrejas serem "minúsculas". Esse é um importante auto-exame, não no que diz respeito ao autor, mas às igrejas históricas, que, muitas vezes premidas pelo crescimento de igrejas chamadas neopentecostais, acabam sendo levadas a buscar crescimento numérico a todo custo.
Por fim, observe-se que o autor tratou de defender peremptoriamente a inerrância, a inspiração divina e o caráter autoritativo das Escrituras Sagradas, assim como a pureza sexual, o valor da piedade, da oração, e a necessidade de pensarmos sobre os motivos de as igrejas teologicamente sérias ficarem estagnadas a pequenos rebanhos.
Gostei muito do livro. Cheguei a dizer várias vezes à minha esposa: "Esse livro é bom!". Meus alunos realmente parecem ter compreendido que eu gostaria de ler uma obra dessas. Creio que isso deve ter a ver com o que lhes falei em nossas aulas, defendendo a sã doutrina, a importância do pensar a Fé, e a crítica saudável à situação do que se denomina "Igreja evangélica brasileira".
Então, querido leitor, se eu puder lhe recomender alguma coisa agora, recomendo a leitura do livro "O que estão fazendo com a Igreja - ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro" (LOPES, Augustus Nicodemus. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, 201p).
Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008
491 anos da Reforma Protestante
O dia 31 de outubro é importante para o mundo genuinamente cristão, mas creio que aqui no Brasil somente os presbiterianos, luteranos e irmãos de outras igrejas reformadas chegam a comemorar a contento essa data marcante. Eu, um pentecostal histórico do tipo pretendente a "bereano", aprendi a admirar o pensamento teológico dos meus irmãos presbiterianos, e muito disso se deve certamente ao meu período de ABU (Aliança Bíblica Universitária) em Viçosa-MG, e ao meu contato com a revista Ultimato.
É certo que, em termos de uma sociologia da religião, os pentecostais parecem estar no "evangelicalismo", enquanto outros grupos, como os batistas, dizem que vieram antes da Reforma, que já existiam antes de Martinho Lutero cravar suas 95 Teses na porta da Capela da Universidade de Wittemberg. E efetivamente houve, antes de Lutero, homens que divergiram da Igreja de Roma.
Mas, de um modo geral, todo o pensamento cristão ortodoxo que conheço se abebera da Reforma, e todo cristão que se pretende maduro na Fé admite os Cinco Solas: Sola Gratia, Sola Fides, Sola Scriptura, Solus Christus, Soli Deo gloria (só a graça, só a fé, só a Escritura, só Cristo e glória somente a Deus).
Ressalvadas as questões da doutrina calvinista da predestinação (graça irresistível, chamamento eficaz etc.) e os resquícios romanistas que se vêem na obra de Lutero, todos nós cristãos não-católicos deveríamos nos sentir protestantes, porque tanto a doutrina da Salvação como toda a perspectiva da Bíblia como Palavra de Deus inerrante, definitiva e infalível veio a ser assentada pelo labor teológico dos reformados. Assim, sendo nós evangélicos, e, dentro desse espectro, sendo batistas, congregacionais ou pentecostais, além de tantos outros grupos que se queiram ortodoxos, todos nós somos herdeiros teológicos da Reforma.
Por falar em "ortodoxos", lembro que existe a Igreja Ortodoxa Grega, e todas aquelas tradições cristãs orientais das quais não tenho conhecimento, mas que antecedem a Reforma em séculos. Apesar disso, ninguém pode esquecer o quanto a Reforma produziu de benefícios para o mundo cristão, principalmente no que toca ao reconhecimento da autoridade das Sagradas Escrituras, enquanto o Romanismo depredou séculos e séculos (da Idade das Trevas) sob o tacão da ignorância e do poderio régio-papal.
O inconformismo recomendado por Paulo em Rm 12.2 é um ingrediente do crente não apenas reformado, mas transformado. E entendo que, mais do que movimento explicado por motivações políticas, culturais, sociais ou econômicas, a Reforma Protestante foi um verdadeiro avivamento, que, como tal, partiu da Escritura Sagrada, e a ela se voltou. E isso não anula nem afasta os precedentes históricos nem as conseqüências políticas, econômicas, culturais e nacionais que a Reforma engendrou.
Este é meu jeito de dizer que também comemoro o dia 31 de outubro, quando, agora em 2008, a Reforma comemora 491 anos!
É certo que, em termos de uma sociologia da religião, os pentecostais parecem estar no "evangelicalismo", enquanto outros grupos, como os batistas, dizem que vieram antes da Reforma, que já existiam antes de Martinho Lutero cravar suas 95 Teses na porta da Capela da Universidade de Wittemberg. E efetivamente houve, antes de Lutero, homens que divergiram da Igreja de Roma.
Mas, de um modo geral, todo o pensamento cristão ortodoxo que conheço se abebera da Reforma, e todo cristão que se pretende maduro na Fé admite os Cinco Solas: Sola Gratia, Sola Fides, Sola Scriptura, Solus Christus, Soli Deo gloria (só a graça, só a fé, só a Escritura, só Cristo e glória somente a Deus).
Ressalvadas as questões da doutrina calvinista da predestinação (graça irresistível, chamamento eficaz etc.) e os resquícios romanistas que se vêem na obra de Lutero, todos nós cristãos não-católicos deveríamos nos sentir protestantes, porque tanto a doutrina da Salvação como toda a perspectiva da Bíblia como Palavra de Deus inerrante, definitiva e infalível veio a ser assentada pelo labor teológico dos reformados. Assim, sendo nós evangélicos, e, dentro desse espectro, sendo batistas, congregacionais ou pentecostais, além de tantos outros grupos que se queiram ortodoxos, todos nós somos herdeiros teológicos da Reforma.
Por falar em "ortodoxos", lembro que existe a Igreja Ortodoxa Grega, e todas aquelas tradições cristãs orientais das quais não tenho conhecimento, mas que antecedem a Reforma em séculos. Apesar disso, ninguém pode esquecer o quanto a Reforma produziu de benefícios para o mundo cristão, principalmente no que toca ao reconhecimento da autoridade das Sagradas Escrituras, enquanto o Romanismo depredou séculos e séculos (da Idade das Trevas) sob o tacão da ignorância e do poderio régio-papal.
O inconformismo recomendado por Paulo em Rm 12.2 é um ingrediente do crente não apenas reformado, mas transformado. E entendo que, mais do que movimento explicado por motivações políticas, culturais, sociais ou econômicas, a Reforma Protestante foi um verdadeiro avivamento, que, como tal, partiu da Escritura Sagrada, e a ela se voltou. E isso não anula nem afasta os precedentes históricos nem as conseqüências políticas, econômicas, culturais e nacionais que a Reforma engendrou.
Este é meu jeito de dizer que também comemoro o dia 31 de outubro, quando, agora em 2008, a Reforma comemora 491 anos!
Sábado, 25 de Outubro de 2008
Mais uma mudança e suas conseqüentes reflexões
A casa está como eu mesmo: desarrumada, cheia de caixas vazias para colocar coisas que mais uma vez tomarão novo rumo. Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Bahia de novo. São muitas mudanças em pouco tempo, em pouca vida, em poucos anos.
Amizades que se constroem e que se despedem. Contatos que deverão permanecer, enquanto outros ficarão na memória esquecida de minha mente limitada.
Não conheci o Pantanal, não fui a Bonito, quase não saí de Campo Grande. Mas há quem eu leve no coração, isso eu sei. Pessoas valem muito mais do que lugares. Quer gostar de um lugar? Goste de pessoas do lugar.
As três décadas que tenho não me ensinaram a não chorar na partida, mas me ensinaram a entender que não existe chão que, ao ser pisado, fique inerte. Todo chão deixa o seu ensino e as cores do seu cotidiano.
Menos de dois anos já foram capazes de criar relacionamentos que, espero, sejam duradouros. Conheci cristãos firmes na Fé, com os quais partilhei dúvidas, temores, problemas, alegrias, críticas, aprendizado. Também conheci crentes que professam uma fé materialista, que pensam em semear dinheiro para colher mais dinheiro ainda. Reconheci que o consumismo campograndense adentra às igrejas, agora com a roupagem "teológica" da Confissão Positiva.
Não posso negar: amo pessoas que aqui conheci. Professores, colegas do curso teológico, alguns pastores, colegas do meu trabalho, meus superiores. Acertei e errei, mas tenho certeza de que, em Cristo, apesar de meus erros e limitações, devo ter deixado a marca de quem foi salvo por Cristo. Espero ter deixado a marca de um homem íntegro, um homem de caráter regenerado, embora pecador.
Tenho a necessidade de mostrar que um cristão não precisa vender seus princípios para ser benquisto em sua igreja. Aliás, se eu sofrer oposições, como sofri, que seja pela Causa de Cristo. Não devo me importar se os homens não me ordenam a cargos importantes, se meu nome não é lembrado, se meus supostos talentos ficam adormecidos porque tenho certos embates com alguns que se mantém aferrados ao poder. Se eu tiver pregado o Evangelho, se eu tiver mantido meus princípios mais caros, entenderei que valeu a pena perder tudo aquilo que os homens gostariam de me dar, depois de tanto me arrancar.
As aulas na classe Melquisedeque e nas outras classes por onde passei - como esquecer?
As aulas que assisti na FATHEL - como esquecer?
As discussões (acaloradas ou não) na mesma Faculdade - como esquecer?
As palavras de apoio e incentivo de irmãos em Cristo, que, com seu abraço carinhoso e olhar sincero, muito me animaram a continuar nessa jornada que tantas vezes parece solitária.
Não posso esquecer de professores-pastores que vieram à minha casa conversar, aconselhar, orar, pastorear.
Não posso esquecer que em Campo Grande comecei a realizar o sonho de estudar Teologia, apesar de que, por ora, terei que estancar o curso...
Não posso esquecer de que foi aqui em Campo Grande que entendi mais um pouco sobre o meu chamado, embora haja tantas obscuridades em minha vocação (não que Deus seja obscuro, mas eu, quem sabe, inseguro).
Foi aqui que comecei a escrever num blog.
Foi aqui que desenvolvi um pensamento teológico, ainda que elementar.
Foi aqui que Elisa aprendeu a falar, e que um rebento foi concebido.
Aqui na terra morena, na terra do tereré, na terra da mandioca amarelinha, na terra do erre puxado, na terra do povo introspectivo, na terra dos muitos quartéis, na terra meio paulista, na terra também nipônica, na terra de árabes, gaúchos, sei lá. Aqui eu não tive como não aprender.
Este texto poderia ser mais longo, como longa é a saudade que já se avizinha do meu coração. Mas estranha é essa coisa de saudade: por mais que faça chorar, a saudade só existe no coração de quem consegue transformar vida em amor.
Amizades que se constroem e que se despedem. Contatos que deverão permanecer, enquanto outros ficarão na memória esquecida de minha mente limitada.
Não conheci o Pantanal, não fui a Bonito, quase não saí de Campo Grande. Mas há quem eu leve no coração, isso eu sei. Pessoas valem muito mais do que lugares. Quer gostar de um lugar? Goste de pessoas do lugar.
As três décadas que tenho não me ensinaram a não chorar na partida, mas me ensinaram a entender que não existe chão que, ao ser pisado, fique inerte. Todo chão deixa o seu ensino e as cores do seu cotidiano.
Menos de dois anos já foram capazes de criar relacionamentos que, espero, sejam duradouros. Conheci cristãos firmes na Fé, com os quais partilhei dúvidas, temores, problemas, alegrias, críticas, aprendizado. Também conheci crentes que professam uma fé materialista, que pensam em semear dinheiro para colher mais dinheiro ainda. Reconheci que o consumismo campograndense adentra às igrejas, agora com a roupagem "teológica" da Confissão Positiva.
Não posso negar: amo pessoas que aqui conheci. Professores, colegas do curso teológico, alguns pastores, colegas do meu trabalho, meus superiores. Acertei e errei, mas tenho certeza de que, em Cristo, apesar de meus erros e limitações, devo ter deixado a marca de quem foi salvo por Cristo. Espero ter deixado a marca de um homem íntegro, um homem de caráter regenerado, embora pecador.
Tenho a necessidade de mostrar que um cristão não precisa vender seus princípios para ser benquisto em sua igreja. Aliás, se eu sofrer oposições, como sofri, que seja pela Causa de Cristo. Não devo me importar se os homens não me ordenam a cargos importantes, se meu nome não é lembrado, se meus supostos talentos ficam adormecidos porque tenho certos embates com alguns que se mantém aferrados ao poder. Se eu tiver pregado o Evangelho, se eu tiver mantido meus princípios mais caros, entenderei que valeu a pena perder tudo aquilo que os homens gostariam de me dar, depois de tanto me arrancar.
As aulas na classe Melquisedeque e nas outras classes por onde passei - como esquecer?
As aulas que assisti na FATHEL - como esquecer?
As discussões (acaloradas ou não) na mesma Faculdade - como esquecer?
As palavras de apoio e incentivo de irmãos em Cristo, que, com seu abraço carinhoso e olhar sincero, muito me animaram a continuar nessa jornada que tantas vezes parece solitária.
Não posso esquecer de professores-pastores que vieram à minha casa conversar, aconselhar, orar, pastorear.
Não posso esquecer que em Campo Grande comecei a realizar o sonho de estudar Teologia, apesar de que, por ora, terei que estancar o curso...
Não posso esquecer de que foi aqui em Campo Grande que entendi mais um pouco sobre o meu chamado, embora haja tantas obscuridades em minha vocação (não que Deus seja obscuro, mas eu, quem sabe, inseguro).
Foi aqui que comecei a escrever num blog.
Foi aqui que desenvolvi um pensamento teológico, ainda que elementar.
Foi aqui que Elisa aprendeu a falar, e que um rebento foi concebido.
Aqui na terra morena, na terra do tereré, na terra da mandioca amarelinha, na terra do erre puxado, na terra do povo introspectivo, na terra dos muitos quartéis, na terra meio paulista, na terra também nipônica, na terra de árabes, gaúchos, sei lá. Aqui eu não tive como não aprender.
Este texto poderia ser mais longo, como longa é a saudade que já se avizinha do meu coração. Mas estranha é essa coisa de saudade: por mais que faça chorar, a saudade só existe no coração de quem consegue transformar vida em amor.
Terça-feira, 21 de Outubro de 2008
Resposta a um admirador de René Terra Nova e Cia.
Em comentário ao nosso artigo Silas Malafaia fala de sua relação com René Terra Nova, um leitor chamado "Berginho" escreveu o seguinte:
"Alex, calma camarada, se voce não tem condições de caminhar com a adversidade de pensamento fique na sua. não fique triste com o crescimento dos outros, seja g12,g29 ministerio disso ou daquilo alegre-se com as almas que estão se convertendo e deixa que Deus faça a parte DEle, de juiz, pois Ele somente Ele pode discernir se estamos ou não enganados com os nossos metodos. não precisamos meu bom homem brigar entre nós. prepare mensagens e coloque no seu blog e voce verá que terá resultados positivos. abraços" (sic).
Este comentário merece muitas observações, que faço a seguir:
1) O leitor deve ter querido se referir a "diversidade de pensamento", e não "adversidade", algo muito diferente;
2) Eu sei conviver com diversidade de pensamento, mas, à semelhança de Paulo, Pedro, Judas, Tiago, Jeremias, e principalmente nosso SENHOR Jesus Cristo, não posso concordar com o ensino falso, com o "outro evangelho" (Gl 1.6-8), com o comércio da fé, com o pragmatismo, com o materialismo, com a exaltação do método em detrimento da mensagem evangélica;
3) O leitor disse que devo me alegrar com "as almas que estão se convertendo". E eu lhe pergunto: estão se convertendo a quê e a quem, se o que se ouve é um "evangelho" centrado no homem, em heresias e modismos, e não em Jesus Cristo?
4) O leitor mostra ser uma pessoa pragmática. Sabe o que é isso? Pragmatismo é uma filosofia ou estilo de vida que leva em conta, como critério de validade das coisas, os seus "resultados positivos", que, no caso das igrejas que o leitor admira, se traduz em crescimento numérico a todo custo;
5) Ao dizer que devo deixar o julgamento a Deus, o leitor revela que não sabe qual a distinção entre o julgamento proibido em Mt 7.1 e o julgamento recomendado em At 17.11, I Ts 5.21, Rm 12.2, I Co 14.29, Jo 7.24, I Co 2.15, I Jo 4.1. Para lhe ajudar na interpretação desses textos, eis que, enquanto Mt 7.1 trata do preconceito e julgamento das motivações alheias, o julgamento de At 17.11 é juízo crítico responsável dos irmãos nobres que, ao ouvirem o pregador (Paulo), vão conferir nas Escrituras para ver se as coisas são de fato assim; o julgamento de I Ts 5.21 é o de examinar (julgar) tudo e ficar só com o que é bom; o inconformismo de Rm 12.2 é precedido de avaliação, julgamento, pois ninguém fica inconformado sem julgar os fatos com os quais não se conforma; o julgamento de I Co 14.29 é - veja só - sobre as profecias, que Paulo manda que os outros julguem; o julgamento de Jo 7.24, segundo palavras de Jesus (o mesmo Mestre de Mt 7.1) deve ser "pela reta justiça", e não pela aparência; o julgamento de I Co 2.15 é o discernimento que o homem espiritual deve ter de todas as coisas; o julgamento de I Jo 4.1 é dirigido aos "espíritos", para que não demos crédito, não acreditemos em qualquer palavra. Portanto, o amado irmão está completamente equivocado em sua perfunctória análise (nesse item, sugiro a leitura do livro Mais erros que os pregadores devem evitar, do Pr. Ciro Sanches Zibordi, especialmente o Cap. 8, que responde à pergunta Quem disse que não podemos julgar?).
6) Ao supor que estou triste com o "crescimento" de outros por não saber "caminhar com a adversidade de pensamento" (sic), o leitor mostra que, na verdade, fez avaliação subjetiva, a ponto de imaginar que escrevi o texto porque fiquei triste. Quem lhe disse que essa foi a minha motivação? Isso não é subjetivo demais? Repare, no entanto, que, se o seu julgamento partiu das entrelinhas do que eu disse, ou do que o leitor pensou que eu disse, meu texto é fruto de avaliação bíblica, sim senhor, com respaldo na Palavra de Deus, e não em minhas suposições;
7) Ao dizer que não devemos brigar entre nós, lembre-se de que em nenhum momento eu disse que participamos do mesmo grupo - não pense que combater heresias é combater a Igreja. Apoiar heresias é combater a Igreja. Não sei mesmo se estamos no mesmo barco, mas nesse ponto efetivamente não posso julgá-lo (entendeu a diferença?);
8) A sugestão para que eu escreva "mensagens" neste "blog" indica que o leitor não se deu ao trabalho de ler alguns de nossos estudos bíblicos, ensaios teológicos e esboços de aula na escola bíblica, talvez pela grande extensão dos mesmos;
9) Se o leitor acredita que não podemos avaliar se nossos métodos estão certos ou não, isso significa que vale tudo, à moda de Maquiavel, como se não tivéssemos a Bíblia como nossa regra definitiva de fé e conduta;
10) Por fim, espero que da próxima vez o leitor "Berginho" adentre ao mérito da questão e procure empregar, se os encontrar, argumentos bíblicos em defesa do G-12, do crescimento numérico sem conteúdo, das conferências "proféticas" de passar o manto etc. Use a Bíblia, e não o simples ataque que só tangencia, mas nunca expõe o verdadeiro Evangelho de Cristo, que salva o pecador, sem imitar o mundo.
Amado, não tenho nada contra a sua pessoa. Tenho tudo, porém, contra sua equivocada maneira de pensar. Mas publiquei seu comentário porque sei conviver com a diversidade de pensamento.
Em Cristo,
Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008
Desculpe: sou imperfeito
Você aprendeu a me admirar, mas esqueceu os meus defeitos. Achou que eu estava numa vitrine, intocável, insuspeito. Tendo visto meu nome na Galeria da Fé, logo imaginou que eu era santo demais, justo demais, forte demais. Mas não sou, não.
Você sabe que me chamam de Pai da Fé. Mas não se esqueça de que o importante mesmo é que essa fé apareça em você, como dom de Deus. Eu não acreditei em Deus porque fosse uma pessoa boa, mas porque conheci Aquele que me fazia as promessas. Eu cri nas promessas do SENHOR, não cultivei nada de pensamento positivo. Apenas cri nAquele que falava comigo, e saí de minha terra. A iniciativa foi toda d'Ele. Agora, por que Ele escolheu a mim, não me pergunte...
Eu era rico, sabe? Tinha de tudo que se possa imaginar em termos materiais. Mas o SENHOR me chamou para fora do meu mundo. Saí para uma terra desconhecida, e no percurso cometi muitos erros...
Deus me prometera um filho, mas, como eu era velho e minha esposa, velha e estéril, entendemos que Deus estaria se referindo a um filho por adoção legal. Então, arranjamos um jeito - como me custa lembrar! - de termos um filho por meios jurídicos, a fim de garantir o cumprimento da promessa. E estávamos enganados. Até um acordo de casal pode estar redondamente errado. Nosso filho nasceria depois por um milagre de Deus. Como fui incrédulo.
Por duas vezes seguidas, e de modo semelhante, cometi uma meia-verdade, que é outro nome para mentira completa: disse a dois homens poderosos que minha esposa era só minha irmã, e isso porque tinha medo de que me matassem por causa dela. Sim, fiz isso duas vezes! E me arrependi. Estava equivocado, e Deus só me ajudou por Sua misericórdia.
Deus confirmou Suas promessas, e não falou uma vez só, não. Ele conversava comigo, sempre tomando a iniciativa. O que eu fazia era cultuar ao Seu Nome, agradecer por Sua bondade. A graça divina me alcançou lá no paganismo. Eu mesmo nada tinha a oferecer ao SENHOR.
Certo dia, Deus me pediu aquele que eu mais amava, o meu único filho amado, o filho da promessa. E eu, naquele momento, por graça de Deus, tive fé. Entendi que Deus poderia ressuscitar meu filhinho. Entendi que meu relacionamento com Deus podia me dar essa esperança. Eu sabia que meu SENHOR provê todas as coisas necessárias. Mas isso, lembre bem, não veio de mim - não sou daqueles que se gabam de suas conquistas. Tudo o que tive, em todos os sentidos, proveio das promessas generosas do SENHOR.
Eu não inventei a fé. Eu não disse jamais que a fé é pensar positivamente e barganhar com Deus. Quando eu dei o dízimo ao Sacerdote do Deus Altíssimo, eu não estava esperando uma recompensa, uma coisa em troca. Eu entreguei o dízimo assim como entreguei minha vida. Nada posso dar a Deus em retribuição pelas vitórias obtidas em Sua presença. Não é com dinheiro e bens que alguém poderá agradar ao meu SENHOR. Não consigo pensar assim.
Sei que tem gente boba citando meu nome como se fosse um super-homem, que teve uma fé mágica, com super-poderes, com objetivos mesquinhos de ganhar dinheiro e bens. Dizem por aí que fiquei rico porque usei uma atitude mental "positiva". Se me conhecessem de fato, se passassem por mim, nem me cumprimentariam, porque achariam estranha a minha figura. Sou um homem trabalhador, simples e crente em Deus.
Desculpe se te decepcionei. Não tenho nada de explosivo para dizer no final deste texto.
Assinado: Abraão.
* Crônica baseada na História de Abraão, contada no Livro de Gênesis (11.26-25) e referida no Novo Testamento tanto por Jesus, nos Evangelhos (Mt 3.9; Lc 16.22; Jo 8.58), como pelo apóstolo Paulo nas Cartas aos Romanos (cap. 4) e aos Gálatas (3.6-1), bem como pelo autor anônimo de Hebreus (11.8-12) e por Tiago (2.21-24).
Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008
A Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco
A Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco está espalhada por todos os Estados do Brasil, e certamente se faz representar em cada Município. São muitas e muitas igrejas dispersas por este País. São muitos os crentes atuando nessa Igreja, mas não porque queiram...
O requisito para ser membro da Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco é ser de algum modo divergente do que a liderança diz e faz. Maduros, espirituais e firmes na Fé, eles conhecem a Bíblia, foram bem doutrinados, mas cometem o "pecado" de discordar, de manter sua consciência livre de heresias, pragmatismo e antropocentrismo.
Atualmente a Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco está crescendo muito, algo que as pesquisas do IBOPE não conseguem captar por uma razão muito simples: eles estão na informalidade!
São crentes de várias confissões de fé, que freqüentam diversos santuários, com placas as mais variadas. São crentes realmente diversificados no que toca a doutrinas secundárias, mas acima de tudo cristocêntricos, bíblicos. Só que, por sua insistência em não vender seus princípios mais caros, eles acabam se tornando esquentadores de banco, pois seus líderes sabem que, se falarem, se ousarem falar, haverá muita confusão, já que outras pessoas aprenderão que o pensar existe e foi feito para o crente também.
Mas não pense que esses irmãos sejam necessariamente inativos. Se esquentam banco durante os cultos da igreja formal, muitos deles criam alternativas para-eclesiásticas, como a evangelização por conta própria, a distribuição de folhetos na rua, a visita a presidiários, enfermos e enlutados, a criação de "blogs" na Internet, a pesquisa teológica auto-didata, a participação em cursos teológicos, a ministração de aulas e pregações para quem quiser ouvir.
Outros, porém, membros da mesma Igreja, se vêem tão aprisionados pela burocracia eclesiástica - do tipo "para evangelizar vá ao departamento de missões e evangelismo e peça para falar com o setor de distribuição de folhetos" - , digo, eles se vêem tão aprisionados que só esquentam banco mesmo, porque se sentiriam culpados se fizessem qualquer atividade típica de igreja fora da igreja formal. Com isso, não por sua culpa, vão perdendo a chance de se alegrar com o desenvolvimento de seus talentos naturais e dons espirituais.
Existe muita chance dessa Igreja crescer, na medida em que igrejas históricas têm sido infiltradas pela Confissão Positiva, Teologia da Prosperidade e Triunfalismo. Por se sentirem fora desse contexto herético, e por acharem que é seu dever empunhar a bandeira da sã doutrina, eles vão levando a vida cristã assim, como crentes de segunda categoria, como subcrentes, como os excluídos da igreja formal.
Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008
Quem era a mulher de Caim?
Em seu livro Erros que os pregadores devem evitar (veja a postagem anterior), precisamente à pp. 91/92 da 8ª edição (Rio de Janeiro: CPAD, 2006), o Pr. Ciro Sanches Zibordi deixa algumas perguntas ao leitor, como exercício de hermenêutica. Que bom! Façamos o exercício, ou melhor, tentemos fazê-lo.
A primeira questão é a seguinte: "quem era a mulher de Caim"? Afinal, com quem ele se casou, se até então o Livro de Gênesis trata apenas de quatro pessoas, a saber, Adão, Eva, Caim e Abel? Como resolver isso?
Estamos em Gn 4.16,17, bem no início da Bíblia.
(1) Observemos quatro diferentes traduções para o mesmo texto:
"E saiu Caim diante da face do SENHOR e habitou na terra de Node, da banda do oriente do Éden. E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu e teve a Enoque; e ele edificou uma cidade e chamou o nome da cidade pelo nome de seu filho Enoque" (Almeida Revista e Corrigida ou ARC).
"Retirou-se Caim da presença do SENHOR e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden. E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho" (Almeida Revista e Atualizada ou ARA).
"Caim se retirou da presença de Iahweh e foi morar na terra de Nod, a leste de Éden. Caim conheceu sua mulher, que concebeu e deu à luz Henoc. Tornou-se um construtor de cidade e deu à cidade o nome de seu filho, Henoc" (Bíblia de Jerusalém ou BJ).
"Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden. Caim teve relações com sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque" (Nova Versão Internacional ou NVI).*
"Caim se retirou da presença de Iahweh e foi morar na terra de Nod, a leste de Éden. Caim conheceu sua mulher, que concebeu e deu à luz Henoc. Tornou-se um construtor de cidade e deu à cidade o nome de seu filho, Henoc" (Bíblia de Jerusalém ou BJ).
"Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden. Caim teve relações com sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque" (Nova Versão Internacional ou NVI).*
Note-se que, enquanto a ARC e BJ usam o verbo "conheceu", dando a entender, para nossas mentes modernas, que Caim deparou com sua esposa na terra de Node, a ARA e a NVI usam expressões diferentes: "coabitou" (ARA) e "teve relações" (NVI), o que oferece a possibilidade de que Caim já era casado quando saiu peregrinando a partir do Éden.
O verbo "conhecer" é também empregado na ARC com o sentido de ter relações sexuais nas passagens de Gn 4.1 e 25, pelo menos (A Bíblia de Estudo Pentecostal tem uma nota acerca disso, para Gn 4.1).
Desse modo, não é que Caim tenha conhecido sua esposa numa terra chamada Node. O que ocorreu foi que ele teve relações com ela na terra por onde peregrinava, porque Node ou Nod significa justamente "peregrinação", segundo a Bíblia Anotada e a NVI, além da BJ, na edição de 2002, ligar esse nome ao caráter "errante" de Caim, conforme Gn 4.14.
Sendo assim, Caim deve ter saído do Éden com sua esposa, foi peregrinando, teve relações com ela, e não só formou uma família como fundou uma cidade.
(2) É necessário recorrermos a algumas informações técnicas:
Vejamos o que diz a Bíblia Anotada para Gn 4.17, quanto à mulher de Caim: "Obviamente uma filha de Adão (cf 5:4). Pode ter sido uma irmã, sobrinha ou até mesmo sobrinha-neta de Caim. Já que os sistemas genéticos de Adão e Eva não continham genes mutantes, tal casamento não seria perigoso então, como é em nossa época..." (São Paulo: Mundo Cristão, 1994).
O Novo Comentário da Bíblia anota o seguinte, sobre a frase "conheceu Caim a sua mulher": "Sua mulher era uma das filhas de Adão. Não há motivo para supor-se que Caim já não estivesse casado antes de cometer o assassinato; nem de supor-se que, presumindo que ainda não se tivesse casado, que ele ocasionalmente não retornasse ao seu antigo lar, no decurso de suas peregrinações, e não tivesse escolhido para si uma irmã como esposa, numa dessas ocasiões" (São Paulo: Vida Nova, 1963, V. I, p. 89).
E ainda a Bíblia de Estudo Pentecostal: "Adão e Eva tiveram outros filhos e filhas (5.4). Caim, portanto, deve ter se casado com uma de suas próprias irmãs. Semelhante relacionamento foi uma necessidade, no início. Posteriormente, devido à proliferação dos funestos efeitos da queda e os casamentos entre parentes multiplicarem as anomalias biológicas nos filhos, esse tipo de casamento foi proibido (Lv 18.6,9; 20.12,17-21; Dt 27.22,23)".
Ora, em algum momento, que não podemos precisar, Caim tomou uma de suas parentas como esposa.
(3) Olhemos ainda o contexto:
Em Gn 4.15, há um indício de que já existiam mais pessoas habitando a Terra, fora do Éden (?) ou de que isso poderia vir a ocorrer logo: "...E pôs o SENHOR um sinal em Caim para que não o ferisse de morte quem quer que o encontrasse". E o próprio Caim diz "quem comigo se encontrar me matará" (Gn 4.14).
Não pode haver dúvidas: havia ou haveria mais pessoas naquele momento, só não podemos precisar quando elas nasceram. Mas o certo é que vieram de Adão e Eva, os primeiros habitantes da Terra, criados por obra singular de Deus, sendo Adão considerado nosso ancestral comum (Gn 1.26,27; 2.7, 18-25; Lc 3.38; Rm 5.14; I Co 15.22, 45; I Tm 2.13). Os demais seres humanos nasceram por reprodução sexual, não pelo procedimento empregado ali.
Veja-se que em Gn 5.4 está escrito que, depois do nascimento de Sete, Adão e Eva tiveram "filhos e filhas". Certamente Caim se casou com uma dessas mulheres.
(4) Ainda sobre o contexto:
Devemos compreender também que naquela época o Ser Humano tinha uma expectativa de vida mais ampla do que a nossa. Adão viveu 930 anos (Gn 5.5), e tinha 130 anos de idade quando gerou Sete (Gn 5.3). Não precisamos entender diferente porque o texto é claro nesse sentido, o que pode ser explicado por condições ambientais distintas do que temos hoje, tendo em vista as conseqüências do pecado.
(5) Conclusão:
Considerando todos esses elementos, minha conclusão é que a esposa de Caim era descendente de Adão e Eva, não sei em que parentesco; a terra de Node é na verdade a terra pela qual Caim andou errante; circunstâncias biológicas podem explicar tanto a reprodução normal entre parentes como o maior tempo de vida desses nossos distantes ancestrais.
*Os grifos são meus.
** Quando não citei a tradução foi porque usei a ARA.
Sobre os livros "Supercrentes", do Pr. Paulo Romeiro, e "Erros que os pregadores devem evitar", do Pr. Ciro Sanches Zibordi
Na segunda-feira pela manhã, li a obra Supercrentes, do Pr. Paulo Romeiro. Só interrompi a leitura para tomar um cafezinho. De ontem para hoje, li o livro Erros que os pregadores devem evitar, do amado Pr. Ciro Sanches Zibordi, que mantém o blog http://cirozibordi.blogspot.com.
Trata-se de duas obras importantes para a Igreja brasileira porque, de modo simples, objetivo e contextualizado, versam sobre problemas teológicos e eclesiásticos como a Teologia da Prosperidade, a Confissão Positiva, o Triunfalismo e o "evangelho antropocêntrico" - para usar uma expressão do Pr. Ciro Zibordi.
O Supercrentes (São Paulo: Mundo Cristão, 2ª Ed., 2007, 110p.) é importante porque enfrenta com eficácia a Confissão Positiva e a Teologia da Prosperidade, e especialmente porque menciona os brasileiros Valnice Milhomens, R. R. Soares, Edir Macedo, além dos africanos Jorge Tadeu (Igrejas Maná) e Miguel Ângelo (Igreja Cristo Vive), expoentes desse segmento herético, o que traz o tema bem ao nosso contexto, citando nomes que conhecemos, pois todos estes atuam no Brasil.
Aliás, para minha tristeza, a Rede Boas Novas anda veiculando a programação desse tal "apóstolo" Jorge Tadeu, e um dos programas em que vi esse homem ensinando a Confissão Positiva foi justamente em torno de uma pregação dele na Assembléia de Deus paraense...o que não preciso ocultar porque passou na televisão.
Voltando ao livro Supercrentes, o autor cita a igreja Verbo da Vida como uma das manifestações do Movimento da Fé no Brasil. Aqui em Campo Grande-MS existe um de seus templos na Avenida Mato Grosso. Quem passar na frente vai ver ali estampado o vocábulo grego Rhema, cujo significado Hagin manipulou a fim de sugerir a noção de palavra que decreta cura e prosperidade, quando a diferença para logos, que também quer dizer "palavra", é, na verdade, irrelevante, e não tem nada que ver com "palavra criadora", essas coisas de determinação, profetizar bênçãos etc.
Com efeito, o Pr. Paulo Romeiro mostra algumas heresias do norte-americano Kenneth Hagin, como a afirmação de que somos deuses, e a falsa doutrina de que a salvação adveio de uma suposta morte espiritual de Cristo no inferno. Hagin disse ainda que Cristo assumiu natureza satânica, o que chega a ser uma blasfêmia!
Quanto ao Erros que os pregadores devem evitar (Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 8ª Ed., 2006, 159p.), foi o livro mais vendido pela CPAD no ano de seu lançamento, além de ser um best-seller - o que indica que nem todo best-seller evangélico merece nossa suspeita...
Com linguagem clara, criatividade, recursos de ironia e conhecimento bíblico-teológico, o Pr. Ciro vai tratando de diversas frases pseudo-bíblicas que vêm sendo utilizadas por pregadores por esse Brasil afora, o que tem o mérito de, como o livro Supercrentes, trazer uma mensagem ao povo evangélico brasileiro, tão carente de literatura teológica nacional de boa qualidade.
O autor ainda comenta letras de "hinos" que transmitem conceitos não-bíblicos, e chama nossa atenção para a autoridade infalível, inerrante e plena das Escrituras Sagradas. É um livro que deve ser lido por pregadores iniciantes e experimentados. Eu mesmo, que não prego faz tempo, mas que já preguei algumas vezes, vi-me um tanto mais reverente diante do que li.
Devo dizer que é muito bom ler uma obra que se aproxima de nossa realidade, pois, de fato, muitas e muitas daquelas frases mencionados pelo Pr. Ciro são recorrentes nas igrejas, e muito próximas de minha experiência eclesiástica.
É verdadeiramente oportuno que haja escritores como o Pr. Ciro, porque, de modo simples, direto e espirituoso, ele acaba tratando de vários temas teológicos de profundidade, como, por exemplo, o caráter cristocêntrico da Bíblia, a distinção entre Geena, Hades e Tártaro, a refutação ao Triunfalismo, à Confissão Positiva e à Teologia da Prosperidade, a autoridade definitiva da Palavra de Deus, o ofício do pregador, assuntos da Escatologia, além de ferramentas necessárias, como a boa homilética e a hermenêutica, dando sugestões práticas como a relevância do contexto, da análise gramatical e do estudo dos costumes antigos.
Fiquei imensamente feliz por perceber que meu pensamento tem se coadunado com o que pensam os pastores Paulo Romeiro e Ciro Zibordi. Eu tenho - de maneira mais limitada, é claro - defendido o mesmo Evangelho bíblico e cristocêntrico, e basicamente o que li nesses livros eu já entendia como verdades bíblicas. Sabe por quê? Porque os autores não inventaram - a qualidade de cada um deles é a de expor a sã doutrina por meio da escrita: o Pr. Paulo Romeiro fazendo uma pesquisa sobre um movimento herético, e o Pr. Ciro tecendo comentários bíblicos a partir da "teologia prática" disseminada em pregações inúmeras.
Olha, se eu puder recomendar alguma coisa a você agora, recomendo esses livros: Supercrentes e Erros que os pregadores devem evitar.
Trata-se de duas obras importantes para a Igreja brasileira porque, de modo simples, objetivo e contextualizado, versam sobre problemas teológicos e eclesiásticos como a Teologia da Prosperidade, a Confissão Positiva, o Triunfalismo e o "evangelho antropocêntrico" - para usar uma expressão do Pr. Ciro Zibordi.
O Supercrentes (São Paulo: Mundo Cristão, 2ª Ed., 2007, 110p.) é importante porque enfrenta com eficácia a Confissão Positiva e a Teologia da Prosperidade, e especialmente porque menciona os brasileiros Valnice Milhomens, R. R. Soares, Edir Macedo, além dos africanos Jorge Tadeu (Igrejas Maná) e Miguel Ângelo (Igreja Cristo Vive), expoentes desse segmento herético, o que traz o tema bem ao nosso contexto, citando nomes que conhecemos, pois todos estes atuam no Brasil.
Aliás, para minha tristeza, a Rede Boas Novas anda veiculando a programação desse tal "apóstolo" Jorge Tadeu, e um dos programas em que vi esse homem ensinando a Confissão Positiva foi justamente em torno de uma pregação dele na Assembléia de Deus paraense...o que não preciso ocultar porque passou na televisão.
Voltando ao livro Supercrentes, o autor cita a igreja Verbo da Vida como uma das manifestações do Movimento da Fé no Brasil. Aqui em Campo Grande-MS existe um de seus templos na Avenida Mato Grosso. Quem passar na frente vai ver ali estampado o vocábulo grego Rhema, cujo significado Hagin manipulou a fim de sugerir a noção de palavra que decreta cura e prosperidade, quando a diferença para logos, que também quer dizer "palavra", é, na verdade, irrelevante, e não tem nada que ver com "palavra criadora", essas coisas de determinação, profetizar bênçãos etc.
Com efeito, o Pr. Paulo Romeiro mostra algumas heresias do norte-americano Kenneth Hagin, como a afirmação de que somos deuses, e a falsa doutrina de que a salvação adveio de uma suposta morte espiritual de Cristo no inferno. Hagin disse ainda que Cristo assumiu natureza satânica, o que chega a ser uma blasfêmia!
Quanto ao Erros que os pregadores devem evitar (Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 8ª Ed., 2006, 159p.), foi o livro mais vendido pela CPAD no ano de seu lançamento, além de ser um best-seller - o que indica que nem todo best-seller evangélico merece nossa suspeita...
Com linguagem clara, criatividade, recursos de ironia e conhecimento bíblico-teológico, o Pr. Ciro vai tratando de diversas frases pseudo-bíblicas que vêm sendo utilizadas por pregadores por esse Brasil afora, o que tem o mérito de, como o livro Supercrentes, trazer uma mensagem ao povo evangélico brasileiro, tão carente de literatura teológica nacional de boa qualidade.
O autor ainda comenta letras de "hinos" que transmitem conceitos não-bíblicos, e chama nossa atenção para a autoridade infalível, inerrante e plena das Escrituras Sagradas. É um livro que deve ser lido por pregadores iniciantes e experimentados. Eu mesmo, que não prego faz tempo, mas que já preguei algumas vezes, vi-me um tanto mais reverente diante do que li.
Devo dizer que é muito bom ler uma obra que se aproxima de nossa realidade, pois, de fato, muitas e muitas daquelas frases mencionados pelo Pr. Ciro são recorrentes nas igrejas, e muito próximas de minha experiência eclesiástica.
É verdadeiramente oportuno que haja escritores como o Pr. Ciro, porque, de modo simples, direto e espirituoso, ele acaba tratando de vários temas teológicos de profundidade, como, por exemplo, o caráter cristocêntrico da Bíblia, a distinção entre Geena, Hades e Tártaro, a refutação ao Triunfalismo, à Confissão Positiva e à Teologia da Prosperidade, a autoridade definitiva da Palavra de Deus, o ofício do pregador, assuntos da Escatologia, além de ferramentas necessárias, como a boa homilética e a hermenêutica, dando sugestões práticas como a relevância do contexto, da análise gramatical e do estudo dos costumes antigos.
Fiquei imensamente feliz por perceber que meu pensamento tem se coadunado com o que pensam os pastores Paulo Romeiro e Ciro Zibordi. Eu tenho - de maneira mais limitada, é claro - defendido o mesmo Evangelho bíblico e cristocêntrico, e basicamente o que li nesses livros eu já entendia como verdades bíblicas. Sabe por quê? Porque os autores não inventaram - a qualidade de cada um deles é a de expor a sã doutrina por meio da escrita: o Pr. Paulo Romeiro fazendo uma pesquisa sobre um movimento herético, e o Pr. Ciro tecendo comentários bíblicos a partir da "teologia prática" disseminada em pregações inúmeras.
Olha, se eu puder recomendar alguma coisa a você agora, recomendo esses livros: Supercrentes e Erros que os pregadores devem evitar.
O gravíssimo erro de Marta Suplicy
Era pequeno quando a psicóloga Marta Suplicy falava no programa TV Mulher sobre sexualidade. Eu não sabia do que ela falava, pois era criança, mas lembro alguma coisa do programa matutino, como a música de abertura e outros lances meio apagados em minha memória distante.
A sexóloga Marta Suplicy celebrizou-se por defender temas polêmicos - e anti-bíblicos - como a união civil de homossexuais e a tal "diversidade" sexual. Assim ela foi eleita deputada federal, e depois prefeita da maior e mais rica cidade do País - São Paulo -, quando veio a se divorciar do respeitado senador Eduardo Suplicy, cujo nome ela ainda carrega.
Ora, leio e ouço alguns comentaristas políticos dizendo que Marta Suplicy venceu o preconceito e teve coragem de romper o casamento e ficar com o argentino Luis Favre, o que seria, dizem, um ato de coragem, frente ao risco político diante da sociedade civil. Entretanto, esses mesmos comentaristas se assustam, e com grande razão, com a atitude da campanha de Marta Suplicy ao questionar maldosamente se o prefeito Gilberto Kassab é casado e se tem filhos...A indagação foi claramente uma tentativa de dizer que Kassab seria homossexual, o que até mesmo homossexuais do PT reconheceram como um gesto "homofóbico".
Que coisa, não? A senhora da diversidade sexual, a paladina da liberação dos costumes, deixa que veiculem em seu programa eleitoral um ataque gratuito à privacidade do adversário, com insinuação sobre sua sexualidade, quando ela mesma diz achar normal que pessoas do mesmo sexo formem união civil, sendo ela, diga-se de passagem, a autora de um projeto de lei nesse sentido, mas que não foi aprovado - ao menos ainda.
Esse erro da Sra. Marta Suplicy foi gravíssimo porque intentou criar uma dúvida sem fundamento sobre a esfera privada do adversário, e foi mais grave ainda porque proveio dela, o que mostra como as pessoas podem transigir com seus valores (ou desvalores?) morais com o uso de métodos pragmáticos, em tempos de declínio nas pesquisas de intenção de voto.
Até considero que a vida privada do candidato deva ser analisada na medida em que isso possa repercutir na vida pública. Como diz a cientista política Lúcia Hippólito, da Rádio CBN, é importante saber se o candidato bate na mulher, se bebe, se suas empresas vão à falência, se ele se beneficia erroneamente do dinheiro público etc.
Penso que a opção sexual do candidato poderia entrar na pauta eleitoral se o objetivo fosse dialogar com aqueles setores sociais que, a exemplo dos evangélicos, discordam da Causa Gay. Sim, isso seria razoável para que o eleitor tivesse a oportunidade de pensar se escolheria como seu representante político uma pessoa homossexual, pois, para esse eleitor, esse aspecto teria a ver com a ética pessoal, com a moralidade. Mas o que pretendo frisar aqui é que esse não foi o objetivo da Sra. Marta Suplicy - o que ela quis foi tomar votos aos eleitores que ainda preservam valores familiares tradicionais, algo que ela há muito tempo não defende, dada a maneira como construiu sua vida pública.
Tudo isso é muito incoerente, e deve relembrar a todos nós o que Fernando Collor fez a Lula em 1989, no episódio Miriam Cordeiro...Será que os petistas não aprendem nem com os erros dos outros?
Domingo, 12 de Outubro de 2008
O desvirtuamento do culto público
Não fique chateado comigo se isso ocorrer na sua igreja, mas é errado denominar cultos tendo em vista o que se espera de Deus. Por exemplo, não deveríamos falar de "culto de libertação", "culto da vitória" nem "culto da prosperidade", dentre tantos outros, simplesmente porque essas expressões são contraditórias, são um abuso contra a lógica e contra a Bíblia.
O culto público é prestado a Deus pela igreja. Não se trata de uma reunião em que marcamos o que Deus deve fazer em nosso favor. O culto público é momento congregacional de adoração, exercício de dons espirituais, testemunho e pregação do Evangelho ou ensino da Palavra, não um período em que nossos interesses mesquinhos ou até legítimos deverão ser satisfeitos.
Há, sim, um desvirtuamento do culto público quando designamos o que e como Deus deve operar. Que negócio é esse de esperar que Deus liberte naquele dia e horário? E se Ele não o fizer? Deus acaso não é soberano para fazer ou deixar de fazer? Que direitos podemos exigir de Deus? Por acaso podemos exigir que Ele cure ou nos dê a "prosperidade" que almejamos?
Culto é ato do cristão para Deus, não o contrário. Nós prestamos o culto, não é Deus que vem prestar um culto ao nosso ego inflado ou sensível. O problema é que, em igrejas enfermadas pela pós-modernidade, estamos sendo acostumados a reclamar de Deus a satisfação de nossos desejos, como consumidores "cheios de razão" diante de um fornecedor. Para isso usamos a Bíblia como se fosse código de defesa do consumidor, apontando em suas páginas versículos que supostamente fundamentariam nossos "direitos" em face de Deus.
Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
DEVO SER MUITO CHATO
Devo ser muito chato por não gostar nem de ouvir falar desse pessoal que assume títulos de "profeta" e "apóstolo".
Devo ser muito chato por não aceitar essa coisa de tomar posse, declarar, decretar, rejeitar, determinar, restituir.
Devo ser muito chato por não admitir o G-12 nem pintado de célula ou coisa que o valha.
Devo ser muito chato por ser contra a Teologia da Prosperidade e o Triunfalismo.
Devo ser muito chato por abominar a lei da semeadura financeira.
Devo ser muito chato por ofertar na igreja sem esperar dinheiro em troca.
Devo ser muito chato por detestar o movimento judaizante de São Cristóvão.
Devo ser muito chato por não me importar que me chamem de "frio".
Devo ser muito chato por ficar com cara feia quando escuto heresias.
Devo ser muito chato por não ficar emocionado com mais pregações sobre vitória, vitória e vitória "nesta noite".
Devo ser muito chato por me sentir desmotivado de vez em quando.
Devo ser muito chato por não apreciar esse negócio de Igreja com Propósitos.
Devo ser muito chato por não ser fã de pregadores nem cantores.
Devo ser muito chato por entender que certo "missionário" prega um anti-evangelho com sua Confissão Positiva.
Devo ser muito chato por entender que certo "bispo" não é nem cristão.
Devo ser muito chato por acreditar que a igreja não deve lançar políticos com interesse no favorecimento próprio.
Devo ser muito chato por considerar que pastor é dom, e não título de carreira.
Devo ser muito chato por não engolir aquelas "profetadas" genéricas do tipo "Deus tem uma grande obra em sua vida" ou "tem gente aqui com dor na coluna".
Devo ser muito chato por ficar entediado com aqueles cultos enormes que servem para que todo mundo tenha a oportunidade de cantar na frente.
Devo ser muito chato por gostar de interpretar a Bíblia com fé e racionalidade ao mesmo tempo, tudo junto.
Devo ser muito chato por não aceitar que me façam de burro ou de palhaço.
Devo ser muito chato por ficar com a Bíblia, e não com os homens.
Devo ser muito chato por compreender aqueles irmãos que estão sem igreja.
Devo ser muito chato por escrever essas coisas para que todo mundo veja.
Devo ser muito chato por anunciar o Evangelho e denunciar o pecado.
Devo ser muito chato por desprezar livros de auto-ajuda disfarçados de evangélicos.
Devo ser muito chato por valorizar o estudo e a leitura, ainda que isso seja cansativo também para mim.
Devo ser muito chato por saber que sou chato e continuar chateado.
Devo ser muito chato por ter convicção de que esse texto chato edificará alguém.
Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008
Plenitude e vazio
A pregação pentecostal destaca o ser cheio do Espírito, que também podemos chamar de plenitude do Espírito. Há fundamento bíblico para isso? Sim, e está em diversos textos da Escritura Sagrada, principalmente na teologia lucana, o que você pode ver em Lc 1.15, 41, 67; 4.1, At 2.4, 4.8,31, 6.3,5; 7.55; 9.17, 11.24; 13.9, mas semelhantemente encontrado em Paulo, conforme Ef 5.18, onde somos exortados a nos enchermos do Espírito - até agora, tenho pensado que foi o "médico amado" (Cl 4.14) quem sistematizou o pensamento paulino, de natureza tão fragmentária e responsiva, mas este é outro assunto...
O tema da plenitude não escapou ao profeta Miquéias, no Antigo Testamento, que disse estar cheio do Espírito do SENHOR e de Seu poder (3.8).
De fato, é bíblica a doutrina do encher-se do Espírito. Todavia, pouca gente fala do esvaziar-se...
Sim, meu caro, antes do enchimento é necessário o vazio. É ordem de Cristo que nos esvaziemos de nós mesmos, e isso não pode ser ponto divergente entre pentecostais e históricos, porque constitui a essência do Cristianismo Bíblico!
Mas que pentecostal atrevido este, que vem nos falar de vazio, quando queremos ser cheios! Desculpe-me a franqueza, amigo leitor, mas não posso deixar de escrever sobre o que se passa em minha mente neste exato momento. Quero apenas afirmar que antes da plenitude há que existir o vazio.
Foi o próprio Jesus Quem deu o exemplo magistral ao Se esvaziar de si mesmo, tomando a forma de servo, assemelhando-se aos homens (Fp 2.7). A palavra grega aqui é kenosis. Cristo não deixou de ser Deus, mas Se esvaziou de Sua glória para assumir a forma de homem, a fim de viver para modelo dos fiéis e morrer para salvar os pecadores. Ele decidiu o caminho da humilhação, da obediência, do sofrimento, do sacrifício vicário, da renúncia e do perdão.
Assim devemos viver, negando a nós mesmos, tomando nossa cruz, e seguindo a Cristo dia após dia (Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23). Esse esvaziamento é um comportamento ético que imita a Cristo, se é que o queremos imitar como filhos de Deus (cf. Ef 5.1).
Com efeito, Paulo declarou ter sido crucificado com Cristo para que não mais vivesse por si mesmo, mas para que Cristo nele vivesse (Gl 2.19,20). Essa é a suma do Evangelho.
Não acredito em pregações que enfatizam um encher-se desprovido do esvaziar-se. Não há substância nisso. Quem propaga um enchimento desvinculado do esvaziamento está caminhando para o emocionalismo, que, por favor, não é o caráter de Cristo.
Duas categorias de políticos evangélicos
Meu amigo Marcos, aliás, Dr. Marcos, comenta da seguinte forma o nosso artigo Eu sempre desconfio de quem está no poder:
"Na sua cidade, Paulo Cézar foi eleito prefeito e Budog o vereador mais votado.Já em SSA, foram para o segundo turno dois evangélicos. Um faz campanha chamando o outro de mau caráter e traidor, enquanto o difamado apenas expõe suas propostas. Um bate, o outro dá o outro lado da face. Dois irmãos!?"
Somos conterrâneos, da boa terra de Alagoinhas-BA, mas ambos estamos tão longe de casa...Bem, seu comentário traz informações importantes, das quais gostaria de destacar o fato de que em Salvador, como eu já havia percebido, há dois evangélicos no segundo turno para prefeito: Walter Pinheiro, do PT, e João Henrique Carneiro, que se elegeu pelo PDT e hoje está no PMDB. Segundo Marcos, um ataca o outro, chamando-o de "mau caráter e traidor", ao passo que o injuriado simplesmente dá a outra face - como ordena a Bíblia - e oferece propostas.
Olha, eu não estou acompanhando de perto essa briga, mas imagino quem esteja fazendo o quê...
Gostaria - se o leitor me permite, e aproveitando o atilado comentário de Marcos - sim, gostaria de dizer que há pelo menos duas categorias de políticos evangélicos: um que usa o nome de "evangélico" para atrair massas de crentes eleitores, e outro que é membro de igreja evangélica, e, por vocação, adentra à vida pública.
Esse é um dos motivos pelos quais não voto em políticos que aparecem dizendo que fizeram e farão isto e aquilo pela sua igreja ou pelas igrejas evangélicas, porque isso é não só antidemocrático como fisiológico e eleitoreiro. Exemplifico com o caso de um político evangélico que acabou de ser eleito em determinada cidade deste País com milhares de votos a partir de sua trajetória como coordenador de atividades evangelísticas (!) e com o explícito objetivo de criar um gabinete denominacional na Câmara de Vereadores...Isso sem o menor constrangimento. Teria eu que avisar-lhe que isso é anti-ético e ilícito? Arriscaria minha cabeça nessa empreitada sem frutos?
O evangélico com espírito público é diferente. Ele torna-se conhecido por suas propostas, por sua biografia, por sua fome e sede de justiça. Ele parece com José, Moisés, Neemias e Daniel. O bom político evangélico pode merecer meu voto, mas do político que se aproveita da religião eu quero distância.
Creia, amigo leitor, que existem essas duas categorias. O segmento evangélico, por numeroso, tem sido alvo de oportunistas, de gente que usa o ser evangélico como chamariz eleitoral, e não duvido de que haja quem se diga cristão sem ter nascido de novo, tão-somente para angariar os votos de currais eleitorais, quero dizer, de rebanhos inteiros.
E, não esquecendo de que a Bahia é conhecida por seus cultos afrodescendentes, em que os times do Bahia e do Vitória deveriam dar empate por causa dos despachos cruzados, que ninguém apareça com a lamentável idéia de achar que também Deus estaria dividido entre dois candidatos evangélicos, porque as coisas da cidadania terrestre não se resolvem de maneira tão simplista. Se os soteropolitanos querem uma cidade melhor, e se os evangélicos de lá querem uma cidade melhor, que escolham a proposta mais apropriada ao interesse público, porque os critérios de justiça o nosso SENHOR já estabeleceu em Sua Palavra.
A escolha, devo dizer, é mesmo nossa.
Uma palavra de incentivo a professores da Escola Bíblica Dominical*
Socializo com o eventual leitor o material que preparei e apresentei numa igreja batista em Campo Grande/MS para professores de Escola Bíblica Dominical, esses incansáveis e destemidos servos de Deus, nem sempre honrados, e tantas vezes reprimidos. Veja abaixo, com pequenas adaptações que fiz para este blog:
O que falar a professores quando se trata de Escola Bíblica Dominical (EBD):
- Fundamentos do ensino cristão;
- Pedagogia cristã;
- Administração da EBD;
- Desafios atuais.
Nosso objetivo neste momento:
Abordar os fundamentos do ensino cristão
Princípios bíblicos do ensino:
O ensino é um dom de Deus (Rm 12.7; Ef 4.11);
O ensino tem uma recompensa (Dn 12.3);
O ensino faz parte da obra do Espírito Santo (Jo 14.26);
O ensino é a vida normal da igreja (At 2.42);
O ensino é o propósito da Escritura (II Tm 3.16,17);
O ensino protege a igreja contra heresias (II Pe 3.17,18);
O ensino que provém de Deus leva a Deus (Jo 6.45);
O ensino respeita a inteligência do Ser Humano (Pv 1.1,2).
O que é a EBD
Escola
Popular
Universal
Metódica
Ministério pessoal
A EBD...
Não é só departamento, mas a Igreja em sua dimensão de ensino;
Concilia Mt 28.18-20 e Mc 16.15;
É espiritual e intelectual;
Busca fincar raízes no coração do aluno (ver Mt 13.6).
O ensino na Bíblia
O ensino no A.T.:
O ensino no A.T.:
Daniel e seus companheiros eram estudiosos (Dn 1.4,17,20).
Moisés foi informado pelos egípcios, mas formado por sua mãe (At 7.22; Hb 11.23-26).
A Lei de Moisés trazia (e traz) no Shemá a responsabilidade educacional dos pais (Dt 6.4-9), enquanto a palavra Torah, que traduzimos como "Lei", significa precisamente "instrução" (Rm 2.18-20).
Paulo disse que a Lei é “pedagoga” (Gl 3.24).
O Livro de Deuteronômio dá grande ênfase ao ensino (Dt 1.5; 31.9-13).
Os sacerdotes eram também professores (II Cr 15.3).
Houve um ensino institucional em Judá (II Cr 17.7-9).
Os Livros Sapienciais são conselhos dos sábios, figuras veterotestamentárias que costumamos esquecer, pois lembramos somente de reis, profetas, sacerdotes e juízes.
O Livro de Provérbios começa valorizando os dotes intelectuais (Pv 1.1-7).
O Livro de Eclesiastes é o Livro do Ensinador, embora chamemos o Eclesiastes de "Pregador".
Há Salmos que são classificados como "didáticos".
As escolas de profetas eram ambientes de formação de líderes na época de Samuel, e ainda de Elias e Eliseu. Havia transmissão de conhecimento.
Os profetas literários não ignoraram a Lei. Antes, estimularam um retorno à Lei.
O período do Exílio Babilônico foi o nascedouro das sinagogas, típicos lugares de ensino da Lei.
O período do pós-cativeiro foi rico em conhecimento da Escritura, tendo em Esdras seu expoente intelectual, porque ele se dispôs a estudar e ensinar a Palavra de Deus (Ed 7.10).
O avivamento narrado em Ne 8.1-8 não teve início em barulhos artificiais e meras emoções, mas com a simples leitura da Palavra de Deus, que produziu reformas importantes, mudança de atitude.
O ensino no N.T.:
As sinagogas podem ser comparadas a escolas bíblicas.
Jesus freqüentava assiduamente as sinagogas (Lc 4.16-20).
Jesus é Mestre (“Rabi”).
Jesus ensinava em diversos lugares;
Jesus ensinava tanto a multidões e pequenos grupos como a uma pessoa só.
Jesus empregava os métodos de parábola, exposição e diálogo.
O Apóstolos exerceram o ensino (Mc 6.30; At 5.21).
A Igreja Primitiva era uma comunidade de ensino (At 2.42; 5.42; 13.1):
Havia presbíteros ensinando (I Tm 5.17);
Havia pastor ensinando (I Tm 4.11; 6.3);
Estevão pregou ensinando (At 7.16-34);
Paulo e Barnabé ensinaram em diversas igrejas, tais como Antioquia (At 11.26), Éfeso (At 20.20,31), Corinto (At 18.11).
Paulo ensinou em Roma (At 28.31) e na escola de Tirano (At 19.9).
Paulo formou-se na escola de Gamaliel (At 22.3); fazia citações do A.T., manuseava fluentemente figuras de linguagem como alegorias, ilustrações, comparações, e detinha conhecimento vasto, abrangendo direito, filosofia, poemas não-cristãos.
Paulo usava de contextualização (At 17.16-34)
Dados históricos
A “Idade das Trevas” ou Idade Medieval coincidiu com o tempo em que a Igreja Católica Romana dominou o mundo e impediu o conhecimento da Escritura Sagrada. Não houve desenvolvimento cultural, econômico, social, científico, tecnológico nem político.
A Reforma Protestante (1517) foi um marco histórico mundial, e partiu do exame da Escritura, donde vieram princípios libertários que propiciaram o desenvolvimento de nações ocidentais, como a Inglaterra, a Suíça e a Alemanha.
Origem da EBD: começou com crianças pobres, na Inglaterra, e veio para o Brasil com o missionário e médico escocês Robert Reid Kalley.
A Reforma Protestante (1517) foi um marco histórico mundial, e partiu do exame da Escritura, donde vieram princípios libertários que propiciaram o desenvolvimento de nações ocidentais, como a Inglaterra, a Suíça e a Alemanha.
Origem da EBD: começou com crianças pobres, na Inglaterra, e veio para o Brasil com o missionário e médico escocês Robert Reid Kalley.
Conclusão.
A Igreja apenas colabora na formação das crianças e adolescentes.
A educação primordial é dever dos pais.
A Igreja é uma comunidade de ensino.
Devemos fazer discípulos, não somente alunos.
Temos a unção do Espírito para nos ensinar (I Jo 2.27).
O triste declínio da Escola Dominical em tantas igrejas evangélicas brasileiras é um claro indício de que o crescimento evangélico em nosso País não tem sido sustentável.
IMPORTANTE:
Não adianta a igreja exigir que a Escola Dominical dê certo se a comunidade como um todo não for um ambiente de ensino; se os pastores e outros líderes não entenderem que todas as reuniões são momentos de ensino; e não haverá sucesso pedagógico se o que o professor de EBD disser em classe, com base na Bíblia e na confissão da igreja, for contrariado pelos líderes, ao púlpito! Nenhuma gincana, nenhuma campanha, nenhuma iniciativa da administração da igreja atrairá alunos se esses aspectos não forem observados. A incoerência não é uma boa professora.
*Também tenho isso em apostila e "slides", podendo disponibilizá-los gratuitamente a quem quiser. Peço apenas que mencione a fonte, por gentileza, não pelo conteúdo - que é preponderantemente bíblico - mas pelo trabalho que tive para organizar isso. Espero que sirva de ajuda nessa desafiadora tarefa de ser professor de EBD em tempos de inanição espiritual.
Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
Carta ao Sr. Amin
Sr. Amin,
Escrevo-lhe esta missiva com o simples objetivo de dizer que o senhor precisa ler mais e escrever menos; ouvir mais e falar menos; trabalhar mais e descansar menos; pensar mais antes de agir, e praticar mais a Bíblia, em vez de simplesmente pregar e ensinar da boca pra fora uma fé formal e medíocre.
É fundamental, Sr. Amin, que estas atitudes sejam tomadas, para que o senhor não se torne como aqueles a quem critica. Não seja como os fariseus, que colocavam pesados fardos sobre os outros e nem sequer buscavam carregar esses mesmos fardos, como disse Jesus. Não seja como os que apontam o dedo contra as pessoas sem fazer primeiro um auto-exame.
Siga efetivamente as palavras de Jesus, de Seus profetas e de Seus apóstolos. Mas siga de verdade!
Ora, Sr. Amin, digo a ti, e digo a mim, que é necessário fugir do pecado o quanto antes! Digo-lhe isso com um sentido de urgência, pois a vida depende dessa tomada de atitude. A verdadeira vida depende do arrependimento!
Sr. Amin, haverá um dia a morte, e ela comprova nossa condição miserável, nossa finitude e absoluta insegurança quanto ao destino depois do derradeiro suspiro, a não ser que consideremos o que a Bíblia diz, que depois da morte vem a perdição eterna para os ímpios e a eternidade com Deus para os justos. Não esperemos pela morte para que venhamos a pensar no futuro. Pense agora, Sr. Amin, pense já!
A mim cabe apenas noticiar-lhe essas verdades bíblicas. Desde já cabe a mim, e cabe a ti, assumir posição quanto a Jesus Cristo, que veio para salvar, mas voltará naquele Dia para julgar.
Com os meus mais sinceros cumprimentos,
D. Esperantina da Consciência de Cristo.
Igrejas feudais
Igrejas feudais cercadas de muros:
Há bobos da coorte, senhores e servos.
Igrejas feudais - que tal, que absurdo!
E eu, no meu canto, pisado, conservo.
Igrejas feudais com reis e moedas
E nobres e clero e coisas que tais.
Igrejas feudais com truques e metas
E amplos favores nutrindo os quintais.
Igrejas feudais têm castas, têm grupos
E nomes e berços e clãs naturais.
Igrejas feudais são bem divididas,
São reinos eternos de seres mortais.
Igrejas feudais não são a Igreja
De Cristo, de Deus, da Bíblia, dos Céus.
Igrejas feudais: rascunhos urbanos
Do São Ledo Engano - são medievais.
Há bobos da coorte, senhores e servos.
Igrejas feudais - que tal, que absurdo!
E eu, no meu canto, pisado, conservo.
Igrejas feudais com reis e moedas
E nobres e clero e coisas que tais.
Igrejas feudais com truques e metas
E amplos favores nutrindo os quintais.
Igrejas feudais têm castas, têm grupos
E nomes e berços e clãs naturais.
Igrejas feudais são bem divididas,
São reinos eternos de seres mortais.
Igrejas feudais não são a Igreja
De Cristo, de Deus, da Bíblia, dos Céus.
Igrejas feudais: rascunhos urbanos
Do São Ledo Engano - são medievais.
O que os triunfalistas diriam de Cristo
Já faz um dia que ele morreu. Toda aquela história de Filho de Deus caiu por terra. Em pensar que eu acreditei quando vi os milagres, quando ouvi suas promessas, quando meu coração se estremeceu diante da sua figura e das suas palavras. É. Ele tinha uma boa oratória, e até gestos poderosos, mas não venceu como disse que venceria. Tudo não passou de truques e enganos.
Cara, ele disse que tinha vencido o mundo! Disse tantas coisas dignas de um rei, de um herói, de um vencedor, para acabar justamente daquele jeito, pendurado numa cruz! Não posso acreditar. É derrota demais para quem disse ser o Enviado de Deus, para quem prometia salvar a pátria.
Eu mesmo vi quando ele desfalecia no madeiro, que é a pior condenação que pode existir. Ele estava desfigurado, feio, totalmente desacreditado, como qualquer criminoso e pecador, como qualquer derrotado e fraco. E em vez de estar ladeado por príncipes, quem estava ao seu lado eram dois imprestáveis ladrões!
Eu conheço a Lei, os Profetas e os Escritos Sagrados. Sei que o Messias virá como Rei, como Senhor, e que Seu Reino será eterno. Ele será imbatível, invencível, glorioso, e estabelecerá para sempre o Reino de Israel, restaurando o governo à linhagem de Davi. Será um líder político, um libertador, um legítimo descendente de Davi, um homem poderoso em tudo e por tudo.
Não sei como fui me misturar àqueles pobres seguidores do Nazareno. Que erro cometi ao me reunir com o Pedro falastrão e com aquele bando de pobres coitados! Também não sei como foi que o Mateus se envolveu com aquele povo. Mateus era cobrador de impostos, não precisava se aliar a pobretões. Da mesma forma não entendo o que levou o doutor Nicodemos a se ligar ao Nazareno. Muito menos entendo como o senador José de Arimatéia decidiu dar seu jazigo novinho para aquele defunto que antes prometia vida plena. Ah, e lá estavam ainda os dois filhos de Zebedeu, que, pelo que sei, estavam se dando bem na empresa de pesca. Por que seguir um fracassado? Como foi que nos metemos nessa?
Aqueles galileus quase deram trabalho. O único judeu de verdade era o Judas Iscariotes, mas agora não sei por onde anda. Deve ter se dado bem com o dinheiro arrecadado das multidões que seguiam o Nazareno. Afinal, Judas era o tesoureiro. Que decepção eu tenho de não ter sido o tesoureiro...Pelo menos daria melhor destino àquela "dinheirama" toda. Poderia juntar o dinheiro para colaborar com o futuro Messias que virá com sua grande obra...
O homem morreu e tudo se acabou. Os fariseus e saduceus é que estão com a razão: temos que usufruir o favor dos romanos, enquanto preparamos o contra-ataque. Acaso não foi Herodes que reformou o Templo em Jerusalém? Que eu saiba, o Nazareno não colocou uma pedra sequer naquele Templo. Está vendo? Muito discurso, nenhum resultado. Todas as suas ovelhas estão agora desgarradas, espalhadas nos montes e sem pastor. Já os fariseus e saduceus, embora com suas divergências doutrinárias, continuam prosperando, porque sabem que o mais importante é o resultado, o que dá certo, o que atrai o povo. Se ficassem defendendo pontos de doutrina, acabariam como Jesus, crucificados numa cruz ao lado de ladrões.
Eu não quero isso. Nasci para vencer, sou filho do Rei, sou campeão, tenho um herói dentro de mim, tipo assim, um deus. Vou prosperar, vou ser rico também, vou liderar um grupo importante aqui em Jerusalém, e meu nome será conhecido. Prometo a mim mesmo nunca mais me envolver com promessas vazias, que não funcionam. Eu quero mesmo é quebrar paradigmas...
Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008
Eu sempre desconfio de quem está no poder
Ó leitores, perdoai minha ousadia: eu sempre desconfio de quem está no poder.
Explico: não sou daqueles que defendem governos nem me vejo inflamado numa discussão em apoio a nenhum grupo político. Não gosto de ficar acreditando piamente em governantes. Na verdade, eu desconfio de todos eles.
Minha postura parece radical ou alienada? Que bom, continuo sendo radical e alienado. Talvez essa seja a minha "ideologia" política: a eterna suspeita quanto aos mandatários políticos.
Entendo que deve haver sempre e em toda parte uma desconfiança dirigida a quem exerce o poder governamental ou parlamentar, pois, do contrário, eles farão de nós o que quiserem.
É ridículo o comportamento de certos indivíduos que parecem estancar na condição de cabos eleitorais: eles têm tanto ardor na defesa de seus padrinhos políticos que não conseguem perceber mais nenhum vício, por mais visível que seja. Qualquer falha é explicada, há sempre uma resposta pronta, e o princípio de dois pesos e duas medidas (Pv 20.10) se torna um importante componente do discurso: o mesmo fato, quando praticado por governistas ou oposicionistas, pode receber comentários diametralmente distintos. Isso é ambigüidade de caráter, nome mais bonito para hipocrisia.
Essa minha opinião tem fundamento bíblico:
No Sl 146.3, vemos a seguinte admoestação: "Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação". É fato que o verso imediatamente posterior se refere à mortalidade dos homens - razão de não servirem de arrimo seguro - , mas o Sl 146 como um todo compara o governo de Deus com o governo humano, demonstrando que é Deus Quem verdadeiramente cuida dos oprimidos, dos que têm fome, dos encarcerados, dos cegos, dos abatidos, dos justos, dos desamparados pela sociedade, como órfãos e viúvas, dos peregrinos, e é Deus Quem estabelece toda a justiça.
Não estou dizendo que devemos ser distantes da política, porque, em verdade, a boa política é essencial, e envolve desde o chão em que pisamos - pavimentado ou não - até o preço do açúcar e o futuro de nossos filhos. Reconheço, porém, que em Rm 13.1-7, I Tm 2.1-3, Tt 3.1,2 e I Pe 2.11-17, relacionados à submissão às autoridades civis, o que se tem em vista é o princípio de autoridade, e não a pessoa investida de autoridade. Esta é digna de respeito, mas não de subserviência.
Confiemos nas instituições, lutemos por seu aperfeiçoamento, mas não entreguemos nossas vidas à mercê de homens. Precisamos ser mais atentos ao que eles fazem com o dinheiro público e, enfim, garantir a cidadania.
A democracia e toda forma de participação política nascem da certeza de que todo homem é limitado e vulnerável a se aboletar no poder. E, mesmo em tempos de monarquia, Salomão, inspirado pelo Espírito Santo, entendeu que o governo segue determinados critérios, os quais passam pelo caráter plural da concepção de decisões políticas.
Por exemplo, em Pv 11.14 está escrito: "Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança". Será que isso não tem nada a ver com política? É certo que tem. Se nós pudéssemos confiar cegamente num líder político, não haveria esse preceito acerca da pluralidade de conselheiros. De certo modo, temos aqui um princípio democrático ou, no mínimo, de governo consensual.
É o que ocorre também em Pv 15.22: "Onde não há conselho fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito". Assim, para quem gosta de ter um versículo bíblico para tudo, já estamos bem providos de ferramentas para a interpretação literal. Contudo, há mais...
Em Pv 14.15, lemos que "o simples dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta para os seus passos". Ora, não podemos acreditar em tudo o que ouvimos, certo?
Salomão sabia do que estava tratando. Ele, que foi rei em Israel, ainda escreveu: "Quando te assentares a comer com um governador, atenta bem para aquele que está diante de ti; mete uma faca à tua garganta, se és homem glutão. Não cobices os seus delicados manjares, porque são comidas enganadoras" (Pv 23.1-3). Isso é o que eu chamo de cautela diante de governantes!
Portanto, sejamos lúcidos. Nenhum detentor do poder é isento de males, e é justamente por isso que devem todos eles estar sob nosso olhar crítico e vigilante. Se não for desse jeito, sofreremos muito, porque são eles que gastam as verbas públicas e decidem em grande medida o rumo de nossas vidas.
Ah! Isso vale também para os políticos evangélicos...
Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008
Há coisas que escrevo, mas que desejaria falar
Há coisas que escrevo porque não posso falar. Coisas que, se eu tivesse um microfone ou uma tribuna, sairiam de minha garganta como numa explosão. Às vezes, quando posso, quando sou convidado, exerço meu direito de dizer algumas verdades, aquelas verdades que muita gente gostaria de dizer se tivesse um microfone ou uma tribuna.
Basicamente tudo neste blog são ensaios. Seja em teologia, seja em crítica à Igreja brasileira, seja em política ou sociedade, quase tudo que escrevo é ensaio. Há alguns estudos bíblicos, alguns artigos um pouco mais técnicos, e até poemas e outros textos literários. Mas o que faço aqui é principalmente ensaiar.
Gostaria de ser um pesquisador teológico, mas ainda não posso fazê-lo, ou não me debrucei sobre isso. Uma pesquisa (monografia, dissertação, tese) requer metodologia científica, cronograma, revisão bibliográfica e orientação acadêmica, coisas que realmente não pude fazer ou receber na área de teologia, pelo menos por enquanto.
Sendo assim, vou escrevendo ensaios. Há muito o que dizer, muito o que pensar.
Noto que as pessoas hoje não querem ler nem estudar. Os crentes têm sido alvo de pregadores sensacionalistas, vazios, que não têm alimento sólido, tampouco o "leite racional" de que Paulo trata. As pessoas vão se acostumando ao nada, ao doentio, ao escasso, ao vazio.
É grande a necessidade da Igreja brasileira. Há grande confusão na mente de muitos e muitos "evangélicos".
Tenho pena desse povo errante, e por isso escrevo as coisas que queria falar. Se alguém ler, se um só ler, já terei conquistado um prêmio.
Há uma diferença que separa a minha pequena figura desses portentosos pregadores - enquanto eu ensaio, eles estão prontos; enquanto eu pergunto, eles respondem; enquanto eu critico, eles oferecem um pacote completo de promessas e afazeres.
Mas prefiro continuar ensaiando. Meus tubos de ensaio são pequenos e frágeis, mas meu jaleco permanece branco, graças a Deus.
Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008
Sobre votos pessoais como "raspar a cabeça"
SÍNTESE: Fazer votos a Deus, no âmbito da Igreja de Cristo, deve ser entendido como estabelecer propósitos voluntários de devoção, sem compromisso de reciprocidade. A palavra do crente deve valer por si, sem juramentos. O voto de raspar a cabeça é coisa da lei do nazireato, voto singular contido na Lei de Moisés.
O irmão Wesley Trindade, de Goiânia-GO, lançou-me a seguinte pergunta por e-mail:
"O que você me diz de propósitos pessoais como " Raspar a cabeça ", muito utilizados hoje na igrejas neo petencostais.
Qual fundamento" ?
Qual fundamento" ?
Introdução.
Primeiramente devo dizer que é muito gratificante receber uma mensagem eletrônica vinda lá das terras goianas, especialmente de um irmão em Cristo que aproveita o espaço virtual para tecer um questionamento. Desde já, meu agradecimento a você, Wesley.
Sem medo de parecer desatualizado, confesso que ainda não tinha ouvido falar desse propósito pessoal de raspar a cabeça, tampouco que esse tipo de coisa vinha sendo feito em igrejas classificadas como "neopentecostais". Sendo assim, sua pergunta, Wesley, já me traz uma importante informação.
Parece-me que estamos na seara dos votos (Hb., neder), porque você usou a expressão "propósitos pessoais", dando como exemplo o "raspar a cabeça", que aparece em alguns textos bíblicos como espécie de voto.
Bem, antes de verificarmos especificamente a questão do "voto de raspar a cabeça", é indispensável sabermos qual a fundamentação bíblica dos votos, e sua eventual aplicabilidade aos dias atuais.
Definição de voto.
De acordo com o Mini Aurélio, "voto" é "promessa solene com que nos obrigamos para com Deus", "promessa solene", "juramento" e "súplica à divindade" - além do voto em sentido eleitoral, e do "desejo ardente". Há, então, numa acepção vernacular, a idéia de que o voto é um compromisso sério, dirigido a Deus, para a obtenção de algum favor.
Fundamentação bíblica.
Vamos ver sucintamente quais as passagens bíblicas que tratam de voto?
Em Gn 28.20-22, Jacó faz um voto de servir a YAHWEH como seu Deus, bem como tornar o lugar onde estava uma "casa de Deus", e pagar "fielmente o dízimo". Isso ele faria se em sua viagem Deus estivesse consigo e o guardasse pelo caminho, dando-lhe sustento, proteção e retorno seguro à casa de seu pai. Esse é um texto que expõe claramente os termos de um voto: o pedido feito a Deus e o compromisso assumido pelo indivíduo. Também aponta para a precedência dos votos em relação à Lei de Moisés, e, mais do que isso, à própria nação israelita, porque nessa época naturalmente não existiam os israelitas, mas tão-somente a linhagem hebréia.
Em Gn 31.13, vemos que Deus aceitou o voto de Jacó.
Já no período da Lei Mosaica, o voto foi instituído como compromisso do servo de YAHWEH, em contraste com as "ofertas voluntárias" (ARA) ou "dom voluntário" (BJ), e se referia à entrega de animais para sacrifício (Lv 22.18). Essa diferença entre ofertas votivas e voluntárias pode ser vista em Lv 7.16.
Diferentemente do caráter informal do voto pré-mosaico, o voto passa a integrar um sistema normativo-religioso, como fica patente em Lv 27.1-29, passagem que difere daquela de Lv 22.18 por acrescentar outras coisas que poderiam ser objeto de voto, além dos animais.
De fato, em Lv 27.1-29 é possível observar que animais, casas e campos podiam ser objeto de voto, sem falar na própria pessoa. Não quer dizer que a pessoa iria se entregar ao serviço religioso, mas que, conforme a idade e o sexo, haveria de ofertar determinada quantia, medida em siclos de prata. Há regras detalhadas, como a avaliação da pessoa ou coisa compromissada, assim como o resgate e eventuais deduções necessárias do preço original. Os preceitos assemelham-se a normas de Direito Civil, e vale lembrar que Israel, como nação, vivia uma teocracia, regime em que religião e Estado se misturam.
Israel, como nação, fez voto ao SENHOR para vencer uma guerra, nos tempos de Moisés (Nm 21.2).
Em Nm 30.1-16, lemos diversas regras disciplinando a prática dos votos em Israel, mais uma vez lembrando normas de Direito Civil, notadamente no que toca à validade do voto feito por certas pessoas, digamos, "não emancipadas juridicamente", assim como estabelecendo o princípio de que o silêncio do pai ou marido validaria o voto feito pela filha ou esposa, dentre outros regramentos.
É possível observar aqui o caráter jurídico do voto em Israel? Sim, não é só possível, mas plausível.
Em Dt 23.21-23, vemos que não era obrigatório fazer votos, mas que eles se tornavam compulsórios, uma vez assumidos. Esse preceito repercute nas palavras de Ec 5.4. Há uma idéia de declaração de vontade com efeitos normativos, assim como um contrato: ninguém é obrigado a contratar, mas, uma vez assinado o contrato...
Temos outras passagens que merecem destaque:
Em Jz 11.29-40, há o voto precipitado de Jefté, que acabou envolvendo sua filha num holocausto (v.31) ou num compromisso de castidade (v.37-39), o que fica a critério do leitor, porque há correntes nos dois sentidos, e não é nosso assunto no momento.
Absalão inventou a história de que tinha feito um voto só para dar um golpe de Estado (II Sm 15.8).
Pelo menos quatro Salmos (20.5; 22.25; 56.12, estes de Davi, e 116.14) se referem ao voto como parte da devoção, do culto ao SENHOR. Assim, se por um lado Moisés trabalha seu aspecto normativo, os salmistas contemplam o aspecto devocional, embora ambos se complementem. Há um elemento de súplica, de intimidade com Deus, de fidelidade quanto ao propósito assumido, bem como de alegria pela bênção alcançada.
Segundo R.de Vaux, em suas Instituições de Israel no Antigo Testamento, precisamente à p. 503, textos como Lv 7.16,17; 22.18-23; Dt 12.6,11,17 - por causa da alternância de ofertas votivas e voluntárias - bem como dos Salmos, em 50.14, 61.8 e 65.1 - por causa da menção geral - sugerem que o voto, saindo do conceito de reciprocidade, "evoluía para a simples promessa, sem contrapartida reclamada da parte de Deus" (p.503). Isso, portanto, já no Antigo Testamento!
O voto de nazireu.
Ainda na Lei de Moisés, havia um voto especialíssimo, incondicional, que era o voto do nazireado, ou nazireato, disposto em Nm 6.1-21, tendo como uma de suas obrigações o deixar o cabelo crescer livremente. Mas não era só isso: a pessoa, homem ou mulher, consagrava-se ao SENHOR, abstinha-se de vinho ou bebida forte, dentre outras coisas, "até que se" cumprissem "os dias para os quais se consagrou" (v.5). Esses seriam seus sinais de santidade ao SENHOR durante os dias de consagração, contando também com a proibição de se contaminar com cadáver e com a exigência de sacrifícios relativos ao fim do seu nazireado, diante da Tenda da Congregação, num ritual bem desenhado na Lei. A cabeleira era rapada ao término do nazireado, juntamente com os sacrifícios respectivos.
É curioso que voto (neder) e nazireu (nazir) vêm, segundo R. de Vaux (p.503), de ndr e nzr, duas raízes sinônimas que têm que ver com consagração, interdição, separação. O nazireu era santo ao SENHOR, o que implicava em distância de contaminações quaisquer, definidas na Lei.
Sansão foi consagrado "nazireu de Deus" para a guerra, por mandado divino, que seria por toda a vida (Jz 13.4,5,7,13,14; 16.17).
Foi o voto de nazireado que Ana fez ao SENHOR (I Sm 1.11), consagrando seu futuro filho a Deus, pelo que o menino Samuel foi entregue aos cuidados sacerdotais para se tornar, também ele, um sacerdote.
Amós referiu-se a nazireus em Israel, em paralelo com os profetas, e dando uma noção de sua vocação divina (2.11,12).
Foi provavelmente o voto de nazireado que o próprio apóstolo Paulo cumpriu certa vez, conforme o seguinte texto:
Em At 18.18, lemos: "Mas Paulo, havendo permanecido ali ainda muitos dias, por fim, despedindo-se dos irmãos, navegou para a Síria, levando em sua companhia Priscila e Áqüila, depois de ter raspado a cabeça em Cencréia, porque tomara voto" (ARA).
Em At 18.18, lemos: "Mas Paulo, havendo permanecido ali ainda muitos dias, por fim, despedindo-se dos irmãos, navegou para a Síria, levando em sua companhia Priscila e Áqüila, depois de ter raspado a cabeça em Cencréia, porque tomara voto" (ARA).
Cumpre observar que, embora cristão, Paulo era culturalmente judeu, o que não pode ser desprezado pelo hermeneuta. Isso faz com que nos distanciemos do apóstolo nessa questão de raspar a cabeça, pois a lei do nazireado não perdurou no Novo Testamento, ou, para ser mais claro, não se fixou como doutrina para a Igreja.
Quando Paulo chegou a Jerusalém em certa ocasião, foi orientado por Tiago e pelos anciãos judeus a se purificar junto com mais quatro homens, cujas despesas cerimoniais o próprio Paulo iria custear, para mostrar a todos que ele não era contrário aos costumes da Lei, quanto aos que fossem judeus (At 21.15-26). Tratava-se, mais uma vez, do voto do nazireado, com suas dispendiosas cerimônias de purificação, que contava, como disse, não só com o corte de cabelo, mas também com sacrifícios de animais. Isso devia ser feito antes da entrada no Templo, que, como sabemos, substituiu a referida Tenda da Congregação.
Sem nenhuma dúvida, o voto de raspar a cabeça estava intimamente ligado ao nazireado, ou melhor, ao seu término: quem deseja, em nossos dias, fazer esse voto de raspar a cabeça, precisa entender que ele estava envolvido no contexto maior da consagração do nazireu, ou, mais precisamente, no ritual de "desconsagração". Quem assume uma parte das leis veterotestamentárias cerimoniais deve ser coerente, e assumir todo o resto. E, se o fizer, não estará sendo bíblico, porque essas coisas foram postas como "sombra de coisas que haviam de vir" (Cl 2.17 na BJ; ver ainda Hb 8.5; 9.23).
Conclusão.
Que mais posso dizer? Sei que existe hoje um movimento judaizante em certas igrejas classificadas como "neopentecostais", que adotam símbolos e festas do Antigo Testamento, interpretando erroneamente aquela Parte da Bíblia, como se não houvesse princípios de distinção quanto ao contexto, destinatários, estilo literário ou objetivo de cada seção bíblica. Isso pode explicar o uso de votos como o raspar a cabeça, que, sinceramente, é totalmente dispensável em nossos dias, pois não há fundamento neotestamentário a respaldar sua aplicabilidade hoje.
Registre-se que o raspar a cabeleira, enquanto item da lei do nazireado, tinha todo um significado, que por sua vez estava sumamente associado à consagração da pessoa a Deus. O mesmo cabelo que se deixava crescer livremente por um período era depois cortado no tempo da "desconsagração". Esse contexto não pode ser olvidado pelo intérprete da Palavra.
Para não me alongar mais, digo que os votos, enquanto compromissos de reciprocidade, não são para a Igreja, eis que em Mt 5.33-37 e Tg 5.12 está escrito que já não é necessário fazer juramentos (contratos com Deus). O importante é a entrega voluntária a Deus, sem atitude de troca, em processo gradual de santidade, tendo em vista, ainda, que já fomos santificados pelo Espírito (I Pe 1.2), sendo todos os cristãos, todos os nascidos de novo, santos na presença do SENHOR. Tendo sido santificados pelo Espírito, somos santificados a cada dia, sem que para isso precisemos estabelecer votos especiais.
O que se pode fazer é devotar a vida a Deus, incondicionalmente, e nesse quesito as palavras dos Salmos quanto a cumprir votos a Deus terão o sentido de efetivamente devotar a vida ao SENHOR, numa constante.
Por outro lado, pedidos serão dirigidos a Deus em oração, que pode ser acompanhada de jejum. Mas esse é outro tema.
Referências:
Mini Aurélio Século XXI Escolar. O minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 4ª Ed. Rev. e Ampl., 2001, 790p.
R. de Vaux. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, tradução de Daniel de Oliveira, 2003, 622p.
Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
Três homens poderosos
Uma curiosidade: que livros eram aqueles que apareciam atrás do presidente americano George Walker Bush em seu pronunciamento sobre a crise financeira hoje de manhã, dia 30 de setembro, depois que o pacote de US$700 bilhões foi rejeitado pela Câmara dos Representantes? Aqueles livros foram lidos alguma vez na vida? Ou melhor, que tipo de livro Bush anda lendo, se é que o faz?
Bush me parece um cara legal, desses com quem a gente gostaria de sentar para conversar, tomar um café ou sair para pescar. Ele parece bonachão, feliz da vida, simples e sem neuras. Aliás, ele parece muito com o presidente Lula: são dois homens simples e formalmente despreparados que alcançaram o cargo político mais importante de seu País, e que se viram entremeados em muitas confusões.
Bush na verdade foi envolvido em duas declarações de guerra; Lula foi cercado - ou se fez cercar, não sei - por um bando de criminosos, ladrões do dinheiro público, mas passa a impressão de que essas coisas em nada lhe respingam, em nada o atingem. A diferença entre Bush e Lula é que este demonstra ter mais intuição e mais autonomia frente aos seus assessores e correligionários. Bush, por sua vez, transmite a imagem de um títere premido por hostes petrolíferas, financeiras e religiosas da mais extrema força, como um mero representante de um clã e de uma classe.
Antes, muito antes de Bush e Lula, houve Salomão, com quem certamente eu gostaria de sentar para tomar um café e conversar longamente. Sábio, escritor, inclinado às grandes construções, à ciência e ao bom vinho, Salomão teria muito a dizer, seria muito agradável sua conversa, como a que teve com a rainha de Sabá. Seu reino foi próspero e pacífico, e não precisou matar muita gente porque seu pai, Davi, já fizera todas as guerras possíveis. Assim, Salomão construiu o magnífico Templo em Jerusalém, bem como outras obras, e se tornou famoso por sua sabedoria e riquezas. No entanto, ele errou muitas vezes.
Salomão oprimiu seu povo com pesados tributos, fez alianças políticas por meio de casamentos estranhos, tendeu para a idolatria por causa de mulheres, buscou o prazer em coisas passageiras, como ele mesmo reconheceria no fim de sua vida. Quem mais sofreu foi o povo, pobre povo oprimido por um rei considerado sábio, o mais sábio de todos...
Que Salomão foi estadista não pode haver dúvida. Mas também não pode haver dúvida de que seu procedimento quanto aos seus próprios súditos foi deplorável. Os melhores governantes cuidam primeiro de seu povo, das questões domésticas, para depois buscarem metas secundárias. O mais importante é a qualidade de vida das pessoas, não o destaque da nação como potência mundial, como país economicamente desenvolvido. O mais importante é como as pessoas vivem, e nisso Salomão pecou.
Ah!, que busco eu com minhas comparações tão simplórias? Vou almoçar.
Ser brasileiro
Toda nação tem seus estereótipos. Via de regra, pensamos que todo espanhol é "sangue quente", que todo japonês é inteligente, que todo inglês é pontual, que todo francês é refinado, que todo africano é negro e pobre. Achamos ainda que todo árabe é muçulmano, que todo estadunidense vive bem, que todo alemão é metódico, e assim nutrimos preconceitos universais. Por outro lado, todo mundo pensa que o Brasil é um país atrasado e pequeno que só tem futebol, carnaval e mulatas com samba no pé e nas cadeiras. Ah! Também acham que o brasileiro não é lá muito digno de confiança. E quando se fala em brasileiros famosos, lembram dos Ronaldos, de Romário e de Pelé. Os japoneses lembrarão do Zico. Pouquíssimos lembram de Santos Dumont, Oscar Niemeyer, Machado de Assis, Lima Barreto, Rui Barbosa, Castro Alves, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Tiradentes, para citar alguns poucos. Nem mesmo nós lembramos dos nossos brasileiros mais importantes. Quando houve um concurso há pouco tempo sobre o mineiro mais ilustre, o povo elegeu Chico Xavier dentre uma lista que continha ninguém menos que Santos Dumont, o inventor do avião! Depois não querem que os americanos tomem para si o berço dos criadores da aviação... Pensemos numa coisa: até que ponto nós brasileiros não temos contribuído para que se alimente essa idéia de que brasileiro é malandro, desonesto, anti-ético? Ora, se exportamos prostitutas para a Europa, como construir uma imagem melhor? Se muitos emigrantes saem e cometem crimes no exterior, trazendo problemas para os brasileiros corretos, o que devemos esperar? E se temos tantos brasileiros ilegais ou "não documentados" nos Estados Unidos e em outras partes do globo, por que buscamos ser bem vistos pelo mundo? Onde haveremos de nos orgulhar? Na Bossa Nova, que faz 50 anos agora? Eu mesmo sou um baiano que viveu em Minas e se casou com uma paulista, tendo fixado residência em Mato Grosso do Sul. Conheço um pouco do Brasil. Sou feliz nesta terra abençoada, mas tenho vergonha de certas características incrustadas no povo brasileiro: o imediatismo, o patrimonialismo, a despreocupação com o futuro, a superficialidade, o deixar-se levar pela aparência, sem falar na desonestidade e frouxidão quanto a regras, o que envolve corruptos e corruptores, instituições e cidadãos. Brasileiro compra produtos "piratas" e se justifica sob o argumento de que o produto legítimo é muito caro, alegando, ainda, que os camelôs precisam trabalhar. Brasileiro escolhe políticos corruptos, do tipo que "rouba mas faz". Brasileiro gosta de um "cabide de emprego", aprecia furar fila, adora desrespeitar o sinal vermelho, ama a corrupção do cotidiano. O eventual leitor acha que estou generalizando? Pois é. É essa generalização que o mundo conhece do ser brasileiro. Aliás, quase 80% da população, segundo a última pesquisa CNI/IBOPE, consideram ótimo ou bom um presidente que montou uma equipe ministerial repleta de pessoas corrompidas, dizendo ele que de nada sabia. Um presidente que não tem um plano de longo prazo para a educação, que não organizou, em quase oito anos de Governo, o sistema de saúde, que causou maiores divisões com suas cotas para negros, que aprova leis do Movimento Gay, que, quando acerta, é porque imita as coisas positivas de Governos passados, e ainda não os reconhece.
Enfim, o brasileiro mediano é isso aí, e não desiste nunca. Cabe a mim e a você mudar esse conceito.
Enfim, o brasileiro mediano é isso aí, e não desiste nunca. Cabe a mim e a você mudar esse conceito.
Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
Os evangélicos e a política
Igrejas evangélicas não deveriam lançar candidatos a cargos políticos. É um erro pensar que enviar membros seus aos Parlamentos (municipais, estaduais e federal) seja a melhor maneira de obter benefícios dos Poderes Constituídos. A melhor maneira nem sempre é a mais vantajosa do ponto de vista prático. Nesse caso, a melhor maneira é a cidadania, para a qual ética é um ingrediente fundamental.
Tenho dificuldade com aqueles conselhos ou comissões de política em igrejas, pois, em vez de tratarem da conscientização política dos crentes, à luz de princípios bíblicos, tratam de escolher candidatos que serão meros "representantes" da agremiação eclesiástica. Isso é fisiologismo.
Ora, o certo, na perspectiva ética, é que os políticos não sejam meros lobistas, mas que tenham noção do todo. É verdade que cada político representa, de algum modo, interesses setoriais da sociedade, até por sua procedência e formação, mas não pode fazer disso sua plataforma política, não pode ser eleito para essa finalidade.
Quando uma igreja elege candidatos simplesmente para obter favores públicos, ela está cometendo o erro do clientelismo, do favoritismo, pois seu "representante" estará sendo eleito para agir em nome de uma corporação, e não em nome da sociedade em geral. Abre-se a porta para o nepotismo, quem sabe para o coronelismo, e com certeza para o fisiologismo.
Deve haver, isto sim, consciência de cidadania nas igrejas, pois somos cidadãos na Terra. Devemos votar com consciência, e, se vocacionados, tentar uma eleição para algum cargo político. Mas não pode haver promiscuidade entre o público e o privado, e nesse caso as igrejas são consideradas como entidades da esfera privada, já que não foram instituídas para atingir o interesse público.
Se as igrejas querem ver seus requerimentos atendidos pelos setores públicos, ou se acreditam que têm deparado com embaraços burocráticos por não possuir "representantes", se essa é a motivação, que se irmanem e lancem um candidato único, ou alguns candidatos de denominações diferentes. O que não pode haver é um candidato da igreja. Mas penso que candidatos com plataforma cristã evangélica deveriam tem bandeiras mais nobres, como a defesa de valores familiares e éticos, o combate a leis que limitem a liberdade religiosa, e a luta por justiça social e ética na política.
Deve haver, isto sim, consciência de cidadania nas igrejas, pois somos cidadãos na Terra. Devemos votar com consciência, e, se vocacionados, tentar uma eleição para algum cargo político. Mas não pode haver promiscuidade entre o público e o privado, e nesse caso as igrejas são consideradas como entidades da esfera privada, já que não foram instituídas para atingir o interesse público.
Se as igrejas querem ver seus requerimentos atendidos pelos setores públicos, ou se acreditam que têm deparado com embaraços burocráticos por não possuir "representantes", se essa é a motivação, que se irmanem e lancem um candidato único, ou alguns candidatos de denominações diferentes. O que não pode haver é um candidato da igreja. Mas penso que candidatos com plataforma cristã evangélica deveriam tem bandeiras mais nobres, como a defesa de valores familiares e éticos, o combate a leis que limitem a liberdade religiosa, e a luta por justiça social e ética na política.
Evangélicos podem ser políticos, não há mal nisso. Os evangélicos deveriam, na verdade, ter uma consciência política mais aguçada, mais bíblica (Rm 13.1-7; I Pe 2.11-17).
Vale a pena conhecer a história do governador José, do legislador Moisés, do governador Neemias, do estadista Daniel. José e Neemias deram exemplo do que é o administrador público eficiente e responsável. Moisés elaborou o que se poderia chamar de "estatuto constitucional" de uma nação. Daniel foi um dos mais destacados príncipes do Reino Persa, sendo ele um estrangeiro. Todos eles exercitaram a boa política.
Vale a pena também lembrar que não é de hoje que políticos favorecem religiosos movidos por interesses politiqueiros - foi assim que o rei Herodes reformou o Templo em Jerusalém, tão-somente para angariar a simpatia do povo e de seus repugnantes líderes. É assim que, penso eu, muitos pequenos herodes andam favorecendo pastores e suas igrejas por esses Brasis a fora.
Domingo, 28 de Setembro de 2008
Diálogo com o Pr. Ciro Sanches Zibordi sobre o dom de apóstolo
É com muita honra e alegria que transcrevo abaixo a edição nº 15 da série O Internauta Opina, do blog do Pr. Ciro Sanches Zibordi*, em que esse amado pastor responde a uma pergunta nossa sobre apostolado.
Vale dizer que minha primeira participação serviu para comentar a resposta do pastor Ciro a um internauta na edição nº 14 (que você vê em http://cirozibordi.blogspot.com/2008/09/o-internauta-opina-14.html), quando aproveitei para fazer uma pergunta, que acabou gerando outra edição de O Internauta Opina.
Além da resposta do pastor Ciro, transcrevo tanto o meu comentário como o comentário que o pastor fez depois de tudo.
Veja o que o Pr. Ciro escreveu:
"Publico neste Internauta opina a opinião e uma inteligente indagação do professor Alex Esteves da Rocha Sousa. Espero, com esta publicação, que inclui as minhas considerações, responder a uma pergunta que vários internautas me têm feito, desde a criação deste blog, a respeito do saudoso pastor e pregador Valdir Nunes Bícego (...).
Alex Esteves disse:
A resposta do Pr. Ciro foi adequada, necessária e bíblica (veja a postagem anterior). O irmão Kléber exerceu julgamento preconcebido, e seu texto mal redigido se coaduna com seu raciocínio pouco claro. Também recebi comentários dessa natureza em meu pequeno blog, e nessas ocasiões senti a necessidade de responder, pois são oportunidades de analisar, em caso concreto, pensamentos generalizados na Igreja brasileira. Todavia, há um aspecto em que eu mesmo gostaria de dialogar com o Pr. Ciro: em que acepção o senhor enxerga o dom de apóstolo no falecido Pr. Valdir Bícego? Ele era apóstolo em que sentido?
Minha resposta:
Prezado Alex Esteves,
Sou-lhe grato pelas palavras de apoio e incentivo. E agradeço-lhe pelas valiosas observações que tem feito quanto à nossa língua portuguesa.
Na Palavra de Deus mencionam-se os apóstolos escolhidos pelo Senhor Jesus quando Ele andou na terra (Mt 10.1; Mc 3; Lc 6.13; 9.10) e os apóstolos dados por Ele mesmo à sua Igreja, “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço... até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.11-13, ARA). Estes dons ministeriais não se referem a obreiros que se consideram, por conta própria (em razão de sua liderança sobre pastores), apóstolos. São dados à Igreja pela soberana vontade de Deus. E cabe a nós reconhecer e valorizar os seus ministérios.
Em Efésios 4.11-15 vemos, com muita clareza, que o dom ministerial de apóstolo não ficou restrito aos chamados dias dos apóstolos ou aos tempos da igreja primitiva. Eles permanecerão enquanto a Igreja de Cristo estiver na Terra, posto que ainda nós não chegamos à estatura de varão perfeito (cf. Ef 4.13, ARC; 2 Tm 3.16,17), etc. A vereda do justo é como a luz da aurora, que vai brilhando até ser dia perfeito (Pv 4.18; Hb 6.9; 2 Pe 3.18, etc.).
O irmão já estudou sobre o dom de apóstolo e sua atualidade? Já pesquisou sobre o sentido original do vocábulo “apóstolo”? Em 1 Coríntios 12.28, vemos que o apostolado é o dom ministerial mais elevado concedido aos homens: “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente apóstolos”. Note: “primeiramente apóstolos”.
Um estudo bíblico do termo em apreço poderá ajudá-lo a entender por que considero apóstolo não só Valdir Bícego, mas também Daniel Berg, Gunnar Vingren, Eurico Bergstén, Cícero Canuto de Lima, Paulo Leivas Macalão, etc., bem como outros homens de Deus da atualidade, como o mestre Antonio Gilberto da Silva.Nunca esses homens mencionados disseram que eram ou são apóstolos. Mas a maneira como Deus os usou (e usa) não deixa dúvidas quanto ao seu apostolado. Foram (e alguns ainda são) homens enviados por Deus ao mundo com uma missão específica, assim como o foi João Batista, que ninguém chama de apóstolo. O termo, no original, não deixa dúvidas quanto ao ministério apostólico do Batista: “Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João” (Jo 1.6, ARA), a despeito de esse dom ministerial ter sido dado à Igreja somente após o Senhor ter subido ao alto, levando cativo o cativeiro (Ef 4.8-11).
João Batista, o precursor de Cristo, que também foi o último dos profetas, nos moldes veterotestamentários (Mt 11.13), pode sim ser chamado de apóstolo, conquanto não tenha sido um dos doze. Ele teve uma chamada divina tão especial, que uniu o ministério profético do Antigo Testamento com o ministério apostólico do Novo Testamento. Além dele, há outros homens de Deus que não pertenceram aos doze, mas foram chamados de apóstolos, como Paulo (1 Co 9.1; 15.8), Barnabé (At 14.4,14) e outros (Rm 16.7; 2 Co 8.23; Fp 2.25; 1 Ts 2.6). Um outro Apóstolo que consta das páginas sagradas é o próprio Senhor Jesus (Hb 3.1).
Lembre-se de que, em algumas pessoas, os dons ministeriais são intercambiáveis. Em geral, um apóstolo, como enviado de Deus, pode ser um mestre, um pastor, um profeta, um evangelista (como o foram o apóstolo Paulo e o próprio Senhor Jesus), como se depreende do estudo do Novo Testamento. Mas são poucos os servos de Deus que dEle recebem essa multifacetada capacitação.Diante do exposto, eu reafirmo que o pastor Valdir Nunes Bícego foi um apóstolo do Senhor em razão das características do seu ministério. Mas, para o irmão ter a mesma convicção que eu, deve: em primeiro lugar, conhecer a fundo (se é que já não conhece) as características bíblicas do ministério apostólico; segundo, confrontar as tais características com as qualidades percebidas no ministério de Valdir Bícego. E foi isso que eu fiz, ao longo de quinze anos.
Em Cristo,Ciro Sanches Zibordi"
Meu comentário:
Prezado Pr. Ciro Zibordi,
Quanto me honra ver minha pergunta respondida pelo senhor com tamanho zelo e gentileza, a ponto de me chamar de "professor". Não mereço. Mas desde já agradeço não só pela deferência, mas principalmente pelo caráter substancial da análise do caso.Embora o senhor tenha tratado o tema com bastante profundidade e critério, passando pelos principais textos bíblicos pertinentes, gostaria, se me permite, anotar que essa questão de semântica precisa hoje ser ensinada ao povo, pois há alguns que se declaram apóstolos, e não o são (Ap 2.2), o que nem de longe seria o caso do Pr. Valdir Bícego, o qual estaria, certamente, ladeado por ninguém menos que os denominados "Apóstolos do Movimento Pentecostal" (Daniel Berg e Gunnar Vingren), do "Apóstolo da Amazônia" (Eurico Nelson, um batista), e do "Apóstolo dos Pés Sangrentos" (um hindu que se converteu e saiu pregando o Evangelho). Em todos esses exemplos houve um reconheicmento posterior, quiçá post-mortem, como esse que o senhor atribui ao saudoso Ir. Bícego. Entendo, salvo melhor juízo, que apóstolo não é título, mas dom, o que o senhor deixou claro. É como um enviado com missão especial, coisa que o senhor também destacou. Estaria esse dom como o de pastor, que, infelizmente, tem sido tratado por muitos como título - entendo que os dois ofícios bíblicos para a Igreja são "presbítero" e "diácono". No demais, há dons. Quanto a um outro sentido semântico para apóstolo, vejo que a referência de Lucas à doutrina dos apóstolos (At 2.42) e a alusão de João à cidade cujo muro era edificado sobre 12 fundamentos, com os nomes "dos doze apóstolos do Cordeiro" (Ap 21.14), repito, entendo que essas passagens mostram que houve um apostolado especial, "sui generis". Sei que o senhor pensa assim, mas foi muito bom estabelecer esse diálogo num momento em que outros grupos têm erigido seus "apóstolos" com novas doutrinas e novos fundamentos, supostas revelações. Na verdade, esse diálogo só pode ser construído com pessoas como o senhor, cujo raciocínio é muito claro, claríssimo. Não digo isso para nenhum outro objetivo senão o de motivá-lo a prosseguir com esse importante ministério. A propósito, poderia eu transcrever esse "post" do senhor em meu blog, com a devida citação da fonte? Seria para enriquecer o blog. Que Deus continue abençoando o senhor.
Comentário final do Pr. Ciro:
"Caro professor Alex,
Vale dizer que minha primeira participação serviu para comentar a resposta do pastor Ciro a um internauta na edição nº 14 (que você vê em http://cirozibordi.blogspot.com/2008/09/o-internauta-opina-14.html), quando aproveitei para fazer uma pergunta, que acabou gerando outra edição de O Internauta Opina.
Além da resposta do pastor Ciro, transcrevo tanto o meu comentário como o comentário que o pastor fez depois de tudo.
Veja o que o Pr. Ciro escreveu:
"Publico neste Internauta opina a opinião e uma inteligente indagação do professor Alex Esteves da Rocha Sousa. Espero, com esta publicação, que inclui as minhas considerações, responder a uma pergunta que vários internautas me têm feito, desde a criação deste blog, a respeito do saudoso pastor e pregador Valdir Nunes Bícego (...).
Alex Esteves disse:
A resposta do Pr. Ciro foi adequada, necessária e bíblica (veja a postagem anterior). O irmão Kléber exerceu julgamento preconcebido, e seu texto mal redigido se coaduna com seu raciocínio pouco claro. Também recebi comentários dessa natureza em meu pequeno blog, e nessas ocasiões senti a necessidade de responder, pois são oportunidades de analisar, em caso concreto, pensamentos generalizados na Igreja brasileira. Todavia, há um aspecto em que eu mesmo gostaria de dialogar com o Pr. Ciro: em que acepção o senhor enxerga o dom de apóstolo no falecido Pr. Valdir Bícego? Ele era apóstolo em que sentido?
Minha resposta:
Prezado Alex Esteves,
Sou-lhe grato pelas palavras de apoio e incentivo. E agradeço-lhe pelas valiosas observações que tem feito quanto à nossa língua portuguesa.
Na Palavra de Deus mencionam-se os apóstolos escolhidos pelo Senhor Jesus quando Ele andou na terra (Mt 10.1; Mc 3; Lc 6.13; 9.10) e os apóstolos dados por Ele mesmo à sua Igreja, “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço... até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.11-13, ARA). Estes dons ministeriais não se referem a obreiros que se consideram, por conta própria (em razão de sua liderança sobre pastores), apóstolos. São dados à Igreja pela soberana vontade de Deus. E cabe a nós reconhecer e valorizar os seus ministérios.
Em Efésios 4.11-15 vemos, com muita clareza, que o dom ministerial de apóstolo não ficou restrito aos chamados dias dos apóstolos ou aos tempos da igreja primitiva. Eles permanecerão enquanto a Igreja de Cristo estiver na Terra, posto que ainda nós não chegamos à estatura de varão perfeito (cf. Ef 4.13, ARC; 2 Tm 3.16,17), etc. A vereda do justo é como a luz da aurora, que vai brilhando até ser dia perfeito (Pv 4.18; Hb 6.9; 2 Pe 3.18, etc.).
O irmão já estudou sobre o dom de apóstolo e sua atualidade? Já pesquisou sobre o sentido original do vocábulo “apóstolo”? Em 1 Coríntios 12.28, vemos que o apostolado é o dom ministerial mais elevado concedido aos homens: “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente apóstolos”. Note: “primeiramente apóstolos”.
Um estudo bíblico do termo em apreço poderá ajudá-lo a entender por que considero apóstolo não só Valdir Bícego, mas também Daniel Berg, Gunnar Vingren, Eurico Bergstén, Cícero Canuto de Lima, Paulo Leivas Macalão, etc., bem como outros homens de Deus da atualidade, como o mestre Antonio Gilberto da Silva.Nunca esses homens mencionados disseram que eram ou são apóstolos. Mas a maneira como Deus os usou (e usa) não deixa dúvidas quanto ao seu apostolado. Foram (e alguns ainda são) homens enviados por Deus ao mundo com uma missão específica, assim como o foi João Batista, que ninguém chama de apóstolo. O termo, no original, não deixa dúvidas quanto ao ministério apostólico do Batista: “Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João” (Jo 1.6, ARA), a despeito de esse dom ministerial ter sido dado à Igreja somente após o Senhor ter subido ao alto, levando cativo o cativeiro (Ef 4.8-11).
João Batista, o precursor de Cristo, que também foi o último dos profetas, nos moldes veterotestamentários (Mt 11.13), pode sim ser chamado de apóstolo, conquanto não tenha sido um dos doze. Ele teve uma chamada divina tão especial, que uniu o ministério profético do Antigo Testamento com o ministério apostólico do Novo Testamento. Além dele, há outros homens de Deus que não pertenceram aos doze, mas foram chamados de apóstolos, como Paulo (1 Co 9.1; 15.8), Barnabé (At 14.4,14) e outros (Rm 16.7; 2 Co 8.23; Fp 2.25; 1 Ts 2.6). Um outro Apóstolo que consta das páginas sagradas é o próprio Senhor Jesus (Hb 3.1).
Lembre-se de que, em algumas pessoas, os dons ministeriais são intercambiáveis. Em geral, um apóstolo, como enviado de Deus, pode ser um mestre, um pastor, um profeta, um evangelista (como o foram o apóstolo Paulo e o próprio Senhor Jesus), como se depreende do estudo do Novo Testamento. Mas são poucos os servos de Deus que dEle recebem essa multifacetada capacitação.Diante do exposto, eu reafirmo que o pastor Valdir Nunes Bícego foi um apóstolo do Senhor em razão das características do seu ministério. Mas, para o irmão ter a mesma convicção que eu, deve: em primeiro lugar, conhecer a fundo (se é que já não conhece) as características bíblicas do ministério apostólico; segundo, confrontar as tais características com as qualidades percebidas no ministério de Valdir Bícego. E foi isso que eu fiz, ao longo de quinze anos.
Em Cristo,Ciro Sanches Zibordi"
Meu comentário:
Prezado Pr. Ciro Zibordi,
Quanto me honra ver minha pergunta respondida pelo senhor com tamanho zelo e gentileza, a ponto de me chamar de "professor". Não mereço. Mas desde já agradeço não só pela deferência, mas principalmente pelo caráter substancial da análise do caso.Embora o senhor tenha tratado o tema com bastante profundidade e critério, passando pelos principais textos bíblicos pertinentes, gostaria, se me permite, anotar que essa questão de semântica precisa hoje ser ensinada ao povo, pois há alguns que se declaram apóstolos, e não o são (Ap 2.2), o que nem de longe seria o caso do Pr. Valdir Bícego, o qual estaria, certamente, ladeado por ninguém menos que os denominados "Apóstolos do Movimento Pentecostal" (Daniel Berg e Gunnar Vingren), do "Apóstolo da Amazônia" (Eurico Nelson, um batista), e do "Apóstolo dos Pés Sangrentos" (um hindu que se converteu e saiu pregando o Evangelho). Em todos esses exemplos houve um reconheicmento posterior, quiçá post-mortem, como esse que o senhor atribui ao saudoso Ir. Bícego. Entendo, salvo melhor juízo, que apóstolo não é título, mas dom, o que o senhor deixou claro. É como um enviado com missão especial, coisa que o senhor também destacou. Estaria esse dom como o de pastor, que, infelizmente, tem sido tratado por muitos como título - entendo que os dois ofícios bíblicos para a Igreja são "presbítero" e "diácono". No demais, há dons. Quanto a um outro sentido semântico para apóstolo, vejo que a referência de Lucas à doutrina dos apóstolos (At 2.42) e a alusão de João à cidade cujo muro era edificado sobre 12 fundamentos, com os nomes "dos doze apóstolos do Cordeiro" (Ap 21.14), repito, entendo que essas passagens mostram que houve um apostolado especial, "sui generis". Sei que o senhor pensa assim, mas foi muito bom estabelecer esse diálogo num momento em que outros grupos têm erigido seus "apóstolos" com novas doutrinas e novos fundamentos, supostas revelações. Na verdade, esse diálogo só pode ser construído com pessoas como o senhor, cujo raciocínio é muito claro, claríssimo. Não digo isso para nenhum outro objetivo senão o de motivá-lo a prosseguir com esse importante ministério. A propósito, poderia eu transcrever esse "post" do senhor em meu blog, com a devida citação da fonte? Seria para enriquecer o blog. Que Deus continue abençoando o senhor.
Comentário final do Pr. Ciro:
"Caro professor Alex,
A honra é minha em poder contar com a sua valiosa participação neste modesto blogue.De fato, "apóstolo" é, antes de tudo, um dom, uma chamada divina (Ef 4.11; 1 Co 12.28,29). O título de apóstolo é apenas um reconhecimento do que alguém é, verdadeiramente, pela vontade do Senhor.Não obstante, existem os lamentáveis casos de falsos obreiros que se autodenominam apóstolos (Ap 2.2; 2 Co 11), com a intenção clara de se vangloriarem, ignorando que não é o título que faz a pessoa; é a pessoa quem faz o titulo.As suas palavras de incentivo muito me animam! Pois procedem de uma boa fonte. O irmão pode usar o texto em apreço à vontade.Que Deus o abençoe, meu amado irmão!
CSZ".
*Ciro Sanches Zibordi é um pastor assembleiano que vem se destacando por livros como Adolescentes S/A, Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria, Erros que os Pregadores Devem Evitar, Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar, sendo ainda colaborador na recém-lançada Teologia Sistemática Pentecostal, todos pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus), na qual o pastor Ciro é editor de obras nacionais do Departamento de Publicações. Para ler o perfil completo, acesse http://cirozibordi.blogspot.com/2007/01/ciro-sanches-zibordi.html
CSZ".
*Ciro Sanches Zibordi é um pastor assembleiano que vem se destacando por livros como Adolescentes S/A, Evangelhos que Paulo Jamais Pregaria, Erros que os Pregadores Devem Evitar, Mais Erros que os Pregadores Devem Evitar, sendo ainda colaborador na recém-lançada Teologia Sistemática Pentecostal, todos pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus), na qual o pastor Ciro é editor de obras nacionais do Departamento de Publicações. Para ler o perfil completo, acesse http://cirozibordi.blogspot.com/2007/01/ciro-sanches-zibordi.html
Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
Debate entre Obama e McCain
No primeiro debate presidencial, os senadores Barack Obama e Jonh McCain deveriam falar somente de política externa e segurança nacional, mas o moderador Jim Lehrer já começou propondo o tema da grande crise financeira. De fato, não poderia ser diferente.
John McCain disse que vai cortar gastos e diminuir impostos, mas não admite reduzir gastos em defesa nacional. Defende a exploração petrolífera e a energia nuclear. Disse que vai eliminar gastos desnecessários, e que Obama, como senador, votou diversas vezes para aumentar gastos. Quer se descolar de George W. Bush.
Barack Obama disse que vai reduzir impostos para 95% dos americanos, melhorar a vida das pessoas de classe média, estabelecer um plano de saúde, adotar energias alternativas, como biocombustíveis e a energia eólica. Disse que McCain deseja se afastar de Bush, mas que o apoiou em 90% das vezes.
O moderador Jim Lehrer insistiu na pergunta de como a atual crise financeira vai afetar o futuro governo. Depois, mudando de assunto, questionou os presidenciáveis acerca das lições da Guerra do Iraque.
McCain vê o Irã como inimigo. Para ele, é preciso continuar essa política de Bush em termos de prevenção contra países que poderiam apoiar terroristas.
Tenho a impressão de que McCain, beligerante que é, atacou muito o seu oponente, fazendo com que Obama tivesse que se explicar sobre votações a favor de aumentos de gastos, por exemplo, e por não ter ido ao Iraque por 900 dias.
Parece que, embora seja considerado excelente orador, Obama se perde um pouco no debate. Ele fica se explicando, se defendendo, e, quando tenta atacar, McCain logo contra-ataca.
Não sei se foi uma gafe, mas, segurando uma caneta, McCain disse que como presidente teria essa caneta para cortar gastos, e emendou dizendo que a caneta era antiga. Ora, ele já é antigo (73 anos), e deveria passar a idéia de não continuar as políticas antigas do Bush. Entretanto, não deve achar fácil se desligar da imagem de velho, de retrato do continuismo, do conservadorismo, por mais que suas idéias muitas vezes tenham se afastado do Partido Republicano, tornando-o reconhecido por sua relativa independência.
Bom, não sou comentarista político, apenas escrevo enquanto ouço a transmissão da GloboNews, com tradução simultânea. Creio que devemos acompanhar esses passos da política americana, porque isso atinge o mundo inteiro.
Só assim!
Se Elias e Eliseu tivessem calado diante do sincretismo religioso promovido pela Casa de Acabe em Israel...
Se Jeremias tivesse calado diante de falsos profetas que pregavam paz e prosperidade quando Deus falava de juízo...
Se o SENHOR Jesus tivesse calado diante de fariseus legalistas e hipócritas...
Se Paulo tivesse calado diante de cristãos judaizantes e dos que adulteravam o Evangelho...
Se Pedro e Judas tivessem calado diante de falsos mestres que se infiltraram nas igrejas como bons moços para ensinar práticas libertinas, para baratear a Graça, para negar o senhorio de Cristo, para fazer comércio dos crentes "com palavras fíctícias"...
Se Tiago tivesse calado diante de crentes ricos exploradores de pobres, de declarações de fé meramente confessionais e formais, desligadas de obras que reproduzissem a fé...
Sim, só assim eu me calaria diante de homens que mudam de pregação e discurso só para ganhar dinheiro, prestígio e poder.
Só assim me calaria diante de líderes personalistas que edificam igrejas e "ministérios" em torno de seu nome.
Só assim me calaria diante de pastores que deixam ovelhas morrendo de fome espiritual e lhe entregam o pasto esbranquiçado da Teologia da Prosperidade, do Triunfalismo, falando de vitória antropocêntrica, quando Deus fala de honrar ao Seu Nome.
Só assim me calaria diante de livros de auto-ajuda travestidos de evangélicos.
Só assim me calaria diante de mentirosos que se apropriam do nome "evangélico" quando lhes convêm.
Só assim me calaria diante de músicas que exaltam o Homem, e não a Deus, e de cultos superficiais que aplaudem o Homem, e não a Deus.
Só assim me calaria diante de leitores que me dizem o que não sabem quando lêem o que não querem.
A ciberlinguagem da cibercultura
- Já não inicio mais nada. Agora, inicializo. Acho que o termo é mais adequado a um início que vai se iniciando no gerúndio das máquinas. Digamos que é como o gerundismo, mas que começa no infinitivo "inicializar". Pronto, um início meio que ponta-pé inicial, mas que vai se completar no decurso do tempo que urge.
- Deletei alguns arquivos de minha memória: vou ocupar meu HD com coisas mais importantes. E se for para recuperar, vai dar trabalho, não sei se meus softwares resolvem a parada.
- Às vezes eu esqueço de salvar documentos. E como o mundo virtual não é matéria, pode-se perder algo pelo caminho. Como dizia alguém diferente de Isaac Newton, na Informática pouco se cria, tudo se copia e cola, ou recorta e cola.
- Numa constante, todos se encontram no sítio, ou melhor, no site. Há uma rede de relacionamentos sem relacionamento. Uma série de perfis inventados, contatos sem contato, conexões desconectadas.
- Adicionei você aos meus favoritos é a frase da amizade e da admiração, ao passo que você tem 0 mensagens não lidas é motivo de lamento.
- Gosto da vida on line. Seja no banco, na igreja, em casa ou no restaurante, tudo deve ocorrer na hora, quando eu teclar enter. O dinheiro na mão, a bênção na mão, a comida na mão. Tem que ser na hora. Um dia, o trânsito e a burocracia serão informatizados. As compras e a movimentação financeira já são. Daí para um investimento espiritual on line são dois palitos, quero dizer, duas teclas, do tipo ctrl [control] mais alguma outra.
- Se houvesse computador no Éden, principalmente se fosse ligado à Internet, vocês veriam onde esse mundo ia parar. Ia parar no mesmo lugar, pois o componente mais problemático do computador é o que fica diante dele.
Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008
Assim é o Brasil...
Assim é o Brasil:
País em que um delegado e um juiz que cumpriam a lei passaram a ser ouvidos por instituições de direito para dar explicações sobre investigações que surtiam efeitos positivos.
País em que a prisão de uma quadrilha milionária desencadeou decisões e alardes acerca de algemas e grampos, podendo anular processos passados e impedir escutas necessárias ao deslinde de apurações criminais.
País em que o presidente que não sabia o que acontecia na sala ao lado vai com popularidade recorde.
País em que números oficiais aproximam ricos e pobres com uma facilidade incrível, fazendo com que classes muito diferentes fiquem agrupadas em três categorias: baixa, intermediária e alta, a ponto de eu mesmo ser considerado classe alta (!).
País em que o certo vira errado e o errado vira certo.
País em que o Congresso Nacional existe na prática para dizer que somos democráticos, mas que na verdade só ratifica os atos normativos do presidente, além de agregar um bando de sanguessugas do dinheiro público.
País em que já não se sabe se o sistema político é ruim por causa dos políticos ou se os políticos são ruins por causa do sistema político.
País em que o povo quer honestidade dos políticos quando ele mesmo tem entranhada em sua cultura a noção de que deve levar vantagem em tudo.
A condenação do Sargento Laci, por deserção, e a causa homossexual
Observe como a imprensa trabalha as notícias de maneira parcial, induzida: geralmente, como na notícia da Folha On Line, cuja fonte cito abaixo, a imprensa diz que ele foi preso depois de dizer publicamente que era gay e que mantinha uma "união estável" com outro sargento. No entanto, embora ele tenha mesmo sido preso depois da revelação pública (na Época, repetida na Rede TV!), a palavra depois sempre vem dando a impressão de que o homossexualismo foi o motivo da prisão, o que não tem nada a ver.
Com efeito, por mais que o Conselho Permanente de Justiça não quisesse, não poderia deixar de condenar um desertor, se de fato os autos demonstram que não houve causas excludentes da ilicitude ou da culpabilidade no caso concreto. Antes, a Juíza-Auditora não poderia deixar de receber a denúncia, e o Ministério Público Militar não poderia deixar de oferecer denúncia, assim como o Exército não poderia deixar de enviar à Justiça a chamada "Parte de Deserção", em que avisa que o militar faltou mais de 08 (oito) dias ao Quartel, o que, em si, já demanda uma prisão por 60 (sessenta) dias.
Ir contra o texto do Código Penal Militar é que seria ilegal. Se houver motivos para mudar a lei, que a discussão seja feita para casos comuns, e não apenas para um desertor que se diz homossexual e conclama a mídia para tratar de seu caso sob os auspícios da causa gay.
Além dos contornos próprios de um processo de deserção, o Sargento Laci conseguiu agregar fatores outros, não característicos de um processo tão simples. A imprensa, amiga da generalização, às vezes parece se esconder atrás do desconhecimento para dar seus recados abertos à sociedade.
Ao menos nessa questão eu tenho um mínimo conhecimento. E nas demais questões? Nem meu juízo crítico - apurado até demais - suporta tamanha parcialidade, data venia.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u448955.shtml
Querem de mim um auto-exame?
Sou burro por não entender de jeito nenhum que Deus deseja que todo cristão seja rico e imune a doenças.
Sou míope por criticar obras faraônicas ou ministérios personalistas de homens que lideram igrejas da prosperidade e da confissão positiva.
Sou antiquado por não aceitar modismos, como o G-12, a regressão, o perdão a Deus, as novas revelações, os novos apóstolos, a conquista de territórios, as "coberturas" de oração, o "tomar posse" do que não me pertence, a "determinação", o retorno a símbolos e práticas judaicas, os métodos de crescimento "explosivo" de igreja, os métodos e propósitos de Rick Warren e tantos outros.
Sou rebelde por não admitir que meus pastores saiam um milímetro dos fundamentos da Fé Cristã Evangélica, que eles dizem seguir e pregar.
Sou fanático por querer que as coisas sejam feitas estritamente do jeito que a Bíblia manda.
Sou alienado em todos os sentidos por acreditar que o inchaço do número de evangélicos e sua insersão social, política e midiática não autentica necessariamente o que se prega, e por ter convicção de que inexiste maturidade por parte de muitos que hoje se autodenominam "evangélicos" e alimentam as estatísticas do IBGE.
Sendo assim, quero ser burro, míope, antiquado, rebelde, fanático e alienado.
Quero ser burro para não raciocinar do jeito que o diabo pensa.
Quero ser míope para não enxergar na perspectiva do diabo.
Quero ser antiquado para não acompanhar as inovações do diabo.
Quero ser rebelde e dirigir toda a minha revolta contra as artimanhas do diabo, suas ciladas, suas saliências, suas estratégias, peçonhas e sutilezas.
Quero ser fanático num tipo de fanatismo que me dê reverente temor e tremor diante do meu Deus.
Quero ser alienado do pecado e próximo de Jesus Cristo.
E se o leitor tem por acaso alguma dificuldade de interpretação de textos, leia meu texto umas cinco vezes, e depois pense em tirar alguma conclusão minimamente coerente.
Desculpe. Estou com a paciência curta.
Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
A Ultimato sobre Edir Macedo provocou reações!
A excelente revista Ultimato, de que sou assinante e admirador confesso, causou reações exaltadas de leitores que não admitem contrariedades à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e ao pensamento da Teologia da Prosperidade (O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fica no ar, edição 314, julho/agosto de 2008).
Certamente há outros comentários desaforados, mas a revista transcreveu alguns que já dão a idéia de como os artigos repercutiram entre os adeptos do Edir Macedo. Ao mesmo tempo, há os leitores que se sentiram premiados pela oportunidade e percuciência das matérias. Eu fico com o segundo grupo.
Vale dizer que essa edição trouxe artigos sobre o que Edir Macedo diz e o que a Bíblia diz sobre temas como dízimos e cura, extraindo coisas que o próprio fundador da IURD disse para seu biógrafo colocar no livro O Bispo.
Vou citar os leitores insatisfeitos: uma pessoa identificada apenas como Márcia disse ter ficado "indignada com tamanha ignorância cristã". Perguntou: "quem vocês pensam que são"? Disse que a revista é invejosa do "tamanho da obra que o Senhor Jesus faz através da IURD". Sugeriu que a revista peça a Deus "sabedoria para escrever". Declarou que deseja prosperidade, sim, e não aceita ficar doente. Mencionou, peremptoriamente, que "todos os grandes homens da Bíblia eram prósperos e saudáveis". Seguindo seus ataques ao pessoal da revista, disse que é por causa de pessoas como eles que o mundo está cheio de miséria e dor. E, demonstrando seus supostos conhecimentos teológicos, disse que, ao morrer na cruz, "Jesus levou sobre si todas as nossas dores e enfermidades".
Há muitas ponderações a fazer sobre o dito de Márcia:
a) O que ela chama de obra do Senhor Jesus por meio da IURD? A construção de grandes catedrais imitadoras do Catolicismo Romano Medieval? A deturpação do Evangelho? A promoção da Teologia da Prosperidade? A proposta materialista e triunfalista? O retorno a figuras veterotestamentárias sem nenhuma conexão de sentido com a mensagem cristã, apenas para subsidiar campanhas estranhas? O grosso volume de dinheiro que se arrecada de pessoas das mais variadas classes sociais, sob promessas egoístas? A compra de espaços midiáticos e o alcance de espaços políticos com o fito de imitar os mecanismos de poder do mundo? Isso é obra do Senhor Jesus, por acaso?
b) O que é prosperidade? Quem disse que prosperidade é riqueza? Pobreza é maldição? Riqueza é atestado de idoneidade moral e relação com Deus?
c) O que a Márcia diria a Jó, acometido de uma doença horrível, e a Paulo, que orou para se livrar de um problema e não obteve a resposta que desejava, mas a que precisava? E a morte sangrenta de todos os apóstolos, exceto João, e do próprio Jesus? A morte não é o ápice da vulnerabilidade humana, mais que a doença?
d) Onde está escrito que todos os grandes homens da Bíblia eram "prósperos" - no sentido da IURD - e "saudáveis"? Paulo não era um grande homem? Veja-se Gl 4.13-20, em que ele diz claramente ter sido acometido de "enfermidade física", possivelmente nos olhos. E Jó? Ele não era um grande homem?
e) A questão da miséria e dor no mundo decorre de uma postura humilde, altruísta e generosa ou de uma atitude individualista, egoísta e materialista? Quem, pois, concorre para o pecado social: o que dá ao pobre sem esperar em troca ou o que diz dar a Deus almejando ficar rico?
f) Quanto à morte de Jesus e seu efeito curativo, é justo dizer que a passagem de Mt 8.17, citando Is 53.4 - pressupostas, na verdade, pela Márcia - , repito, é justo dizer que isso atribui cura universal automática ou que Jesus tem poder de curar universalmente?
Então, as incongruências não são da revista, mas da Márcia, que chama Ultimato de ignorante e invejosa. Sugiro a Márcia que leia mais a Bíblia, mas sem os óculos do Edir Macedo. Aliás, ele ainda usa óculos ou já foi curado?
Outro leitor, Esdras Machado, disse que reconhece o quanto [a IURD] tem feito pelo Evangelho; que Ultimato poderia "deixar de lado os neopentecostais e os que acreditam na teologia da prosperidade e usar seu espaço na mídia para anunciar o evangelho".
Meu Deus! Que "evangelho" é esse que o Esdras Machado defende? Haveria coerência em defender o Evangelho e deixar de combater heresias? Paulo deixou de tratar de falsos mestres? Judas deixou de tratar de falsos mestres? Pedro deixou de tratar de falsos mestres? Jeremias deixou de enfrentar falsos profetas? Que proposta é essa? E, mais do que isso, quem disse que a IURD é neopentecostal mesmo? Bem por isso, é muito importante ler o artigo Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes*, de Robinson Cavalcanti, na edição de setembro/outubro deste ano. Humildemente, eu mesmo, um assembleiano histórico, já me incomodava muito em ser tão aproximado ao pessoal da IURD e outras tantas por causa dos rótulos pentecostais e neopentecostais. Agora, corroborado por Robinson Cavalcanti, posso pensar em outras classificações para esses grupos estranhos que têm surgido.
Ainda outro leitor, o chamado "apóstolo" (sic) Alex Consacas, já foi logo perguntando para que reino a Ultimato trabalha, e afirmou ter aprendido a não "dividir reinos". Para ele, o importante é não dividir reinos, ainda que divergindo de "alguns pontos doutrinários". E acha que a IURD não é seita.
Ora, uma coisa é discordar de "alguns pontos doutrinários". Coisa muito diferente é ser desigual nos fundamentos da Fé, quanto à natureza da obra de Cristo. Quem diverge nesse tema precisa estar em reinos diferentes. Não há acordo se nos dispomos a defender elementos fundamentais diferentes.
É válido dizer que já me acusaram, neste blog, de "dividir reinos". Então, mais uma vez humildemente, estou bem acompanhado: Ultimato já vem, na verdade, dizendo que a Igreja de Cristo e o pessoal que acompanha o Edir Macedo estão em pólos distintos e distantes.
É engraçado. A leitora Márcia Paes O. Correia chamou de "inverdades" o que a revista publicou sobre a IURD, e disse ficar "revoltada quando as pessoas usam inverdades para ganhar dinheiro". Portanto, em raciocínio cartesiano, ela deveria ficar deveras chateada com os pregadores da Teologia da Prosperidade, que pregam para ganhar dinheiro, usando inverdades. Estou errado?
Por fim, ao ler essas cartas à Ultimato, fico ao mesmo tempo triste e alegre: triste por saber que existem idéias tão limitadas quanto ao que significa seguir a Cristo, e alegre por constatar que minha veemente indignação se associa à indignação tanto da Ultimato como de muitos leitores que, a exemplo de alguns que tiveram suas cartas publicadas, entendem que seguir a Cristo é diferente de ganhar o mundo e perder a alma.
Jesus é bom. Ele nos basta.
* Leia nosso texto O caráter incompleto dos rótulos e alguns rótulos do mundo evangélico, neste blog, acessível facilmente pela busca.
Há outros textos correlatos a esta postagem, como O gnosticismo presente em nossas igrejas; Teologia de Panfletos (III) - "A unção que despedaça o jugo!".
Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008
Tentações de poder, soberba e dominação
Jesus foi tentado quanto ao poder, à soberba e à dominação (Mt 4.1-11; Mc 1.12,13; Lc 4.1-13; ver ainda Hb 4.15). O diabo investiu contra o nosso SENHOR com as propostas de satisfazer necessidades imediatas pelo uso do poder sobrenatural (transformar pedras em pães); tentou incutir em nosso Mestre o desejo de dominar sobre reinos desta Terra, se adorasse ao príncipe das trevas; bem como o convidou a demonstrar poder de se livrar da morte, lançando-Se do topo do Templo, para assim alimentar uma soberba que Jesus jamais conheceu.
Preciso admitir que eu também sou tentado nessas áreas. Sou tentado ao poder, à soberba e à dominação. Sou tentado, talvez não ao poder sobrenatural, mas ao poder da palavra, ao poder da persuasão racional, ao poder do convencimento dialético. Sou tentado à soberba de meus argumentos, de minha suposta inteligência, de minhas experiências. Sou tentado à dominação de quem eu venha a liderar. Aliás, pequenos grupos também são campo propício à exibição de vaidades.
João escreveu que as coisas do mundo, entre elas a "soberba da vida", não procedem do Pai (I Jo 2.16). E, se o eventual leitor observar, os três itens citados por João como sendo as "coisas do mundo" - concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida - foram palmilhados pelo primeiro casal quando lançaram mão da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal (Gn 3.5-7). O engodo da serpente consistiu em que eles achassem que comer daquela árvore traria entendimento ético alienado de Deus, tornando-os como se fossem Deus.
A tentação da soberba bate à minha porta dizendo que não dependo de Deus, que posso fazer tudo sozinho, que minhas idéias e palavras são convincentes, que minhas escolhas acertarão o alvo. No entanto, não sou auto-suficiente, não sou um deus. Dependo inteiramente do meu Criador e SENHOR.
Vivemos um momento difícil na Igreja brasileira - perdoe-me repetir isso. Vivemos um período em que líderes constróem ministérios em torno de si, e têm a coragem de dizer que glorificam a Deus, quando estão glorificando a si mesmos. São egocêntricos, e alguns mais parecem megalomaníacos. Suas igrejas têm que ser as maiores, seus templos, mais luxuosos, suas estratégias, mais avançadas, seus livros, mais vendidos, suas supostas "revelações", mais urgentes, mais originais. Falam de conquistas e vitórias, mas não é a Deus que se entregam os despojos.
Quero crer que não irei entrar por esse caminho. Tenho fé que não irei. Espero em Deus que minhas pregações e meu ensino venham despertar pessoas ao Evangelho puro e simples que Jesus nos deixou, assim como eu mesmo preciso a cada dia ser transformado. Olha, como eu preciso ser transformado...
Mais sobre "a lei da semeadura financeira"
É impressionante como as pessoas são atraídas pelo erro. Elas gostam disso. De fato, não posso duvidar da doutrina bíblica da Queda. Toda vez que ouço o ensino de que se deve semear dinheiro para colher mais dinheiro, penso em como a Teologia da Prosperidade tem se infiltrado na Assembléia de Deus.
Já escrevi algumas coisas sobre o assunto. Essa tal "lei da semeadura financeira" é esotérica, tem relação com a "lei da atração", segundo a qual é necessário entrar na frequência das coisas boas, e se afastar da frequência das coisas ruins. Eu abomino o esoterismo, pois a Bíblia não aprova conhecimentos alienados de Jesus Cristo.
Na igreja, esse ensino aparece na forma de entregar o dízimo e ofertar com alegria para que o dinheiro volte. É bem parecido com os esotéricos que ensinam algo como "pague a seus fornecedores ou assine o cheque com alegria, sem sentimento de posse, para que o dinheiro volte, porque o que você faz de bom grado retorna para você".
Ouço o pastor falar de plantar e colher, investir e receber. Cada envelope é, segundo ele, um investimento num sonho que se tem. Meu Deus! Isso é materialismo puro, egoísmo sem-vergonha, nada tem que ver com o Evangelho!
Fico imensamente desapontado com esses pastores que ensinam o que Deus não ordenou. Fico triste. Meu coração treme dentro de mim.
O pior é que esse tipo de convite materialista é feito até mesmo em cultos de missões. Em vez de se enfatizarem as necessidades dos missionários e da obra que eles realizam, há espaço para pedidos de ofertas especiais a fim de que Deus recompense copiosamente os generosos. Há uma apelação financeira horrível, que fala profundamente aos corações egocêntricos, e passa a errônea impressão de que o Cristianismo é dinheiro, dinheiro e dinheiro.
Será que eu preciso dizer mais uma vez que eles interpretam enganosamente Ml 3.10, II Co 9.6ss e Gl 6.7,8, bem como uma série de outros textos tanto do Antigo como do Novo Testamento? Será que eu preciso repetir que Mike Murdock, no livro A Lei do Reconhecimento, ensina deslavadamente a lei da semeadura financeira, a qual Silas Malafaia tem disseminado em suas inúmeras palestras motivacionais? Será que eu preciso dizer que o mesmo Mike Murdock expõe conceitos gnósticos e de sabedoria oriental ao afirmar, logo de início, que a ignorância é o problema da Humanidade, quando a Bíblia diz que o problema da Humanidade é o pecado (Rm 3.23)?
Sim, preciso repetir tudo isso, e em alto e bom som, primeiro porque pouca gente lê o que escrevo; segundo, porque os que lêem geralmente pensam como eu; terceiro, porque tenho poucas oportunidades em minha igreja, e, quando tenho, são poucos os que me ouvem.
Será que vou ter que usar minha despedida para falar coisas que eles não ouvirão de outra forma? Será que vou ter que me antipatizar? Será que aqueles que ensinam o erro prevalecerão?
Ora, tenham santa paciência! Lei da semeadura, não!
Domingo, 21 de Setembro de 2008
Mais uma mudança em nossas vidas
De acordo com o concurso de remoção de que acabo de participar dentro do órgão a que pertenço, mudaremos de Campo Grande-MS para Salvador-BA, que fica a 128km de minha cidade natal, Alagoinhas. Resolvi inserir isso neste blog porque essa repentina mudança tem nos afetado aqui em casa, e certamente conduzirá boa parte de minhas postagens futuras.
A mudança ocorrerá nos próximos meses, dependendo de questões administrativas. Meus pais e irmãs estão contentes, e nós, aqui de casa, cheios de coisas para decidir, resolver, sonhar.
Terei que estancar o curso de teologia que faço na FATHEL. Essa é uma de minhas maiores tristezas, mas espero ter construído uma rede de amizades e relacionamentos que poderão permanecer por muito tempo. Espero realmente continuar meus estudos teológicos, que somarão dois anos em fevereiro de 2009.
Na verdade, como escrevi em outro texto, eu leio teologia desde 2002, mas não era estudante. Como aprecio muito a vida acadêmica, espero poder continuar esses estudos numa instituição em Salvador, preferencialmente de perspectiva não-denominacional.
Também terei saudade de pessoas da Assembléia de Deus-Missões e da própria Faculdade, bem como do meu ambiente de trabalho lá no Ministério Público Militar. Mas, para segurar a emoção, prefiro pensar que irei para a Bahia tendo adquirido experiências e amizades, em vez de sair com a triste noção de que perderei amigos.
Não, não perderemos amigos: o fato é que nossa passagem de cerca de dois anos por Campo Grande foi e tem sido uma bênção de Deus, assim como foi importante viver em Minas Gerais (Viçosa e Sete Lagoas) por cerca de 10 anos.
Alguns se surpreenderão ao ler essa notícia aqui neste espaço. Com efeito, poucas pessoas sabem disso, que ficamos sabendo no dia 15 deste mês. Mas aproveito o blog para saudar e agradecer aos irmãos e amigos que fizeram de nossa estada em Campo Grande um período feliz.
Além dessa remoção, há o bebê que a Miriam tem no ventre há 05 meses. Ainda não sabemos se nascerá baiano ou sul-matogrossense, por aquelas razões administrativas a que me referi. Nascerá numa família de baianos, piauienses e paulistas, que ainda conta com a mineirinha Elisa.
Bem, é uma etapa de transição. Talvez minhas postagens venham refletir um pouco disso daqui em diante. Meu desejo é que os bons frutos de Campo Grande, especialmente na teologia, perdurem em meu coração, porque aqui eu aprendi bastante.
Até breve, ou muito breve.
Da liberdade
A liberdade da Doutrina Bush ao Iraque
É a liberdade de araque:
Uma liberdade que se impõe
Não é de verdade.
Uma liberdade que se impõe
Não é a Verdade.
A liberdade libertina também não liberta.
A liberdade libertina se declara aberta,
Mas tropeça no erro de não conhecer regras.
A liberdade verdadeira tem limites
Que respeitam o ser livre, o ser do outro.
E a Verdade que liberta é conhecida
Dos que, livres, testemunham seu estado.
Disse bem o lusitano que o amor
É "servir a quem vence, o vencedor".
Nesse ponto concordamos,
Não há mancha em seu riscado:
Liberdade é a contradita do egoísmo,
É escravizar-se ao amor, ao desatino,
À loucura de um Deus que Se entregou
Por um povo egoísta e sem amor.
Liberdade não é aquela estátua,
Que se ergue altaneira, poderosa.
Liberdade é voar no céu de anil
Com as asas adequadas ao voar.
Diferente é tomar um vôo errante
Que de vôo se transforma em queda livre.
É a liberdade de araque:
Uma liberdade que se impõe
Não é de verdade.
Uma liberdade que se impõe
Não é a Verdade.
A liberdade libertina também não liberta.
A liberdade libertina se declara aberta,
Mas tropeça no erro de não conhecer regras.
A liberdade verdadeira tem limites
Que respeitam o ser livre, o ser do outro.
E a Verdade que liberta é conhecida
Dos que, livres, testemunham seu estado.
Disse bem o lusitano que o amor
É "servir a quem vence, o vencedor".
Nesse ponto concordamos,
Não há mancha em seu riscado:
Liberdade é a contradita do egoísmo,
É escravizar-se ao amor, ao desatino,
À loucura de um Deus que Se entregou
Por um povo egoísta e sem amor.
Liberdade não é aquela estátua,
Que se ergue altaneira, poderosa.
Liberdade é voar no céu de anil
Com as asas adequadas ao voar.
Diferente é tomar um vôo errante
Que de vôo se transforma em queda livre.
Não me iludo com as esquerdas
As esquerdas acham que têm o monopólio da razão, da ética e da defesa dos pobres. Sua ideologia tende a ser autoritária, porque não reconhece a legitimidade de discursos diferentes. Não gostam da imprensa, a quem chamam quase pejorativamente de "mídia". Não gostam da integração das minorias - apreciam, isto sim, sistemas de cotas para negros e reservas autônomas de índios. As esquerdas precisam da pobreza e do "imperioalismo ianque" para continuar vivendo, e gritam contra o Direito como se ele fosse o modelo jurídico das elites.
Olha, eu também não me iludo com a direita, seja ela uma direita católica, uma direita evangélica, uma direita policial ou uma direita dos coronéis. Não me iludo com ideologias que vendem a imagem de um mundo concebido sobre bases filosóficas. Tanto a direita como a esquerda estão erradas e certas ao mesmo tempo.
No entanto, escrevo sobre minha desilusão com as esquerdas porque já tive a impressão de ser um esquerdista, quando era mais jovem. Na verdade, parece-me que os professores eram, em geral, de esquerda. Entendo que, de certo modo, como nasci sob a ditadura militar, e cresci no período imediatamente posterior a ela, todo mundo que tivesse repulsa àquele regime era visto como meio esquerdista. Foi assim talvez que o sociólogo e senador Fernando Henrique Cardoso chegou à Presidência da República com aplauso de direitistas e esquerdistas, ainda que timidamente. FHC, é bom dizer, nunca foi de esquerda mesmo.
Vejo programas eleitorais na televisão: esquerdistas de partidos "operários" chegam ao ridículo de apregoar um trabalho de lutas sindicais, quando deveriam pedir votos para seu programa político. E, em vez de falarem dos problemas da cidade e de suas idéias para resolvê-los, candidatos a prefeito e vereador falam de direitos trabalhistas, luta de classes, conflito entre capital e trabalho, como se estivessem disputando alguma eleição federal!
Outro problema da esquerda é essa defesa de uma tal "diversidade sexual" que serve apenas para aprovar leis que criminalizam opiniões divergentes do homossexualismo, além de defender que homossexuais se casem, se exibam nas ruas com seus parceiros e adotem crianças. As esquerdas têm esse viés, digamos, anti-moral cristã, que acaba apoiando o aborto, o divórcio, a união civil de pessoas do mesmo sexo.
Quando não sabem resolver problemas internos, as esquerdas se voltam contra os Estados Unidos: vide Evo Morales, na Bolívia, e seu padrinho Hugo Chávez, na Venezuela. Ainda bem que o Presidente Lula, embora de um Partido de esquerda, não segue o caminho de seus colegas mais exaltados.
Esquerdistas são múltiplos, eu sei: há os comunistas viúvos da extinta União Soviética, bem como os trabalhistas e os socialistas. Eles convivem mal com a Constituição de 1988, que é social-democrata, e por isso vivem apedrejando o establishment.
A Constituição de 1988 é social-democrata porque contém direito de propriedade e função social da propriedade; livre iniciativa e defesa da concorrência e do consumidor; mercado livre e intervenção no mercado; liberalismo econômico e direitos trabalhistas; igualdade perante a lei e defesa das minorias, como índios, crianças, adolescentes e idosos. Esses são alguns lineamentos políticos que indicam o caráter social-democrático de nossa Constituição. Por isso, os marxistas se chateiam: eles querem a eliminação da propriedade privada, a ditadura do proletariado e, enfim, outra Constituição.
Esquerdistas gostam do regime de Cuba, admiram Fidel Castro, cujo (de)mérito foi criar uma sociedade em que todo mundo é igualmente pobre. Esquerdistas vêem o País dividido entre a elite e os pobres, e têm um discurso que divide, em vez de agrupar: pobres e ricos, negros e brancos, índios e brasileiros, homossexuais e homófobos. Daqui a pouco criarão um apartheid entre religiosos obscurantistas e não-religiosos inteligentes.
Portanto, não sou adepto desse autoritarismo de esquerda. Sou adepto da justiça e da democracia, que se constroem no diálogo, no processo, no coditiano. Nenhuma solução messiânica nos salvará.
Sábado, 20 de Setembro de 2008
Ativismo versus Cristocentrismo
Há muito de Marta e pouco de Maria na Igreja brasileira. Do que estou tratando? Refiro-me à passagem de Lc 10.38-42, que o eventual leitor conhece. Temos uma teologia prática que anda mais com Marta do que com Maria, aquelas irmãs de Betânia que hospedaram Jesus numa de Suas viagens.
Nota-se que Marta toma a iniciativa, pois, embora residisse com Maria, o texto revela que foi Marta quem hospedou o Mestre. Ela parece uma pessoa disposta, ativa, determinada. Isso, por si só, não é ruim, mas pode ser mal empregado.
Veja-se que, enquanto Maria "quedava-se assentada aos pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos", Marta "agitava-se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços" (vv.39,40). O texto é bem claro, e facilita o ofício do intérprete ou do pregador: Marta representa os crentes ativistas; Maria, os crentes que ouvem Jesus falar.
Marta, com sua personalidade forte, achou-se no direito de exigir de Jesus uma repreensão a Maria, pelo fato de permitir que esta não fosse ajudá-la. No entanto, em vez de repreender Maria, Jesus dá uma importante lição à agitada Marta: "Marta, Marta! andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário, ou mesmo uma só cousa; Maria, pois, escolheu a boa parte e esta não lhe será tirada" (vv.41,42).
Analisemos isso. Por mais difícil que seja extrair traços comportamentais de pessoas que viveram há 20 séculos, e cujas caractetísticas vêm descritas em poucas palavras, é possível fazer aplicações para hoje porque o texto se presta exatamente a essa função. De fato, Lucas não o registrou por acaso.
Com efeito, Marta representa o ativismo evangélico que herdamos dos norte-americanos. Maria simboliza os crentes que reconhecem a centralidade de Jesus, deixando que Ele diga o que quer dizer. Meu professor IVAN GONÇALVES chamou isso de Teologia de Servo numa de nossas aulas.
Somos ativistas, aprendemos isso com os missionários estadunidendes. Achamos que ser cristão resume-se a "servir a Deus". Pensamos em todo crente como um "obreiro". Medimos a espiritualidade pela frequencia aos "trabalhos da igreja", às atividades, pelo engajamento "na obra de Deus". Ora, tudo isso é importante, mas a vida cristã não se resume a servir, trabalhar, frequentar, atuar. A vida cristã passa antes pelo estar com Jesus, ouvir Jesus, ficar aos pés de Jesus, exercer comunhão com Jesus.
Amado leitor, eu critico a Igreja brasileira porque amo a Igreja brasileira. Eu não a criticaria se não a amasse. Justamente por isso, tenho repulsa aos que se apossam dela, e fomentam uma atitude conformista ou triunfalista nos crentes. No caso deste texto, critico o ativismo, que não deixa de ser uma distorção que nos afasta de Jesus. E, mesmo honrando a herança dos nossos missionários, não posso aceitar tudo sem um juízo crítico, sem um filtro.
Voltando a Marta e Maria, observe bem: quantas vezes dizemos que somos "servos de Deus"? Muitas vezes, não? Mas, quantas vezes reconhecemos que somos "filhos", "amigos", "herdeiros"?
Pelo amor de Deus, não pense que sou daqueles que usam a frase "sou filho do Rei" para arrogar para si direitos materialistas sobre o SENHOR. Aliás, o que Deus nos concede não é por direito, mas por Graça. Nada podemos reivindicar, exigir, cobrar, nada há que tenhamos dado ao SENHOR para que Ele tenha que nos restituir (Rm 11.35). Pelo contrário, a fé bíblica consiste em confiar nas promessas e obedecer às prescrições de Deus. Isso é fé, bem diferente de um conceito de legalidade sobre Deus que alguns têm ensinado em igrejas pós-modernas.
Quando me refiro à nossa condição de amigos, filhos ou herdeiros de Deus, quero chamar a atenção para outras metáforas bíblicas que não a do servo. Na verdade, muito de nossa teologia guarda elementos culturais dos povos. Esse comportamento "faça você mesmo" é típico dos norte-americanos, porque eles são práticos, vêem a vida em função da utilidade, da ação, da finalidade, do resultado - isso em linhas gerais, por favor!
Qual deve ser, pois, a nossa teologia? Abandonaremos o estilo Marta e nos aferraremos ao perfil de Maria? Creio que essa deve ser a minha sugestão. "Ora - alguém perguntará - e quanto ao equilíbrio? Não deveríamos ser um pouco Marta e um pouco Maria"? Digo que não porque o que Jesus disse foi bem claro: uma só coisa é necessária, e foi Maria quem a escolheu. Dito de outro modo, é como um reflexo daquela frase de que sem Jesus nada podemos fazer (Jo 15.5).
Como nos comportaríamos hoje se Jesus aparecesse em nossa aldeia? Mas a questão, amado, é que Ele está em nosso meio Se apresentando a cada reunião cristã. Entretanto, quantos são os que, como Maria, ficam atentos à Sua doce voz? Quanto ficam parados a ouvi-lo? Quantos conseguem refletir sobre o que está sendo ensinado? E mais: o que está sendo ensinado? É Jesus mesmo que está falando? E onde estão os crentes? Estão querendo ouvir a voz de Cristo ou se atabalhoando em muitos trabalhos?
Como assembleiano, sei do que estou tratando. Fomos evangelizados por um pessoal que tinha essa maravilhosa cultura do "ganhar almas", o que é muito bom. Todavia, com o passar do tempo, vejo que nossas igrejas têm sido caracterizadas por um ativismo notável: festas, cruzadas, comemorações, congressos, grandes aglomerações, calendário repleto de eventos para todas as idades. Eu aprovaria tudo isso se o povo fosse ensinado em termos cristocêntricos, mas não é isso o que ocorre. O que percebo é uma inanição das ovelhas, que, à falta de pão do Céu, iludem-se com as relvas esbranquiçadas do ativismo, do Triunfalismo e da Teologia da Prosperidade.
Não, eventual leitor, eu não sou mal-amado: se alguém tivesse falado certas coisas desde o início, a Igreja Romana não se teria tornado o que se tornou: um sistema pútrido de heresias, hipocrisia e promiscuidade política.
Portanto, continuo crendo que devemos olhar mais para Jesus, entender qual a suma do Evangelho, qual a essência do viver cristão. Quem sabe se a simples atitude de Maria não nos tornaria um pouco mais sensíveis à Palavra de Deus?
Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008
Um teclado sob as mãos e uma idéia na cabeça
Com "uma câmera na mão e uma idéia na cabeça", Glauber Rocha dizia fazer seus filmes, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, que assisti há muitos anos. Não vou tratar de cinema, mesmo porque não entendo nada de filmes: apenas lembrei da frase do cineasta Glauber Rocha porque estou com uma idéia nessa cabecinha modesta - pegar postagens deste blog, imprimir e encadernar, como um pequeno livro.
Qual o objetivo disso? Olha, como não sou muito organizado, tenho dificuldade de escrever continuamente sobre um tema, de maneira científica, tal como se faz em pesquisas, em monografias acadêmicas. Mas sei que há algum tempo venho nutrindo o desejo de ver minhas idéias assentadas no papel. Com a ferramenta do blog, em que escrevo quase diariamente, foi possível reunir, sei lá, algumas centenas de textos sobre Igreja, textos bíblicos, críticas, teologia. Esses textos estão arquivados virtualmente, como o eventual leitor pode ver naturalmente no Arquivo do Blog (existe também o recurso de "busca").
No entanto, minha vontade de escrever um livro é tão grande que, mesmo com os textos arquivados, creio que seria útil pegar essas postagens e lançá-las num livro, ainda que para colocar numa estante de casa e dizer: ali estão meus rascunhos, um resumo do que penso. Poderia até fazer algumas cópias para pessoas determinadas, que quisessem receber essa lembrança.
Como não sou intelectual nem pesquisador, tampouco formador de opinião, considero-me tão-somente uma pessoa que gosta de se expressar em português escrito e falado. Pronto. Gosto de escrever e de manifestar opiniões, principalmente sobre os rumos da Igreja brasileira, ou sobre a interpretação de textos bíblicos, na forma de ensino.
Talvez a palavra mais acertada para isso que tento fazer seja "ensaio". Certa vez, conversando com meu professor Pr. FERNANDO GLÓRIA CAMINADA SABRA e com o colega MARCELO AZAMBUJA, concluímos que "ensaio é uma coisa que não demanda tanta pesquisa, mas que você crê que precisa ser dita". De minha parte, creio que há muita coisa a ser dita. Ainda que poucos queiram ouvir, ou ler. O que não posso é deixar de falar, nem de escrever.
Enquanto não passo à pesquisa teológica - área mais técnica, mais complexa e mais metódica -, dedico-me suavemente à arte de escrever sobre aquilo que me dá na telha. Aliás, enquanto o teclado aceitar, minhas mãos continuarão catando milho e plantando sementinhas de mostarda.
Venho do agreste
Venho do agreste:
Meu sotaque o denuncia.
Um pouco pra cá do sertão,
Antes do litoral.
Venho do agreste,
Nordestino da Bahia,
Filho de quem veio
Das terras do Piauí.
Venho do agreste,
Mas peguei o trem de Minas,
E consigo ter saudade
De queijo e de acarajé.
Venho do agreste
Quando a pele era macia,
Mas agora, esposo e pai,
Volto a quem me deu à luz.
Venho do agreste,
Das terras de Alagoinhas,
Cujo nome em diminuto
Guarda em si o mundo inteiro.
Venho do agreste,
Mas passei à Cidade Morena
Onde a filha, tão pequena,
Descobriu seu próprio mundo.
Venho do agreste.
Na verdade, meu coração é agreste:
Rude, indelicado e silvestre.
Meu sotaque o denuncia.
Um pouco pra cá do sertão,
Antes do litoral.
Venho do agreste,
Nordestino da Bahia,
Filho de quem veio
Das terras do Piauí.
Venho do agreste,
Mas peguei o trem de Minas,
E consigo ter saudade
De queijo e de acarajé.
Venho do agreste
Quando a pele era macia,
Mas agora, esposo e pai,
Volto a quem me deu à luz.
Venho do agreste,
Das terras de Alagoinhas,
Cujo nome em diminuto
Guarda em si o mundo inteiro.
Venho do agreste,
Mas passei à Cidade Morena
Onde a filha, tão pequena,
Descobriu seu próprio mundo.
Venho do agreste.
Na verdade, meu coração é agreste:
Rude, indelicado e silvestre.
Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008
Sugestões para cristãos principiantes na arte de pensar a fé
1) Desconfie de best sellers evangélicos;
2) Não deixe de perceber pequenas mudanças doutrinárias de seu pastor;
3) Não corra atrás da maioria;
4) Afaste-se de bajuladores;
5) Entenda que Igreja e Reino de Deus são coisas distintas;
6) Admita que a Igreja de Cristo difere das igrejas dos homens;
7) Analise o que prepondera no discurso de quem prega;
8) Reconheça que não há letras de música inspiradas por Deus, a não ser os salmos;
9) Fuja rápido de "apóstolos" autopromovidos;
10) Mantenha-se longe de quem diz ter recebido revelação direta de Deus, com caráter geral;
11) Procure um grupo de crentes com quem possa exercitar a Fé com simplicidade;
12) Apegue-se às bases de fé, tendo a mensagem da Cruz como fundamento inabalável;
13) Não aceite o milagre, a bênção nem a experiência individual como medidas de avaliação do que se apresenta como verdade. Em todo caso, fique com a Bíblia, não duvide dela, desconfie de si mesmo;
14) Saiba unir fé e razão - o repouso em Deus como estilo de vida e a dúvida bereana como critério de aferição do que ouve e vê.
Como somos vistos pelo mundo?
Parece-me que a sociedade enxerga os evangélicos como um grupo social emergente que assume poderes cada vez maiores. Há uns 20 anos, éramos fanáticos, alienados, diferentes; hoje somos admirados e temidos, mas isso não é necessariamente bom para a Causa de Cristo.
É certo que há uma heterogeneidade absurda no meio evangélico, mas o que conta é o conceito geral que as pessoas têm de nós. Virou moda ser evangélico ou gospel. Não sei se estou enganado, mas parece existir até certo ar de superioridade no dizer "sou evangélico", quando há poucos anos era motivo de chacota ou mesmo perseguição em alguns lugares do Brasil.
Há um fenômeno religioso-social em ação: artistas em fim de carreira ressurgem das cinzas cantando músicas que "falam de Jesus". Empresários em bancarrota frequentam as sessões motivacionais da Igreja Universal, da Sara Nossa Terra, dentre outras igrejas-corporações. Políticos tornam-se evangélicos e evangélicos se tornam políticos, vendendo a alma de muitas ovelhas, quero dizer, vendendo o voto dessas ovelhas. Televangelistas conseguem madrugadas inteiras ou o horário nobre na grande TV, quando sabemos que há poucos anos esses programas se limitavam às primeiras horas das manhãs de sábado ou domingo. A que custo isso se dá? Nem me refiro aos milhões de reais...
É. Dir-se-á que nunca antes na história desse País a obra de Deus foi tão abençoada. Será?
Estamos mesmo crescendo, eventual leitor? Mas, como é que a sociedade nos enxerga?
Alguém dirá que isso não é importante, que o que interessa é o que Deus pensa de nós, que "o homem natural não compreende as coisas do Espírito"...No entanto, precisamos saber se o que as pessoas pensam de nós é fruto de preconceito ou de nossas próprias ações.
Acredito que a sociedade em geral pensa assim: os evangélicos são um povo numeroso que não venera Maria, não usa santos em suas igrejas e que gosta de comprar CD´s, livros de auto-ajuda de autores evangélicos e uma série de artigos com textos bíblicos.
Puxa vida! É isso o que eu penso também!
Ser evangélico tem sido algo confuso para mim. Eu me identifico com a fé evangélica, mas não me identifico com a prática evangélica que caracteriza a Igreja brasileira. Já consigo ter dificuldade em dizer que sou evangélico dependendo do interlocutor - não que eu tenha vergonha de Jesus! Tenho vergonha da prática dos evangélicos brasileiros que aparecem mais.
Crescendo numa igreja evangélica, e, mais do que isso, pentecostal, ouvi aquela história de separação do mundo como se tivéssemos que nos apartar das pessoas do mundo. Aprendi errado, e graças a Deus desaprendi logo.
O mundo que não deve ser amado (I Jo 2.15,16) é o sistema de valores pecaminosos que impera nos corações desprovidos de Cristo. As pessoas do mundo devem ser amadas (Jo 3.16). O mundo foi criado por Deus, e a Ele pertence (Sl 24.1). Não acredito naquele negócio de que o diabo é dono do mundo. Deus é Quem comanda todas as coisas. É que há três acepções bíblicas para a palavra "mundo": pessoas, universo e sistema pecaminoso.
Em se tratando de amor, há que existir relacionamento, amizade, respeito, tolerância, o que nada tem que ver com a pretendida aceitação da tal "diversidade sexual" como comportamento moralmente correto, nem de quaisquer outras condutas que a Bíblia reprova.
De toda maneira, meu propósito aqui é pensar sobre como o mundo nos enxerga. E sei que, via de regra, não estamos sendo "cartas abertas" nem "aroma de vida para vida", para usar alegorias do apóstolo Paulo. Na verdade, os crentes carnais e os crentes nominais estão em nosso meio, sem falar no joio, que será identificado somente naquele Dia.
Cada vez que penso em como as pessoas nos vêem, me dá um arrepio. Temos construído uma imagem tão negativa do Evangelho, tão materialista, individualista e superficial, que tenho nojo disso. É como se nossas palavras e ações no cotidiano já entrassem em campo perdendo de 5 a 0 para o estereótipo que ajudamos a costurar a nosso respeito.
Enfim, o homem médio pensará consigo: "lá vem o evangélico. Se ele me convidar para me associar à sua igreja, antes de me pedir alguma coisa já lhe perguntarei o que isso me renderá nesta vida. E sei que ele não me deixará sem resposta".
Pit Stop (?)
Tive que interromper por um pouco meu resumo de A Morte da Razão, de Francis Schaeffer. O livro é pequeno, mas demanda tempo e tranquilidade, algo que não estou podendo ter porque preciso tomar algumas decisões profissionais e familiares durante esses dias.
Meu amigo Rogério Brandão, que conheci lendo seus artigos no "site" ultimato.com.br, teve a idéia de criar um blog só para a Morte da Razão, que é o http://morte-da-razao.blogspot.com/. Ele coloca no blog as obras artísticas citadas por Schaeffer e faz uma crítica ao trabalho do autor, à forma como ele pensa a questão da autonomia da Razão em relação à Fé, desde Tomás de Aquino e a Renascença.
Vale a pena acessar o blog do Rogério, que mora na Alemanha e tem se dedicado ao pensamento teológico. É pena eu não poder contribuir mais intensamente com o projeto que ele está desenvolvendo em A Morte da Razão.
Talvez eu precise dedicar maior tempo ao estudo do Direito, dos concursos. Há muitas coisas a decidir e encaminhar. Por mais que eu queira, não tenho obtido sucesso em conciliar o estudo teológico e o Direito. Não que eu deseje estancar meus estudos em Teologia, mas é necessário pesar mais a mão nos livros jurídicos. Afinal, eu vivo disso.
Hoje é aniversário de minha esposa, Miriam.
Vejo o eventual leitor na próxima oportunidade.
Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008
Dos projetos de igreja
Qual deve ser o projeto de uma igreja? Como uma igreja deve se organizar, e o que deve buscar? Seria a igreja como uma empresa, estabelecendo metas e estratégias para ganhar tantas pessoas para Cristo, batizá-las, e construir tantos e quantos prédios? É isso o que se deve querer?
E mais: a igreja deve trabalhar com marketing empresarial como se tudo dependesse de princípios administrativos, como se o aspecto espiritual não contasse?
Nesse tipo de projeto, qual a medida das metas financeiras? E como se deve fazer para que a busca pelo dinheiro não passe a ser um problema moral, social e espiritual dentro do grupo?
Precisamos entender que a Igreja é uma instituição divina, assim como a família, o trabalho e a sociedade civil. Ainda que formada por homens e mulheres, todos pecadores, a Igreja foi edificada por Cristo, sendo Ele o Seu fundamento único (Mt 16.18). Bem por isso, é equivocado criar projetos que não se coadunem com o projeto de Cristo. E, diferentemente da família, do trabalho e da sociedade civil, a Igreja é instituição soteriológica, ou seja, corresponde ao plano de Salvação da Humanidade, concebido por Deus.
O projeto de uma igreja precisa estar de acordo com a Bíblia: a Igreja existe para a adoração, a comunhão e a evangelização. Pronto. Nada há de novo, e nada a acrescentar.
Se alguém quiser falar de ensino e discipulado, estes itens podem se ajustar sob a epígrafe da comunhão, pois a Igreja, que adora a Deus e anuncia a Cristo, vive em comunhão para crescer espiritualmente - isso só se dá pelo ensino e pelo discipulado, que, por sua vez, estão associados às ordenanças do batismo e da Ceia - enquanto o batismo é para o ingresso dos salvos na comunidade cristã, a Ceia representa a comunhão dos santos em torno da Cruz, o que não deixa de ser um método de ensino, de discipulado.
De qualquer maneira, o projeto da Igreja não vai muito além desses requisitos fundamentais - adoração, comunhão e evangelização.
No entanto, tem gente querendo reinventar a roda. Pode observar: o G-12 tem seu slogan: ganhar, consolidar, capacitar e enviar. São os passos que, segundo seus mestres, irão determinar o crescimento espantoso da Igreja em Células "no modelo dos 12". Também Rick Warren, talentoso em divulgar em livros seus o que a Bíblia já dizia, divide o ministério da Igreja em adoração, comunhão, discipulado, serviço e missões, mas acrescenta uma série de ensinos pragmáticos, bem ao estilo america